Estreia: ‘Torquato Neto – Todas as Horas do Fim’ é forte herança da poesia de Torquato

Nesta quinta (08), estreia o documentário de Eduardo Ades e Marcus Fernando, Torquato Neto – Todas Horas do Fim. O longa-metragem explora a vida do poeta brasileiro, jornalista, compositor e participante ativo do movimento denominado Tropicália – que surgiu na segunda metade dos anos 60. A partir de arquivos em imagem e vídeo, e do único registro de áudio remanescente de Torquato, somo apresentados a uma figura extremamente inteligente e atormentada.

Torquato nascera em Teresina, capital do Piauí, em novembro de 1944, e morrera no Rio de Janeiro, também no mês de novembro, aos 28 anos de idade. O talentoso poeta morreu tão jovem quanto os artistas Jimi Hendrix e Janis Joplin (ambos aos 27 anos, dois anos antes da morte do brasileiro).

A partir do documentário, somente os seres humanos mais frios ou indiferentes seriam capazes de não compadecer do sofrimento daquele que leva o nome de seu avô. Torquato, desde novinho, é descrito no longa como um menino de inteligência “fora do normal”. Aos nove anos, por exemplo, fez um poema de estrutura simples, mas, de perceptível sensibilidade: “O meu nome é Torquato/ O de meu pai é Heli/ O de minha mãe é Salomé/ O resto vem por aí“. Foi assim que a doce criança se firmou naquele mundo caótico; dona de uma sagacidade tremenda, sempre envolta à poesia.

Torquato Neto (imagem: João Rodolfo do Prado / divulgação Vitrine Filmes)

Em Salvador, à flor da pele da adolescência, Torquato conheceu Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia, aproximando-se do movimento de contracultura da época. Hélio Oiticica e Glauber Rocha também são personagens recorrentes na história do poeta. Ao longo dos anos, e após o golpe militar de 1964, Torquato vivia em intenso contato com as artes, quando, decretado o Ato Institucional nº 5, Gil e Caetano foram exilados. Assim, o poeta viu-se sedento pelo conceito de liberdade, como nunca antes estivera, e foi à Europa com sua esposa, Ana Maria, para passar uma temporada de descobertas e contemplações – na medida do que lhe era possível.

O filme é narrado por importantes figuras da vida de Torquato, como os próprios Gil e Caetano, cujas vozes aparecem algumas vezes. Inclusive, boa parte da produção é narrada pelo ator Jesuíta Barbosa. Algo notável, simultaneamente, é que nunca um entrevistado nos é mostrado – apenas ouvido. Seus rostos raramente aparecem na tela, dando espaço para os arquivos coletados previamente à produção biográfica. Dessa forma, ressoa em nossas cabeças, após o término do longa, a ideia de lirismo adotada pela dupla de diretores.

Torquato Neto e Gilberto Gil / Divulgação

Torquato sempre é citado como um homem introspectivo, reservado. Imagens de sua interpretação de um vampiro predatório, em um filme de baixo custo – e trajado em vestes pretas, longa capa e sandálias –, parecem simbolizar um estado de espírito vexado do próprio intérprete do monstro sanguinário. De volta ao Brasil, no início da década de 60, por exemplo, seu estado de deprimência constante intensificou um desejo antigo de morrer.

Desde sua época no Rio, anos atrás, dormindo num porão e frequentando reuniões da UNE, Torquato conversava com colegas sobre formas indolores de cometer suicídio. Morto por asfixia de gás doméstico; esse fora o meio adotado pelo homem que, claramente, identificamos hoje como alguém que sofria de depressão.

Há certa falta de linearidade no documentário – o que é bom –, quando a morte de Torquato é narrada no início do filme, por exemplo. “FICO. Não consigo acompanhar a marcha do progresso de minha mulher ou sou uma grande múmia que só pensa em múmias mesmo vivas e lindas feito a minha mulher na sua louca disparada para o progresso“, assim começa sua carta de suicídio, no que termina “(…) Pra mim chega! Vocês aí, peço o favor de não sacudirem demais o Thiago. Ele pode acordar“. Thiago era o filho de dois anos do poeta, hoje, com 47 anos.

(Fonte: reprodução Vitrine Filmes / YouTube)

Não há adjetivo único que defina Torquato Neto, assim como não há descrição precisa de Todas as Horas do Fim. O que é passível de conclusão, no entanto, diz respeito ao formato do documentário: assim, alinear, poético, sensível, inconvencional e necessário. Afinal, didatismo demais pode ser chato, e nada original, a esse tipo de mídia. Uma vida nutrida por poesia merece ser retratada como tal, e é isso que temos em documentários como o também brasileiro Elena (2012), ou o britânico Amy (2015) e, naturalmente, em Todas as Horas.

Torquato partiu muito cedo, e com a certeza de que esgotara sua capacidade para o trabalho artístico. Seu legado, entretanto, permanece rico entre nós – assim como sua tristeza de anos, que nos inspira a buscar por estados de espírito positivos. Devemos isso a ele, e a tudo que nos deixou de presente.

 

Ficha técnica

Ano: 2017

Duração: 1h28

Direção: Eduardo Ades, Marcus Fernando

Elenco: Torquato Neto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jesuíta Barbosa

Gênero: Documentário

Distribuidora: Vitrine Filmes

País: Brasil

 

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