Crítica: Muito Amor Pra Dar (Netflix)

Fernando (Adrián Suar) tem um coração muito grande, tão grande que nele cabem duas famílias. Por isso, de segunda a quinta-feira o médico vive em Mar del Plata com Paula (Gabriela Toscano), sua primeira esposa; e de sexta a domingo em Buenos Aires, com Vera (Soledad Villamil). As duas, claro, não imaginam que o marido sofra de uma “síndrome do coração enorme”. Para elas, os deslocamentos entre uma cidade e outra acontecem somente por necessidades profissionais. 

Bígamo convicto há uma década, o protagonista do longa argentino Muito Amor Pra Dar (Corazón Loco, no original) mantém ativa toda uma operação logística para conservar as duas famílias sem ser descoberto. Tudo vai por água abaixo, obviamente, quando pequenos imprevistos começam a levantar as suspeitas das esposas e prometer confusão.

Dirigido por Marcos Carnevale, a comédia, que tinha estreia comercial marcada para início de março nos cinemas argentinos, foi atropelada pelos efeitos da pandemia da Covid-19 e acabou estreando diretamente na Netflix

‘Muito Amor pra Dar’/ Divulgação

AS TRAPALHADAS DE UM HOMEM APAIXONADO

Explicitamente forçoso na sugestão sobre de que modo o caráter do protagonista deve ser interpretado, o roteiro de Carnevale e Suar gasta enorme energia apresentando Fernando como um homem quase ingenuamente apaixonado, dedicado na mesma medida a suas duas famílias; um marido ideal que se apaixonou duas vezes e, por isso, se desdobra para fazer duas mulheres felizes. E as esposas enganadas? Vivem tranquilas e satisfeitas em seus casamentos perfeitos, até descobrirem a bigamia do marido e se transformarem em completas desequilibradas. 

Sob uma premissa cheia de lugares comuns, Muito Amor Pra Dar divide-se em dois momentos. No primeiro, há que se admitir que a direção de Carnevale empolga. Principalmente porque o diretor escolhe produzir humor a partir da combinação entre as peripécias logísticas do bonachão protagonista e uma trilha sonora canastrona de ação. 

No entanto, trilhas bem posicionadas não fazem milagre, e muito menos disfarçam todas as limitações de um roteiro que parece saber por onde começar, mas não como terminar. Assim, no segundo momento, quando Fernando é descoberto por Paula e Vera, o filme resvala em humor grosseiro e malconformado.

Imagem: divulgação

FERNANDO, O SONSO

Sem desenrolar nenhuma complexidade de conflitos, a produção descamba pra um Relatos Selvagens fajuto, protagonizado por duas mulheres desequilibradas, furiosas, violentas e vingativas que se unem contra o pobre homem incompreendido – destaque especialmente negativo para o arco da personagem de Soledad Villamil, que muda drasticamente de mulher bem resolvida e racional para uma psicótica cartunesca.

Aliás, chega a ser piegas, para não dizer antiquado ou misógino, a naturalidade conferida à premissa do sujeito que acredita piamente ser possível enganar duas mulheres e continuar merecendo o posto de marido ideal. Em se tratando de uma comédia, o cenário é pior ainda, já que perde-se a oportunidade de usar de ironia para tratar das contradições de Fernando; alguém que, no fundo, dedica-se apenas a si mesmo.

No fim, o resultado é um filme mais abrutalhado que divertido; cuja trama se perde em bizarrice gratuita por reafirmar exaustivamente as boas intenções do protagonista, colocar duas mulheres traídas como loucas e abrir mão de usar a sonsice do infiel como fonte de boas sacadas de humor. 

Leia também: “Crimes de Família (Netflix)”

Ficha Técnica:

Direção: Marcos Carnevale

Duração: 1h48

País: Argentina

Ano: 2020

Elenco: Adrián Suar, Soledad Villamil, Gabriela Toscano, Alan Sabbagh, Darío Barassi

Gênero: Comédia

Distribuição: Netflix

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