A Trincheira Infinita, da Netflix, tem oito indicações aos Prêmios Platino

Indicado a oito categorias dos Prêmios Platino 2020 (entre elas Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro), o espanhol A Trincheira Infinita chegou ao Brasil distribuído como original Netflix. Na trama, dirigida por Aitor Arregi, Jon Garaño e Jose Mari Goenaga, Antonio de la Torre interpreta Higinio; um republicano que passa três décadas num esconderijo dentro de sua própria casa por medo de ser detido e executado pelo franquismo.

‘A Trincheira Infinita’/ Divulgação

De altíssimo nível cinematográfico, o filme acompanha Higinio desde o momento em que ele foge da perseguição dos nacionalistas com um tiro na perna, no final da Guerra Civil Espanhola e início da ascensão do fascismo, até a declaração da anistia, na transição pós-ditadura; passando por todo o regime franquista, incluindo a Segunda Guerra Mundial. Enquanto do lado de fora a História e a vida acontecem, o protagonista vive como um fantasma amaldiçoado a permanecer preso às estruturas de uma casa por tempo indeterminado; sempre contando exclusivamente com o apoio da esposa Rosa (Belén Cuesta), seu elo com o mundo.

Aos poucos, o tempo e o confinamento desgastam o entusiasmo de Higinio pela vida, pela companheira e pela política e o transformam em alguém desgostoso. Alguém que oscila entre esperança e conformismo. A esperança quase ingênua de um dia poder andar livremente sem estar com o nome numa lista de procurados e o conformismo de pelo menos estar vivo, mesmo que isso signifique passar a vida em um buraco. É justamente a partir desse tipo de dilema, então, que a obra cresce em complexidade de construção de personagens e em desenvolvimento de narrativa.

A PERSPECTIVA DO ISOLAMENTO

Sentenciado informalmente a viver em um espaço limitado e degradante, Higinio deixa de existir para o mundo exterior e espia o que acontece do lado de fora de vez em quando, pela janela de casa. Da mesma forma, o espectador é levado a imergir na perspectiva do personagem. Sabemos do que ele sabe, vemos o que ele vê. E tal experiência é sustentada com primor pela parte técnica do filme – principalmente  pelo desenho de som e pelo jogo de claro e escuro da fotografia.

Divulgação

Por outro lado, a trajetória de Rosa também é fundamental para compor o enredo.  Inicialmente movida pela paixão, a personagem prefere ter o marido escondido atrás de uma parede do que morto. Depois, com o avançar dos anos e após várias provações, o isolamento impõe seus efeitos ao relacionamento do casal. Higinio é tomado por paranoias, inseguranças, frustrações e impotência. Rosa, solitária e vulnerável, além de sofrer humilhações é impedida de fazer planos ou realizar sonhos. Ambos, portanto, presos a uma situação que dura e exige muito mais do que poderiam prever.

Eficiente em combinar as aflições íntimas de Rosa e Higinio com as transformações da comunidade em seu entorno, o filme se destaca também pela grandiosidade das interpretações de Cuesta e De la Torre – que em A Noite de 12 anos já havia sido brilhante ao interpretar o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica em seus anos de sequestrado e torturado político. 

Profundamente melancólico e sensível às nuances do comportamento humano, A Trincheira Infinita trata do lado nada romântico da resistência – e da sobrevivência em períodos de exceção. Desse modo, e fazendo referência a casos reais de espanhóis que ficaram 30 anos escondidos em casa por medo das represálias do autoritarismo, a jornada do protagonista acaba recuperando memórias coletivas.

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Ficha Técnica:

Direção: Jon Garaño, José María Goenaga, Aitor Arregi

Duração: 2h27

País: Espanha

Ano: 2020

Elenco: Antonio de la Torre, Belén Cuesta, José Manuel Poga

Gênero: Drama

Distribuição: Netflix

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