Crítica: Chamas do Destino (Netflix)

Disponível na Netflix desde setembro do ano passado, Chamas do Destino, uma produção do canal francês TF1, é uma série inspirada em fatos reais. Com oito episódios, a obra explora as consequências de um incêndio de proporções catastróficas, em um bazar de caridade na França do século XIX.

Adrienne de Lenverpré (Audrey Fleurot), uma dama da alta aristocracia, é vítima da violência do próprio marido. Alice de Jeansin (Camille Lou) é uma rica e ingênua jovem, que sonha em viver um romance verdadeiro. Já Rose Rivière (Julie De Bona), criada de Alice, pretende embarcar para a América do Norte com o esposo e, lá, ser muito feliz. Tão logo, o destino dessas três mulheres muda completamente, graça ao incêndio na inauguração de um bazar de caridade – que mata mais de cem pessoas em cerca de meia hora.

Com a calamidade, Adrienne, que sai um pouco antes da primeira chama consumir um projetor, decide aproveitar a ocasião para simular sua morte. Infelizmente, Alice e Rose não têm a mesma sorte da Sra. Levenpré. Presas dentro do bazar, a dama e a criada passam por terríveis minutos ao lado do fogo, até que a primeira é salva pelo anarquista Victor Minville (Victor Meutelet); e Rose fere-se gravemente.

Imagem: divulgação

Tragédia vs. melodrama

A cena do incêndio, de suspense e efeitos especiais dignos de uma tragédia como a de Titanic (1997), faz do primeiro episódio um primor do audiovisual. Mas, ao contrário do filme de 1997, no qual a invasão das águas do Atlântico é motivo de terror dentro do navio, o fogo implacável é o responsável pelo desespero recorrente na série francesa.

A forma como a tensão é construída instiga o espectador não somente a devorar o primeiro episódio, como também o torna ávido pelos próximos eventos. Assim, logo de início, as expectativas por um drama de qualidade permanecem elevadas. No entanto, o melodrama e as más resoluções dos conflitos impedem que Chamas do Destino entregue um conteúdo complexo ou reflexivo.

Não fossem por artifícios de roteiro um tanto irreais, a original Netflix seria uma ótima obra sobre a opressão contra as mulheres no fim do século XIX. Temas como violência doméstica, casamento arranjado e até questões políticas, como a rivalidade entre burgueses e anarquistas, compõem o enredo. Já algumas escolhas narrativas soam forçadas em uma produção que introduz a sua história a partir de uma cena tão dramática e realista.

Por exemplo, Rose aceitar tão rapidamente a troca de papéis com a filha de Madame Huchon (Josiane Balasko) implica que o amor por seu marido, Jean (Aurélien Wiik), não é importante o suficiente para ela contar-lhe que sobreviveu ao incêndio. Adrienne, que precisa esconder-se para que continuem acreditando em sua morte, caminha pelas ruas parisienses de rosto descoberto, como se ninguém fosse reconhecê-la. Já Alice, que conviveu com Rose durante anos, sequer é capaz de identificar a ex-criada e amiga, apenas porque o lado esquerdo de seu rosto está com queimaduras.

Adrienne (Audrey Fleurot)/ Divulgação

Os vilões

Tantos desenrolares absurdos, e pior, nos maiores núcleos da série, sobressaem-se em meio aos pontos positivos da produção. Ao mesmo tempo, embora todas as atuações sejam competentes, o elenco mirim rouba a cena. Thomas (Adrien Guionne) e Camille (Rose de Kervenoaël), o neto de Huchon e a filha de Adrienne, respectivamente, são adoráveis e muito autoconscientes; inclusive, nos momentos mais tristes ou trágicos, ambos saem-se muito bem. Enquanto isso, o sádico Marc-Antoine de Lenverpré (Gilbert Melki) é um vilão perfeito; simplesmente detestável.

Todos os homens de Chamas do Destino, aliás, são muito bons em serem péssimas referências masculinas. O noivo de Alice, Julien (Théo Fernandez) é um jovem mimado e egoísta; o pai da menina, Auguste de Jeansin (Antoine Duléry) é conservador, materialista, e controlador; e, por último, o genro de Madame Huchon, Pierre-Henri de Trémoille (Sylvain Dieuaide), é adúltero e sexualmente violento.

Consequentemente, a série traz discussões bem intencionadas e sempre pertinentes. Mas, o formato novelesco que decorre a partir do segundo episódio confunde-se com a carga dramática de maior impacto e verossimilhança. No fim das contas, a original Netflix é de um entretenimento um pouco superficial, mas de valores éticos interessantes; o que significa que assistir a Chamas do Destino é uma experiência válida, se o intuito do espectador for consumir algo despretensiosamente.

Leia também: Crítica: Perdi Meu Corpo (Netflix).

Ficha técnica:

Direção: Alexandre Laurent

País: França

Ano: 2019

Elenco: Audrey Fleurot, Julie De Bona, Camille Lou, Gilbert Melki

Gênero: Drama, Tragédia

Distribuição: Netflix


COMENTÁRIOS

3 comentários em “Crítica: Chamas do Destino (Netflix)”

  1. Chamas do Destino série extraordinária da Netflix. Como telespectador assisto à obra sem criticar os deslizes. Apreciar apenas. Atuação dos atores e atrizes impecáveis. Direção, trilha sonora, cenários: ímpares. Assistam também, Gran Hotel, Bolívar, Império Romano, Império Otomano e muitas outras obras primas, vale à pena. Pois, à programação das tvs abertas ficam a desejar.

  2. Uma pena ler q não haverá segunda temporada.
    Sobre relações sexuais antes do casamento entre as tais damas. Era comum sim. Só não divulgado. Por seus casamentos serem arranjados era a fuga q escolhiam. Ou por terem uma noite de amor com o amor da vida delas, ou pra se livrar do marido logo após casar. Pois uma vez o marido percebesse q a esposa não era mais donzela. O casamento era desfeito. A família e a dama caiam em ruínas. E assim algumas delas podiam realmente casar com os amados. Ja q não seriam mais aceitas em matrimônio. Escrevo isso com a certeza de ter na família minha tataravó
    . Nascida em Milão. Fez exatamente isso. Deu sorte. Foi devolvida a família. E seu amado meu tataravô a esposou

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