Mamãe, Mamãe, Mamãe: o luto e o desabrochar do amadurecimento

Mesmo na companhia das primas Leoncia (Matilde Creimer), Manuela (Camila Zolezzi) e Nerina (Chloé Cherchyk), a jovem Cleo (Agustina Milstein) se sente sozinha. Sua irmã mais nova acabara de morrer afogada na piscina. A mãe (Jennifer Moule), em choque e deprimida, não sai do quarto. A tia (Vera Fogwill), atarefada com as demandas da casa e preocupada com o estado emocional da irmã, está sempre por perto, mas vai se tornando figurante no convívio com as crianças. Ninguém fala abertamente sobre a fatalidade, e logo o não-dito cria barreiras entre as adultas e as garotas, fazendo com que tudo pareça um delírio febril de verão.

Menção Especial do Júri da seção Generation Kplus no Festival de Berlim, Mamãe, Mamãe, Mamãe, da argentina Sol Berruezo Pichon-Rivière, se dedica a explorar os microcosmos das quatro meninas postas em tela. Todas afetadas pela atmosfera de luto que toma conta da casa, mas cada uma absorta em suas próprias questões.

Marcada pelo acidente da irmã, e sem conseguir se comunicar com a mãe, Cleo  lida com o sentimento de impotência. Enquanto isso, cada prima, de acordo com sua faixa etária, vivencia aqueles dias de maneira diferente; recolhidas, alheias ao mundo exterior. Aos poucos, porém, o desnorteamento da situação e a individuação do luto dão lugar a um todo de convivência que reúne as experiências das personagens num mesmo sentido.

‘Mamãe, Mamãe, Mamãe’/ Divulgação

CONTINUAR, AMADURECER

Inteiramente protagonizado e realizado por mulheres, o primeiro longa-metragem de Pichon-Rivière se dedica ao que há de mais natural, e ao mesmo tempo lírico, no universo feminino da infância. Aparecem, então, a ingenuidade da menina mais nova sobre o seu entorno, a curiosidade sobre o primeiro beijo das duas do meio, um interesse romântico platônico da mais velha. Um certo condicionamento de ideias sobre o que é ser mulher, a primeira menstruação, o medo de lidar com o que há lá fora, a angústia de não saber como voltar a se relacionar com a própria mãe, o temor de serem elas mesmas as próximas interrompidas.

É interessante notar a trajetória do movimento que a diretora propõe: da precoce e dramática interrupção de uma vida para a naturalidade do desabrochar de outras quatro. Esteticamente, a proposta parece tomar forma de um sonho que equilibra o comum e o sublime. Singelo, portanto, Mamãe, Mamãe, Mamãe observa a essência do amadurecimento feminino (guardadas as particulares de raça e classe) a partir de um processo narrativo de elaboração do luto. Reside nos mais simples e panorâmicos detalhes das interações dessas mulheres e meninas o eixo central da trama.

Não à toa, a coelha adotada pelas crianças, símbolo da fertilidade e do recomeço da vida, serve metaforicamente como costura da reunião das personagens. Quando recomeçam a compartilhar momentos e emoções, deixando para trás a etapa do alheamento e o vazio das incertezas, elas estão prontas para voltar a caminhar e descobrir um novo futuro juntas. Um bom filme de estreia, e uma diretora promissora.

Este texto faz parte da nossa cobertura da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Ficha Técnica:

Direção: Sol Berruezo Pichon-Rivière

Duração: 1h05

País: Argentina

Ano: 2020

Elenco: Agustina Milstein, Siumara Castillo, Chloé Cherchyk, Camila Zolezzi, Matilde Creimer, Jennifer Moule, Vera Fogwill

Gênero: Drama

Distribuição: —

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