Festivais de cinema para o público infantojuvenil na América Latina (Especial Retina Latina)

ATENÇÃOEste texto é uma tradução do especial realizado pelo site Retina Latina sobre festivais de cinema infantojuvenis, que acontecem em países latinos. Para ler o texto original, clique aquiNo Retina, você pode assistir gratuitamente a filmes independentes e produzidos na América Latina (sem legendas em português). Para isso, basta fazer um cadastro.

(Tradução: Vanessa Panerari / Revisão: Natália Folloni)

Com o propósito de ampliar o panorama sobre a difusão audiovisual dirigida ao público infantojuvenil na América Latina, a plataforma Retina Latina realizou um especial com a seleção de oito festivais de cinema para crianças e adolescentes que são realizados no continente – a fim de compreender os objetivos de eventos desse tipo, a percepção de seus organizadores (sobre a questão da produção cinematográfica infantil na América Latina) e os segredos para formar essas jovens audiências.

Imagens: divulgação de alguns dos festivais mencionados
FESTIVAL INFANTIL E JUVENIL CHULPICINE (EQUADOR)

Freddy Sarzoza é comunicador social e encarregado da comunicação do Festival Chulpicine.

Freddy Sarzoza:

Produção cinematográfica para o público infantojuvenil: A percepção quanto a esse tipo de produção cinematográfica não é muito encorajadora. É muito difícil conseguir material audiovisual para o público infantil na América Latina, porque enfrentamos, majoritariamente, dois problemas: o primeiro é que as produções vêm da Argentina e do Brasil. No caso da Argentina, a produção de cinema infantil não é frequente, já que conseguimos material em períodos de tempo muito espaçados. O mesmo acontece no Brasil, com o agravante de que as dublagens para o espanhol se fazem necessárias. O cenário da produção cinematográfica infantil e latina é escasso, mas não muito diferente da produção televisiva. Por um lado, existe desinteresse e, por outro, falta de financiamento que permita gerar uma continuidade (dessas produções).

Como formar audiências infantojuvenis do cinema latino-americano:

Não acreditamos que existam métodos pré-fabricados para formar audiências, porque elas dependem de múltiplos fatores. No entanto, através de nossos 16 anos de experiência com o Chulpicine, pudemos observar que a itinerância até zonas mais afastadas, com pouco ou nada de acesso a atividades audiovisuais, é vital, porque as primeiras imagens que esse público recebe, que são alternativas e apresentam uma estética diferente do cinema comercial, fica como primeira impressão.

Também pudemos observar que a ocupação de espaços locais é vital para a conexão com o material audiovisual. Quer dizer, quando existem histórias nas quais o público se reconhece, se identifica, ele assume com maior facilidade a produção audiovisual. E, quem sabe, como terceiro elemento, está a forma como se constroem os materiais audiovisuais. Acreditamos que a estética utilizada deve ter um ritmo, cor e identidade. Estes elementos não poderão colaborar com uma formação de público, caso não seja feita uma divulgação adequada do material, e já que nem sempre se deve abusar da divulgação. Em muitos casos, uma má propaganda também pode fazer com que a produção “se queime”.

 

FESTICINEKIDS (COLÔMBIA)

Wadith Rodríguez Solórzano, coordenador de Projetos/Fundação FesticineKids.

Wadith Rodríguez:

Produção cinematográfica para o público infantojuvenil:

A respeito da percepção sobre a produção cinematográfica para o público infantojuvenil na América Latina, comparando-a com a produção para a televisão, vemos que a realização do cinema ainda enfrenta grandes obstáculos. Sem dúvidas, o financiamento é um grande empecilho, mas não é o único, porque, embora tenham sido feitos filmes que agradem tais audiências, histórias que mobilizem o público às salas de cinema fazem falta.

Para isso, não são necessárias grandes somas de dinheiro, como demonstra o filme cubano Habanastation. Mesmo que, segundo as palavras do próprio diretor, a produção tenha sido filmada com câmeras que seriam utilizadas no máximo para gravar um making off – em filmes tidos como grandes –, a audiência alcançada foi tão grande que as filas para assistir à produção dobravam quarteirões em Havana. Um acerto desse filme foi retratar com maestria várias realidades latino-americanas e contemporâneas, o que permitiu não somente que o público cubano se identificasse, como também que o público e a crítica especializada de outros países, interna e externa à região, manifestassem seu agrado – e como indicam os prêmios recebidos pela produção.

Filme cubano ‘Habanastation’ / Divulgação

Em outras palavras, a produção cinematográfica para o público infantojuvenil deve renunciar ao desafio de obter êxito imitando o que se faz em Hollywood – um desafio difícil de se alcançar, se considerarmos as enormes diferenças de orçamentos. A real tarefa consiste em avançar em direção a histórias capazes de gerar identificação do público latino-americano; uma tarefa complexa, considerando a diversidade de nossa região. Nesse sentido, um terceiro desafio é a formação de audiência, que tem o papel de acompanhar o público para que ele se desloque rumo ao cinema latino, desde o mais cedo possível.   

Como formar audiências infantojuvenis do cinema latino-americano:

Não me atreveria a discutir um método, mas, algo que tem funcionado muito bem para nós é a relação que temos estabelecido com os colégios da cidade. Essa relação com as instituições educativas tem possibilitado que a formação de públicos não se esgote nas ações desenvolvidas diretamente por nós em festivais, já que vários docentes – os mais valentes – continuam agindo dessa forma, a partir de seus trabalhos diários. Por exemplo, um amigo docente iniciou um festival de curta-metragens realizados pelos estudantes de seu colégio, e sabemos de outras instituições em que professores de castelhano, inglês ou artes envolvem o cinema no conteúdo de suas aulas.

Essa mesma relação com as escolas tem nos permitido criar, também, projetos especialmente dirigidos à comunidade educativa local, como nosso Movie Club Kids, que é um cineclube que recebe mensalmente mais de 100 estudantes e seus professores para ver e falar de cinema; e nossa Escola de Cine Kids – uma jornada escolar complementar que, até agora, foi realizada em seis colégios de Cartagena, e cujo propósito consiste em promover a apreciação cinematográfica como componente estratégico, favorável às habilidades comunicativas dos estudantes e de forma a contribuir com sua formação humana. A partir desses projetos, temos nos esforçado para estabelecer uma relação horizontal com o público, permitindo que ele participe e intervenha ativamente em cada programa. E, graças a avaliações coletivas, damos ao público a oportunidade de contribuir com a melhora de cada projeto, o que abre espaços para que eles preparem e orientem parte dos encontros ou das oficinas realizadas.

 

MI PRIMER FESTIVAL (PERU)

Betty Cisneros Contreras de VISIBLE media, Peru.

Betty Cisneros:

Produção cinematográfica para o público infantojuvenil: Considero que a produção cinematográfica para o público infantojuvenil na América Latina está em um momento de crescimento, em que cada vez mais produções latinas estão sendo realizadas. Definitivamente, existe um problema de orçamento, mas, em contrapartida, existem ideias que estão se realizando com uma frequência maior do que antes. Há países como Brasil, Argentina, Colômbia, Chile e México, que estão à nossa frente. Mesmo assim, no Peru, já temos plataformas de difusão, como um canal infantil, Mi Primer Festival, e o entusiasmo dos jovens ao criarem conteúdos audiovisuais. Estamos começando uma etapa de expansão e nos parece uma boa oportunidade para continuarmos a gerar formadores e novos públicos.

Como formar audiências infantojuvenis do cinema latino-americano: Nós acreditamos que a educação é o único meio de incentivar as crianças a terem um olhar próprio, consciente e consistente. E, através da linguagem cinematográfica e das novas tecnologias – que é a linguagem natural das crianças e dos jovens –, podemos gerar uma mudança transcendental.

 

FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINE PARA NIÑOS Y JÓVENES DEL URUGUAY – DIVERCINE (URUGUAI)

Ricardo Casas, diretor do Festival.

Ricardo Casas:

Produção cinematográfica para o público infantojuvenil: Na América Latina, a produção cinematográfica para o público infantojuvenil é escassa e, algumas vezes, de baixa qualidade – tanto tecnicamente, quanto em relação ao conteúdo. Isso acontece basicamente pelo baixo financiamento a empreendimentos dirigidos às crianças e aos jovens. Se compararmos com países da Europa Central ou Países Nórdicos, notaremos a diferença. Há pouca formação e possibilidade de experimentação, justamente pelos apoios reduzidos e falta de políticas públicas concretas. Curiosamente, temos realizadores (poucos, mas muito bons), que são premiados e requisitados por todo o mundo: Walter Tournier, Juan Pablo Zaramella, Jesús Pérez, Alé Abreu e etc. E, há experiências televisivas modelos, como a TV Cultura de Beth Carmona e o Canal Pakapaka de Cielo Salviolo.

Como formar audiências infantojuvenis do cinema latino-americano:

O segredo para formar audiências infantis e juvenis do cinema latino-americano é armar uma programação que leve em conta as diferentes idades das crianças e dos jovens. Uma audiência de três anos de idade não é igual a uma de 13, considerando que as crianças de mesma faixa etária e diferentes contextos, culturas e países são mais parecidas do que muitos acreditam. É necessário, sobretudo, lhes oferecer respeito e conteúdos de qualidade, para que eles reconheçam facilmente quando forem criados com sensibilidade e honestidade o suficiente. Não podemos esquecer também da formação dos realizadores. Muitas vezes, uma pessoa de formação não-específica para tal função acaba se apropriando de fundos disponíveis.

Se uma porcentagem da população é infantil, seria interessante que a mesma porcentagem de subsídio à produção audiovisual se destinasse a essa população – um princípio de equidade que permite formar uma indústria menos insignificante, se compararmos aos exemplos do resto do mundo.

 

LA MATATENA (MÉXICO)

Liset Cotera, fundadora e diretora do Festival Internacional de Cine para Niños (…y no tan Niños).

Liset Cotera:

Produção cinematográfica para o público infantojuvenil: Considero que a produção cinematográfica para o público infantojuvenil na América Latina não se desenvolveu como deveria, porque ele não aconteceu como nos Países Nórdicos, Alemanha, França e Canadá. Penso que não se conheça o gênero de cinema para crianças e, por causa disso, há uma grave confusão, já que muitas pessoas pensam que basta que apareçam meninas e meninos atuando para ser cinema de criança. O gênero de cinema infantil precisa ser conhecido, explorado e trabalhado com equipes multidisciplinares. Ele precisa partir das emoções e sensações das crianças, além de enfrentar as necessidades das diferentes infâncias.

Como formar audiências infantojuvenis do cinema latino-americano: Acredito que é possível formar audiências infantis e juvenis mostrando-lhes um cinema de qualidade. É necessário que eles sejam introduzidos ao mundo das imagens em movimento e expostos a um cinema dirigido a eles mesmos. Um cinema que retrate suas emoções e suas inquietações. Além de buscar um cinema com bom conteúdo e boa realização.

 

FESTIVAL OJO DE PESCADO (CHILE)

Alejandra Fritis Zapata, diretora do Festival.

Alejandra Fritis:

Produção cinematográfica para o público infantojuvenil:

Acreditamos que o cinema chileno, apesar de sua proliferação e êxito internacional, não considerou adequadamente o público infantojuvenil. A produção cinematográfica chilena para tal é quase nula, e tampouco existem incentivos reais para que a situação mude. A animação chilena também tem grande qualidade e reconhecimento, mas, os curtas de animação, infelizmente, não tem grande circulação pelo Chile. Por outro lado, há as produções televisivas, que, pelo fato de não existir no Chile uma televisão pública, cultural e infantil, têm pouca difusão e impacto dentro do território nacional. Se olharmos pelo âmbito latino-americano, sim, encontraremos produções infantis muito interessantes de serem difundidas no Chile, mas, tais filmes não chegam por meio dos circuitos comerciais, devido ao monopólio e aos riscos que a distribuição e exibição cinematográfica de nossos países não assumem.

Assim, a audiência infantil chilena deve se conformar em ver as estreias estadunidenses, ou esperar por eventos como o Festival Ojo de Pescado (“Olho de Peixe”) para receber uma programação diferente e mais próxima de suas identidades. Acreditamos que essa seja uma realidade comum em todo o continente latino, mas, a existência de canais de televisão culturais e/ou infantis, como no México, Argentina e Peru, faz diferença na promoção de conteúdos e oferta audiovisual para a infância nesses países. No Chile, ainda não contamos com essa vantagem.

Como formar audiências infantojuvenis do cinema latino-americano: Acreditamos que formar audiências infantis do cinema latino-americano é possível a partir da promoção de produções nacionais para a infância, em cada um dos nossos países, e de coproduções latino-americanas nessa área. Os meninos e meninas latinos deveriam ver, desde pequenos, filmes que reforcem sua identidade, desenvolvendo o hábito de acompanhar cinema nacional e latino, valorizando nossas cinematografias.

 

CINEDUC (BRASIL)

Marialva Monteiro, fundadora do Cineduc.

En 2017, o Cineduc completou 47 anos do início de suas atividades, e 28 anos da realização do festival.

Marialva Monteiro:

Como formar audiências infantojuvenis do cinema latino-americano: O desenvolvimento de mostras e festivais dedicados ao público infantil é importante, não apenas porque as crianças são um potencial público adulto, mas porque elas são importantes em si mesmas como espectadores, merecendo que sejam feitos e exibidos filmes especialmente para elas. As crianças possuem uma percepção diferente da dos adultos e compreendem o mundo de maneira diversa. Ao mesmo tempo, são seres em formação e precisam contar com oportunidades para reflexão, comparação e pluralidade de informações – não apenas no espaço escolar, mas também no âmbito da diversão. Para desenvolver esse processo de formação de públicos infantis e juvenis, também é fundamental contar com exibições de filmes e espaços de reflexão nas escolas, assim como formar adequadamente os professores.

 

FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA NUEVA MIRADA (ARGENTINA)

Victor Kon é vice-presidente da Associação Nueva Mirada.

Víctor Kon:

Produção cinematográfica para o público infantojuvenil: Na última década, a produção cinematográfica argentina cresceu exponencialmente, mas o mesmo não aconteceu com a produção dedicada à infância e juventude. Temos a percepção de que é uma situação generalizada na região. Na Argentina, a melhor contribuição audiovisual, além de um filme como Metegol, veio do canal de TV ENCUENTRO, promovido pelo Ministério da Educação da Nação. Nele, destacou-se a série em torno do personagem de animação “Zamba”, exibido em 2010, sobre um garoto que vivia aventuras aprendendo a história da Argentina, mas é lamentável que boa parte desses incentivos não tenham continuidade por decisões institucionais. A Argentina também possui uma indústria desenvolvida de jogos eletrônicos, mas sua produção é condicionada principalmente pelo mercado.

Como formar audiências infantojuvenis do cinema latino-americano: O segredo para a formação de audiências está no sistema educativo. Contamos com 52 mil escolas, 11 milhões de alunos e cerca de 1 milhão de docentes. O sistema permitiria ações estáveis não somente de exibições, mas também de criação audiovisual. Neste sentido, houve um certo crescimento, mas ainda estamos muito longe do quanto é necessário e do que é possível. São os alunos que trazem a demanda de fora da escola, mas ainda não há consciência suficiente nas autoridades e em um determinado setor, porque há resistência à imagem em movimento como um instrumento de aprendizagem.

 

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