As duas coisas que a Vaza Jato nos ensinou sobre a Netflix

O Mecanismo e o consumo apressado de conteúdo: o que a #VazaJato nos ensinou sobre os contras do modus operandi da Netflix? 

Há pouco mais de duas semanas, o jornalismo do The Intercept Brasil começou a publicar uma série de reportagens com vazamentos de conversas no mínimo comprometedoras entre os principais atores da Operação Lava Jato, que ficou famosa por “combater a corrupção no país” e por levar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à prisão.

As dimensões e consequências políticas dessas publicações sequer podem ser avaliadas com precisão, já que, ao que tudo indica, muita informação ainda está por vir à luz da esfera pública. Mas algo certamente já pode ser discutido: como a Netflix tem participação (e responsabilidade) na formação de novos hábitos de consumo apressado de informação e entretenimento e como os conteúdos da plataforma podem, sim, interferir diretamente na realidade das pessoas e até na de um país. É possível encontrar  muita coisa boa na Netflix, mas nem sempre a empresa acerta.

1.O MECANISMO É UMA SÉRIE AFOBADA E IRRESPONSÁVEL 

O envolvimento da Netflix com a política brasileira começou em março de 2018 por conta da estreia de O Mecanismo, série que parecia inofensiva – aos mais ingênuos-, mas que, no fim das contas, serviu como palanque e propaganda gratuita para os interesses da Lava Jato. 

Na época, a empresa de streaming acreditou que bancar uma série brasileira sobre um assunto do momento, e ainda por cima realizada por José Padilha, diretor internacionalmente reconhecido por Tropa de Elite e Narcos, seria um bom chamariz de público. De fato foi, mas também foi o ponto de partida para abrir debates a respeito da parcela de responsabilidade da Netflix sobre seus conteúdos originais e os limites do entretenimento. 

Hoje, depois de parte dos vazamentos de conversas entre Sérgio Moro e Deltan Dallagnol virem à tona, revelando as fragilidades da nossa democracia e do processo de julgamento de Lula, fica muito mais claro que deixar O Mecanismo ir ao ar foi de uma irresponsabilidade sem tamanho. Não se trata de censura; se trata, na verdade, de perceber que tal projeto ficcional foi afobado para surfar no burburinho que afetava o país inteiro, priorizando o espetáculo da polêmica em vez do compromisso com a sociedade. 

‘O Mecanismo’ chegou até a reproduzir a famosa apresentação de Power Point que foi usada por Dallagnol na acusação de Lula. / Netflix

A produção, como já se sabe, abordou de forma leviana aspectos da política brasileira que pertencem a um processo histórico ainda em curso, e que por isso são delicados. O Mecanismo dramatizou e transformou as tensões do país em entretenimento novelesco; foi maniqueísta e pintou os membros da força-tarefa da Lava Jato como heróis nacionais. Tudo isso baseado em achismos precipitados da equipe de criação – os mesmos achismos da população que elegeu Jair Bolsonaro como Presidente da República.

Ao que tudo indica, José Padilha, sem querer querendo, virou peça do mecanismo e levou a Netflix junto. As duas primeiras temporadas da série estão disponíveis para mais de 190 países e o estrago já está feito. Certamente o material serviu para endossar na cabeça das pessoas justamente a imagem que a operação queria – e precisava – transmitir. Funcionou praticamente uma ajuda com marketing pessoal de forma gratuita e, pior, diante do mundo todo.

A Netflix, como empresa, mantém sua potência de mercado graças a quantidade e a variedade de conteúdo que disponibiliza. O fluxo contínuo e abundante de material torna possível agradar aos mais diversos tipos de público, manter a assinatura dos usuários e garantir prestígio artístico vez ou outra. Naquele aparente infinito catálogo de opções você encontra desde obras-primas contemporâneas, como Roma, até uma enxurrada de séries e filmes genéricos que jogam com o algoritmo para saber o que o público quer ver, garantindo que haja sempre mais conteúdo à disposição para segurar a audiência. 

É nesse contexto de urgência por quantidade e popularidade que de vez em quando  “escapa” algo reprovável e apelativo. Foi necessário um acontecimento como a Vaza Jato para que ficasse claro que o caso de O Mecanismo é, sim, muito grave. E é grave porque a série, essencialmente, explora e espetaculariza o caos político presente, realiza julgamentos por ela mesma e colabora com a infantilização dos discursos – algo perigoso para sistemas políticos que já estão comprometidos.

Mas O Mecanismo não é o único caso de irresponsabilidade da empresa com seus conteúdos originais. Produções como Insatiable e 13 Reasons Why, por exemplo, são tão irresponsáveis quanto a série brasileira, só que em esferas diferentes.

‘Insatiable’/ Divulgação

2. NEM TUDO DEVE FUNCIONAR NO TEMPO DO ENTRETENIMENTO

O streaming definitivamente conseguiu moldar nossos hábitos de consumo de conteúdo na internet de acordo com seu modelo de negócio. Foi a Netflix que popularizou o termo “maratonar” quando passou a disponibilizar todos os episódios de suas séries de uma só vez, para serem vistos quando o espectador bem entender. Antes da possibilidade das maratonas, o comum era que assistíssemos a um episódio por semana, em determinado horário, em determinado canal.

Assim instalou-se o comportamento coletivo impaciente que acometeu os leitores do The Intercept Brasil nos últimos dias. Houve quem brincasse dizendo que esperava ansiosamente pelas próximas reportagens do site, mas houve também quem exigisse reportagens mais frequentes sobre a Vaza Jato.

Tais demandas fizeram os jornalistas Glenn Greenwald e Leandro Demori, principais responsáveis pelas reportagens, se manifestarem no Twitter:

Claro que materiais como os da Vaza Jato causam comoção nos leitores e geram expectativa, mas é preciso entender que um site jornalístico não funciona como a Netflix. Ir nas redes sociais da Netflix exigir para logo a próxima temporada da sua série preferida não é o mesmo que exigir para o mais rápido possível um conteúdo que interfere nos rumos do país  – foi esse tipo de análise que faltou na realização de O Mecanismo, aliás. 

Entretenimento e informação, hoje, caminham praticamente juntos, independente de isso ser considerado correto ou não – vide os programas policiais sensacionalistas. Nesse sentido, a experiência do jornalismo do Intercept com matérias de fôlego é fundamental. Além de publicar reportagens de extrema relevância, os profissionais do site se meteram numa missão de reeducação da massa de leitores e do próprio jornalismo, aproximando locutores de interlocutores, explicando nas redes sociais como funciona a abordagem jornalística e esclarecendo que uma matéria responsável precisa de tempo tanto para ser feita quanto para ser assimilada.

A Vaza Jato é importante para os rumos políticos do Brasil, com certeza, mas como efeito colateral ela tornou-se um tipo de importante respiro à hegemonia do consumo frenético e distraído de conteúdo. 

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