Olhos que Condenam e Guerras do Brasil.doc: duas importantes séries para você assistir em junho, na Netflix

Nos últimos dias, duas séries importantes  para a compreensão das sociedades estadunidense e brasileira chegaram à Netflix. A primeira é a minissérie limitada Olhos que Condenam, de Ava DuVernay. Nela, a diretora ficcionaliza o famoso caso dos “cinco do Central Park”, catastrófico e revoltante episódio de racismo da história da justiça norte-americana. Já a segunda é Guerras do Brasil. doc, produção de Luiz Bolognesi que traça um panorama dos conflitos políticos, sociais e econômicos que fizeram – e seguem fazendo – do Brasil o que ele é hoje.

Saiba mais sobre cada uma delas:

OLHOS QUE CONDENAM

Era noite de 19 de abril de 1989 quando a corredora Trisha Meili fora brutalmente atacada, violentada e deixada para morrer em algum lugar do Central Park. Na mesma noite, vários jovens negros estavam no parque fazendo o que as autoridades chamaram de “arruaça”.

Não demorou muito para que essas mesmas autoridades, desesperadas para solucionar rápido um caso de grande repercussão midiática, abrissem mão de qualquer investigação para simplesmente arrumar alguém em quem colocar a culpa e encerrar a história.

Trailer de “Olhos que Condenam” / Netflix Brasil – YouTube

Assim, a polícia imediatamente associou a presença dos jovens negros ao estupro, coagiu cinco deles (quatro negros e um latino) a darem depoimentos falsos, manipulou evidências e armou a politicagem do caso Trisha Meili sem se importar com os destino dos injustamente condenados.

Os jovens foram soltos muitos anos depois, somente quando o verdadeiro estuprador confessou o crime e acabou revelando a armação do caso. Cada um  dos cinco recebeu uma indenização da cidade de Nova Iorque, dinheiro que nitidamente não repara vidas destruídas por uma década de abusos, humilhações e imprudência.

Fazendo jus ao título da série, em Olhos que Condenam a diretora Ava DuVernay procura trabalhar o olhar, a forma de enxergar o outro. Com movimentos de câmera e montagem ela nos faz acompanhar muito de perto a dor e a injustiça vividas por garotos que tiveram suas juventudes negadas pelo Estado. Ao mesmo tempo em que nos leva a exercitar o olhar empático, tanta proximidade também nos chama a assumir nossas parcelas de responsabilidade coletiva por sociedades que tratam jovens negros com tamanha crueldade.

Dividida em quatro episódios viscerais de pouco mais de uma hora cada, a obra se dedica a reconstituir a noite do crime e o começo dos abusos policiais, o período de julgamento, o tempo de prisão dos garotos, bem como suas tentativas frustrantes de ressocialização em meio aos preconceitos da comunidade nova iorquina, e o desfecho do caso, quando eles são finalmente inocentados.

Nesse novo trabalho, portanto, Ava DuVernay volta a tratar de temas que lhes são caros, tais como sistema prisional, políticas de encarceramento, Judiciário corrupto, racismo estrutural e institucional e violência policial. Por isso, é possível dizer que a série, distribuída como original Netflix, ilustra e complementa bem as discussões propostas pela diretora no documentário A 13ª Emenda – também disponível na Netflix.

GUERRAS DO BRASIL. DOC

“Não tem paz em lugar nenhum. É guerra em todos os lugares e o tempo todo”, diz o historiador e filósofo indígena Ailton Krenak no primeiro episódio da série documental Guerras do Brasil. doc, dirigida por Luiz Bolognesi (Ex- Pajé e Uma História de Amor e Fúria) e distribuída originalmente pelo Canal Curta!.

A história do Brasil pós-colonização é uma sangrenta e contínua história de conflitos e violência; de opressão e resistência. E é dessa história que se trata a série de Bolognesi, recém chegada à Netflix e agora acessível a milhares de pessoas graças a distribuição via streaming.

(Fonte: Luiz Bolognesi/ Instagram)

Ao todo são cinco episódios de 26 minutos. Depois do piloto sobre a colonização, Guerras do Brasil.doc aborda as guerras de Palmares, a Guerra do Paraguai, a ascensão da Era vargas e a guerra do tráfico.

Cada um dos episódios traz depoimentos claros e objetivos de especialistas sobre pontos-chaves da história da formação da sociedade brasileira – o último episódio chega a tecer reflexões sobre o sistema prisional brasileiro, tema que conversa com a obra de DuVernay. São conflitos armados históricos que acontecem em determinado tempo-espaço, mas que seguem reverberando.

Informativa, educativa e dinâmica, a produção usa imagens de arquivo e ilustrações para compor sua narrativa. E, por incrível que pareça, agora é possível conhecer uma boa parte da história do Brasil em menos de três horas, na Netflix.

Tanto Olhos que Condenam como Guerras do Brasil.doc ressaltam, cada uma à sua maneira, a importância da memória e da compreensão de estruturas sociais e arranjos de poder para enxergarmos e entendermos os conflitos da contemporaneidade tal como eles são.

Em tempos de algoritmos que nos sufocam de produções pouco memoráveis, se permitir dar play em obras como essas é, além de um respiro, muito importante.

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