O Despertar das Formigas e as revoluções internas das mulheres

Indicado ao Goya 2020 de Melhor Filme Ibero-Americano, vencedor do Festival de Gramado 2019 na mesma categoria e representante da Costa Rica no Oscar 2020, O Despertar das Formigas estreou com pouquíssimas sessões no Brasil. Apesar da difícil distribuição e da falta de tradição cinematográfica de seu país de origem, este primeiro longa-metragem da cineasta Antonella Sudasassi aborda uma temática universal: as micro-opressões cotidianas que sofrem as mulheres.

‘O Despertar das Formigas’/ Divulgação

No filme, Isabel (Daniela Valenciano) é uma boa mãe e uma boa esposa; um exemplo de bom comportamento feminino. Seu único defeito, de acordo com a família, é ainda não ter dado um filho homem ao marido Alcides (Leynar Gómez).

O problema é que Isa, costureira e já mãe de duas filhas, não quer mais engravidar e passar apertos financeiros-  mesmo sem poder dizer isso abertamente. Atormentada pelas interferências de todos ao seu redor em suas decisões como mulher e mãe e absorvida por um ambiente que lhe impõe subserviência e anulamento de individualidade, a protagonista começa a sentir um profundo descontentamento em relação ao papel que desempenha em seu núcleo familiar.

As formigas, portanto, surgem como metáfora principal da produção. Primeiro, apresentadas como signos do trabalho duro e repetitivo em prol da manutenção do coletivo. Depois, representando a chegada ao limite de Isabel; quando ela cada vez suporta menos ser pressionada constantemente por uma rede de reprodução de opressões.

O ALÇAR DA PRÓPRIA VOZ

Sudasassi é meticulosa ao retratar o cotidiano e a personalidade de Isa. Transitando a ação entre a rotina doméstica da personagem e suas tímidas participações nas confraternizações de família, ela desenvolve uma mulher mentalmente sobrecarregada, intimamente solitária e profissionalmente limitada pelas necessidades dos demais.  

Imagem: divulgação

Não que Alcides seja um marido cruel; ele é, na verdade, um homem comum.  Alguém que se beneficia da situação como está posta e que, pela suposta naturalidade do machismo e dos padrões de gênero enraizados socialmente, em nenhum momento cogita aliviar os sacrifícios da esposa.

Então, à medida que Isa acumula exaustão, frustração e aborrecimentos, um formigamento toma seu corpo, cada vez mais inquieto. Em tela, tal efeito ganha forma ao ser representado simbolicamente por uma invasão de formigas na casa da personagem.

Gradativa e inevitavelmente, a revolução interna e radical de Isa transborda no resto da família; mudando dinâmicas que pareciam imutáveis e reconfigurando, quem sabe, as possibilidades de futuro das filhas – mulheres em formação.

Singelo e ao mesmo tempo rigoroso com a realidade a que se refere, O Despertar das Formigas exibe um cuidado fenomenal com os detalhes das cenas que contribuem para a crescente de manifestação de voz de Isa – e que dialogam diretamente com o contexto de inúmeras mulheres latino-americanas.

Ao comentar o tamanho dos cabelos da protagonista; insistir nos momentos que ela se priva de ter uma lâmpada própria para trabalhar; deixar no ar os julgamentos passivo-agressivos da sogra e da nora ou expor a desatenção de Alcides com as necessidades alheias – na cena da cozinha, principalmente – , a diretora constrói situações e sentimentos profundamente realistas.

Como resultado, tem-se um belo filme sobre o movimento de busca por autonomia para si mesma e para o futuro. Destaque para a atuação brilhantemente contida e completamente potente de Daniela Valenciano. 

Leia também: “Conheça os filmes latino-americanos que tentam uma indicação ao Oscar 2020 de Melhor Filme Internacional”
Ficha Técnica:

Direção: Antonella Sudasassi

Duração: 1h34

País: Costa Rica

Ano: 2019

Elenco: Daniela Valenciano, Leynar Gomez, Adriana Alvarez

Gênero: Drama

Distribuição: Klaxon Cultura Audiovisual

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