Parece Comigo, um curta-metragem sobre a importância da representatividade na infância

“Meninas negras não brincam com bonecas pretas”, diz a letra da música Falsa Abolição, composta pela rapper Joyce Fernandes (Preta Rara), uma das entrevistadas do curta-metragem Parece Comigo.

O filme, dirigido por Kelly Cristina Spinelli, é um documentário de pouco mais de 25 minutos que traz depoimentos de mães, crianças e bonequeiras sobre a importância da representatividade na infância, mostrando, com dados e entrevistas, como os padrões estéticos racistas são introduzidos no imaginário das crianças desde cedo com a ausência de opções de bonecas negras, por exemplo.

Imagem: divulgação

Parece Comigo usa o brinquedo boneca, algo que parece tão banal, para propor reflexões elaboradas sobre a relação direta que existe entre comportamentos de mercado e padrões estéticos e culturais racistas impostos às crianças brasileiras.

O curta contrapõe de forma competente – expondo um viés pouco explorado da discussão sobre questões identitárias – a militância das bonequeiras, mulheres negras que confeccionam bonecas negras artesanalmente para vender, com o comportamento de uma indústria de brinquedos que, quando muito, produz dois tipos de bonecas negras (como uma espécie de cota),  ignorando a realidade de um país onde mais de 53% da população é negra.

Ana Júlia dos Santos (Ana Fulô), bonequeira / Divulgação

Ao observarmos a dinâmica da  disputa de narrativa entre bonequeiras e grandes marcas de brinquedos, fica claro quem está em desvantagem.  Além de lidarem com o poder econômico do racismo estrutural, as mulheres que se dedicam às bonecas negras também esbarram na naturalização da não-representatividade pelos próprios sujeitos negros, num processo que as entrevistadas chamam de interiorização do preconceito.

Parece Comigo é um documentário bonito, claro, eficiente em seus propósitos e até otimista. Tratar de questões como pertencimento e autoestima de crianças negras a partir da ausência de representatividade nos brinquedos e da importância da profissão bonequeira (uma profissão de resistência), é uma abordagem riquíssima. Kelly Cristina Spinelli produziu um curta-metragem que tem muito a contribuir para o debate acerca de questões raciais no Brasil.

 

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Ficha técnica

Direção: Kelly Cristina Spinelli

Duração: 26 min

País: Brasil

Ano: 2016

Gênero: Documentário

Distribuição: Disponível no YouTube.

 

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