Conheça algumas das principais personagens mulheres de séries policiais

Se você é fã de séries policiais, daquelas clássicas em que uma equipe investiga crimes, já deve ter reparado o quanto elas ainda são território masculino. Via de regra, as equipes são lideradas por homens e possuem uma ou duas mulheres no elenco, como uma espécie de “cota”. Não raramente, os personagens homens se destacam mais. No entanto, existem produções do gênero que quebram esses padrões, seja porque mudaram ao longo do tempo ou porque já começaram com uma proposta diferente.

Por isso, fizemos uma lista com três séries policiais que, de alguma forma, quebraram os paradigmas desse tipo de obra, e que passam no Teste de Bechdel – um teste composto por três perguntas que analisa a representação feminina em obras audiovisuais. As perguntas que devem ser respondidas são: existem mais de duas mulheres? Elas conversam entre si? Elas conversam sobre algo que não seja homens? Caso a resposta seja “sim” para todas as perguntas, temos “sinal verde” no teste.

 

CSI: INVESTIGAÇÃO CRIMINAL

‘CSI: Investigação Criminal’ / Divulgação

Esta, com certeza, é uma das séries policiais mais clássicas. Ainda que você não acompanhe o gênero, já deve ter parado para assistir a algum episódio que passava na TV. Popular e premiada, a série, exibida originalmente pela CBS, acompanha um grupo de cientistas forenses que trabalha no turno da noite do departamento de criminalística da polícia de Las Vegas.

No decorrer de suas 16 temporadas, CSI sempre teve um elenco majoritariamente masculino, assim como a liderança da equipe quase sempre ficou a cargo de um homem. Mas, em contrapartida, suas personagens femininas sempre foram bem desenvolvidas, e alguns momentos da produção fizeram questão de evidenciar isso.

Sara Sidle (Jorja Fox) é uma CSI que viveu a infância em um lar violento e cheio de abusos, passando por alguns orfanatos. Essas experiências fazem com que seu emprego se torne muito difícil, ao ter de lidar com casos de violência doméstica. Além disso, seu envolvimento amoroso com o chefe lhe rendeu muitas preocupações em alguns dos episódios, já que temia ser questionada por sua competência no trabalho.

Catherine Willows (Marg Helgenberger) é a outra CSI mais recorrente na série, junto de Sara. Mãe solo (termo que faz referência à educação restrita de uma criança à mãe), ela precisa lidar com a criação da filha, com longas jornadas de trabalho e questionamentos sobre sua competência profissional. Mas, ao contrário de Sara, que temia ser questionada por se envolver com o chefe, Catherine enfrenta os fantasmas de quando era dançarina de striptease – fato que é piadinha recorrente entre colegas. Em algumas temporadas, a personagem se torna chefe da equipe, e é fantástico acompanhar seus dilemas e conquistas.

 

CRIMINAL MINDS

‘Criminal Minds’ / Divulgação

Criminal Minds, também da CBS, é o caso de uma série que mudou ao longo do tempo. Sucesso no Brasil, o drama policial acompanha o time de agentes da Unidade de Análise Comportamental do FBI, a UAC. Considerados uma equipe de elite, eles são responsáveis por traçar perfis que ajudam a capturar criminosos.

Na primeira temporada, essa equipe contava com três personagens mulheres: Penelope Garcia (Kirsten Vangsness), analista técnica do FBI, Elle Greenaway (Lola Glaudini), agente da equipe, e Jennifer “JJ” Jareau (A.J. Cook), que começou como uma espécie de relações públicas. Ou seja, a única agente, que de fato ia a campo, era Greenaway. Por isso a interação entre as personagens femininas também era limitada, com cada uma trabalhando no seu campo de atuação.

Hoje, na 13ª temporada, muita coisa mudou. A começar por “JJ”, que de relações públicas passou a agente de campo. Além das muitas outras mulheres que passaram pela equipe, atualmente, metade delas é formada por personagens femininas. Penélope Garcia ainda é analista técnica, mas muito mais ativa; “JJ” se tornou uma grande agente; Tara Lewis (Aisha Tyler), uma agente negra, entrou para o time mais tarde, sendo uma ótima adição, e Emily Prentiss (Paget Brewster), que, em temporadas anteriores, já fez parte da equipe, mas que agora é a nova líder.

Por isso, Criminal Minds já pode ser considerada detentora de alguns ótimos méritos, a começar pelo fato de possuir metade do elenco formado por mulheres, ter uma líder de equipe mulher e, indo mais longe, também ser bem-sucedida ao desenvolver as complexidades dessas personagens muito bem. Cada uma delas possui sua história, seu contexto, personalidade e motivações, mas todas se apoiam. Aqui, encontramos representações que saem em pé de igualdade com os personagens masculinos, e o resultado do Teste de Bechdel é muito positivo.

Mas, para além da ficção, o caminho de Criminal Minds nem sempre foi rumo à igualdade. A série já teve alguns problemas em relação à disparidade salarial entre atrizes e atores. De acordo com matéria do Deadline, em 2010, a CBS foi criticada pela forma como tratava as mulheres. Na época, os executivos deixaram A.J. Cook de fora da sexta temporada, reduziram os episódios de Paget Brewster e Kirsten Vangsness passou a ser a única mulher no elenco fixo. Já em 2013, as atrizes conseguiram um aumento depois de denunciarem que recebiam menos de 50% do salário dos colegas homens. Agora, em 2017, Vangsness e Cook disseram que só participariam da 13ª temporada se ganhassem um salário igual ao dos homens.

A igualdade de gênero foi uma trajetória longa em Criminal MInds, tanto dentro da narrativa como fora dela. Essas atrizes e suas personagens com certeza são mulheres excepcionais, que mudaram o rumo das coisas com suas reivindicações. Agora, nos resta esperar que a produção siga com sua excelente qualidade e não retroceda nas conquistas que já foram alcançadas.

 

THE FALL

‘The Fall’ / Divulgação

The Fall é uma série britânica de três temporadas e 17 episódios cuja história acontece em Belfast, na Irlanda do Norte. Produzida pela BBC, ela foi distribuída no Brasil pela Netflix e, em 2016, a empresa de streaming liberou dados que demonstravam que o drama policial estaria no topo das séries do catálogo que mais viciam a audiência. O feito não era para menos. The Fall, apesar de ser uma obra menos longa, tem uma qualidade excepcional, e aborda a caçada a um serial killer de um ponto de vista diferenciado.

Na trama, Gillian Anderson (Arquivo X) interpreta Stella Gibson, uma detetive superintendente que é a primeira a perceber que alguns casos de assassinato de mulheres, na cidade, seguem todos os mesmos moldes – o que significa que um assassino em série está a solta. O serial killer é Paul Spector (Jamie Dornan, de Cinquenta Tons de Cinza), um homem casado, pai de dois filhos, que, guiado por pura misoginia, mata mulheres independentes e bem-sucedidas profissionalmente.

Ou seja, enquanto Spector mata mulheres que representam algum poder e independência, Gibson é exatamente o tipo de mulher que o atormenta. A detetive é muito bem-sucedida em sua carreira, é segura, firme, autoconfiante e não deixa de reagir frente a situações de opressão. Em diversas situações, ela é questionada por se envolver casualmente com homens mais jovens, por exemplo, e sua resposta sempre é algo do tipo: “se eu fosse um homem, me envolver com alguém mais jovem seria um problema?”.

Além disso, vista pelos colegas de trabalho como fria e calculista, Gibson é uma personagem feminina que demonstra sororidade (empatia para com outras mulheres) – como quando diz a uma policial que as mulheres precisam se apoiar nesse ambiente ainda tão predominantemente masculino.

Assim, a protagonista, seus colegas de trabalho e o antagonista são construídos para funcionarem como peças de um jogo, no qual não há somente o “perseguido” e os “perseguidores”, como costuma ser padrão em séries policiais. Eles são personagens que ocupam papéis sociais, e que colaboram como dispositivos para discussão de gênero.

É essa dinâmica que faz com que The Fall ocupe um lugar diferenciado e de destaque no cenário das produções policiais. Não temos homens que servem à lei e que são considerados heróis, enquanto existe uma única mulher na equipe. Temos personagens que são retratados de forma muito humana e que representam um contexto social muito realista.

 

MENÇÃO HONROSA: ARQUIVO X

‘Arquivo X’ / Divulgação

O primeiro episódio da clássica série Arquivo X foi ao ar em setembro de 1993. Já no piloto, conhecemos os agentes Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Anderson). Mulder é um renomado agente do FBI que passou a ser chamado de “estranho” pelos colegas, quando reabriu os Arquivos X – um departamento que cuidava de casos sem solução, aparentemente de viés sobrenatural ou peculiar. Scully, por sua vez, é uma jovem agente formada em medicina, contratada para supervisionar os casos e o trabalho de Mulder, e dizer aos chefes se ele é ou não um alucinado.

Durante muitas temporadas, Scully foi a única personagem mulher da produção, até que, na oitava, a personagem Monica Reyes foi inserida, e Scully pôde interagir melhor com alguém que não fosse um homem. Por isso, se aplicássemos o Teste de Bechdel em Arquivo X, a série não se sairia muito bem. No entanto, uma menção honrosa é merecida.

Mesmo ilhada por homens, Scully sempre foi uma personagem feminina complexa e admirável. Ela nunca deixou de se posicionar, de lutar ou de questionar Mulder quando necessário. Inclusive, “vira e mexe”, os dois faziam alguma piada crítica sobre papéis de gênero. Independente e destemida, essa outra personagem de Gillian Anderson pode ser considerada um marco na cultura pop, por ser um exemplo de personagem feminina em uma série policial.

E, assim como no caso de Criminal Minds, a atriz envolvida na obra teve de ter muita força para reclamar sobre desigualdades. Anderson declarou ao Daily Beast que, somente depois de três temporadas, passou a receber o mesmo salário do colega David Duchovny (Mulder), além de ser instruída a sempre ficar atrás dele nas cenas. “Só posso imaginar que, no começo, queriam que eu fosse apenas a parceira. Ou talvez [pensavam que] já era mudança o suficiente ver uma mulher ter um diálogo intelectual com um homem na tela, então, certamente, o público não conseguiria lidar com o fato de eles andarem lado a lado”, completou.

A atriz ainda contou, em entrevista ao The Hollywood Reporter, que a Fox ofereceu a ela um cachê 50% menor que o do colega de cena para décima temporada da série (de 2016). Proposta, essa, que ela recusou, assim como também recusou permanecer atrás de Duchovny, na década de 90. Mas, a luta de Anderson parece longe de acabar. Agora, em 2017, ela usou sua conta no Twitter para reclamar do fato de o criador de Arquivo X, Chris Carter, só ter escalado homens como roteiristas da 11ª temporada, que estreou janeiro. Carter ainda pode somar outro erro à sua conta: nenhuma outra temporada de Arquivo X foi tão fraca para Gillian Anderson quanto a décima primeira.

Ainda assim, fica aqui nossa homenagem ao famoso seriado que nos deu Dana Scully, e que trouxe Gillian Anderson no elenco. Uma atriz que tem personagens maravilhosas no currículo e que pertence ao grupo de mulheres que tentam mudar Hollywood, bem como seus padrões de representação e representatividade.

 

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