Até a Próxima Vez é o primeiro filme peruano produzido pela Netflix

Está disponível desde 18 de março no catálogo global da Netflix o primeiro filme peruano produzido pela plataforma: Até a Próxima Vez (Hasta Que nos Volvamos a Encontrar), uma comédia romântica escrita e dirigida por Bruno Ascenzo (Como Superar um Fora, também disponível na Netflix) e protagonizada por Stephanie Cayo e  Maxi Iglesias. 

Usando algumas das paisagens mais emblemáticas de Cusco como cenário, o filme conta a história do envolvimento entre Salvador (Iglesias) e Ariana (Cayo). Ele, um arquiteto espanhol viciado em trabalho e herdeiro de uma corporação multimilionária do setor hoteleiro. Ela, uma artista peruana aventureira, apaixonada pela cultura de seu país e sobrinha de Lichi (Wendy Ramos), a dona de um hostel local. 

O casal se conhece quando Salvador é enviado pelo pai aos Andes peruanos, onde a empresa pretende construir um hotel de luxo. Ali, ele é hospedado por Lichi, com quem deve negociar a compra de parte do terreno do hostel para dar andamento ao seu suntuoso empreendimento. A atração entre os protagonistas acontece à primeira vista, mas Ariana não está nem um pouco de acordo com as intenções comerciais de Salvador.

Com uma típica história de amor entre opostos no centro da trama, Até a Próxima Vez segue o bê-á-bá do formato comédia romântica de maneira bastante plana, apostando em traços culturais peruanos e num superficial conflito ético e moral sobre as investidas do capital estrangeiro contra modos de vida locais como diferenciais.

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MUSICAL 

Há uma certa “energia Disney” pairando sobre o filme. Logo de início, uma cena musical com pinceladas de humor apresenta a personalidade dos personagens principais. A música “Regresa”, de Augusto Polo Campos, é entoada por Stephanie Cayo, Anaí Padilla e Renata Flores no momento em que Ariana e Salvador interagem pela primeira vez.

“Até a Próxima Vez”/ Divulgação

A partir de então, Salvador acaba envolto pelo mundo de Ariana. Ao mesmo tempo, surge o conflito: Ariana, além de não acreditar no amor romântico e ter questões mal resolvidas com o passado, resiste em se envolver com alguém que representa interesses que ela despreza.

É quase como se estivéssemos diante do mesmo tipo de olhar Disney que fez acontecer filmes como “Viva” e “Encanto” – desta vez num filme de outro gênero, voltado a outro tipo de público. Um olhar que busca nos espaços e nas relações o deslumbre, o bonito, o alegre, o otimista; que estiliza o “típico” para torná-lo atraente ao maior número de pessoas possível, usando-o como ambientação especial de uma história que geralmente apresenta conflitos universais e desemboca num final feliz.

UM GUIA TURÍSTICO

O filme, que já em sua semana de estreia entrou no TOP 10 da Netflix Brasil, repercutiu negativamente assim que foi anunciado, sobretudo por reproduzir estereótipos habituais de beleza, deixando atores que representam a maioria da população peruana como coadjuvantes e colocando como protagonistas uma peruana com ascendência italiana e um espanhol.

Imagem: divulgação

Isso diz alguma coisa sobre o perfil da obra. Embora procure retratar aspectos da cultura andina e afroperuana apresentando diversidade no elenco, tradições gastronômicas, festividades populares, canções e belezas naturais locais, Até a Próxima Vez prioriza desenvolver a história de paixão, separação e reencontro de Ariana e Salvador tendo uma espécie de imersão cultural de programa de agência turística como pano de fundo. 

Assim, a mochileira Ariana literalmente guia Salvador pelo Peru, apresentando a ele e ao espectador estrangeiro lugares como Machu Picchu, o mercado central de San Pedro, o lago Humantay e as águas termais de Cocalmayo, em Santa Teresa. Paralelamente, outros importantes atores e artistas peruanos são colocados como easter eggs para a audiência que os reconhece ao longo do filme. É o caso de Amiel Cayo (protagonista de Retablo, drama representante do Peru no Oscar 2020), que foi assessor cultural da produção e que aqui abandona o drama para interpretar o  animado Uberto, o personagem “uber” da história.

No fim, a combinação de uma narrativa clichê sobre opostos que se atraem, se transformam mutuamente e aparam arestas para poder enfim ficar juntos com essa coisa de roteiro turístico acaba se convertendo num filme que serve bem ao seu propósito de comédia romântica leve que entretém e que impressiona com belas paisagens. Além do mais, a química entre o casal protagonista é inegável e o restante dos personagens, dentro de suas limitações, funcionam bem na composição das relações. No entanto, a sensação que fica é a de que Até a Próxima Vez deixa transparecer em excesso suas intenções de se vender a audiências internacionais, brilhando mais como produto do que como narrativa audiovisual.

Ficha Técnica:

Direção: Bruno Ascenzo

Duração: 1h36

País: Peru

Ano: 2022

Elenco: Stephanie Cayo, Maxi Iglesias, Wendy Ramos, Vicente Vergara, Renata Flores, Amiel Cayo, Anaí Padilla

Gênero: Comédia Romântica

Distribuição: Netflix

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