Minhas Famílias: Em documentário, diretor chinês homossexual registra sua relação com o conservadorismo da própria família

Hao Wu deixou a China muito jovem para viver nos EUA e poder ser quem é com alguma liberdade. Filho homem de uma grande e tradicional família chinesa, ele cresceu sufocado, envolto a gritarias domésticas, superproteção de uma mãe controladora e expectativas conservadoras sobre seu futuro. Por isso, voltar ao seu país de origem é sempre um fardo.

Mas decidido a ser pai e viver um relacionamento homoafetivo abertamente, o cineasta começa a investigar como a família mais próxima lida com suas escolhas e como se dará esse processo de se impor diante de pensamentos retrógrados sobre o que é ser um homem de verdade. Para tanto, ele decide fazer um filme e registrar algumas de suas viagens à China, alternando as filmagens entre momentos de entrevistas com os familiares chineses e gravações quase amadoras do dia a dia.

O diretor protagonista Hao Wu / Divulgação

Assim nasce Minhas Famílias, documentário que está disponível na Netflix desde o dia 3 deste mês. Nele, Hao Wu contextualiza, ao longo de 40 minutos,  a dinâmica familiar daqueles que representam suas origens, mostra como está formando uma nova família com o marido Eric nos EUA e, por fim, tenta descobrir como essas duas famílias podem conviver.

O registro proposto pelo filme é absolutamente pessoal e diz respeito a um processo também muito particular e único. As escolhas e ações do diretor protagonista, questionáveis ou não, representam suas vivências, seus sentimentos e possibilidades.

Pela trilha sonora notamos que revisitar a família chinesa e encarar aquele ambiente de opressão parece ainda ser algo constrangedor para Wu. Isso porque em momentos dramáticos, nos ápices de conflito, ele opta por músicas descontraídas, como se quisesse aliviar os próprios pesares; ou dizer ao público que está tudo sob controle, que ele está “acostumado” à tensão dessas situações.

Minhas Famílias funciona, portanto,  como um recurso de catarse para o diretor. Com um filme tão subjetivo e íntimo, Hao Wu expurga os fantasmas que o acompanharam desde a juventude – e o que fizeram se afastar de casa – e cogita novos meios de interação com uma família que parece viver no limite entre amor e toxicidade.

‘Minhas Famílias’ / Divulgação

O média-metragem acaba passando por cima de várias questões importantes com certa pressa. Talvez fosse importante sabermos mais, por exemplo, sobre como Eric se sente em relação aos posicionamentos da família de Wu.

Também poderia ser válida uma maior atenção à escolha de ter filhos via barriga de aluguel; ter a necessidade de ser pai de bebês com traços chineses para agradar os próprios pais não demonstra, de alguma maneira, que Hao Wu ainda sente certa obrigação de cumprir os desejos da família e, quem sabe, compensá-los por terem que amar alguém que não é como esperavam? Isso não é aprofundado por comentários do diretor, mas abre brechas para possíveis discussões.

É provável que estes pontos não examinados pela catarse pública de Wu sejam questões ainda delicadas para ele; feridas abertas de alguém que é independente financeiramente, mas segue carregando preocupações emocionais. De qualquer maneira, o filme encontra espaço para apontar como, mesmo quando há amor, famílias podem ser abusivas e tóxicas, além de questionar o que é ser normal e quão problemáticos são os padrões de masculinidades heterossexuais.

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Ficha técnica

Direção: Hao Wu

Duração: 40 min

País: EUA

Ano: 2019

Gênero: Documentário

Distribuição: Netflix

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