Era Uma Vez na Venezuela: documentário disputou indicação ao Oscar 2021

Foi em 2008, filmando uma série documental interessada no fenômeno atmosférico chamado Relâmpago do Catatumbo (um relâmpago silencioso), que Anabel Rodríguez Ríos conheceu a comunidade ribeirinha de Congo Mirador. Anos depois, a cineasta retorna ao lugar e se depara com uma trágica realidade: Congo Mirador, até então famosa por ser a “capital mundial dos relâmpagos”, abrigando tempestades elétricas aproximadamente 297 vezes ao ano, definha sob a sedimentação causada pelo extrativismo petroleiro. Diante desse processo de deterioração do modo de vida local, Ríos decide filmar as contradições da comunidade como espelho de todo o contexto sociopolítico e econômico da Venezuela contemporânea. Nasce assim o documentário Era Uma Vez na Venezuela, representante do país na disputa por uma indicação a Melhor Filme Internacional no Oscar 2021.

‘Era Uma Vez na Venezuela’/ Divulgação

Localizado ao sul do lago Maracaibo, região da principal reserva de petróleo do território venezuelano, Congo Mirador sofre diretamente com as decisões políticas e os impactos ambientais derivados da extração mineral A lama avança sobre o Maracaibo, ameaçando as formas de sustento (pesca, por exemplo), a qualidade de vida e a saúde de uma população que resiste como pode à ideia de ter que deixar para trás suas palafitas; seu lugar de origem.

Essencialmente melancólico sobre o que Congo Mirador, outrora motivo de fascínio graças a seu espetáculo de luzes naturais, está se tornando, o longa se estrutura em dois eixos narrativos complementares. Em um deles, a diretora  registra as consequências da sedimentação nas subjetividades e na rotina prática dos moradores. No outro, a polarização política, intensificada pela aproximação das eleições parlamentares de 2015, emerge também como fator fundamental no movimento de decomposição social que se espalha por todo o país. 

ERA UMA VEZ… 

Era uma vez na Venezuela um povoado que, como tantos outros latino-americanos, padeceu na pobreza e no esquecimento por ser fonte de recursos para a riqueza alheia. Entre deterioração de sistemas políticos, desmantelamento do que um dia significou o chavismo, corrupções, embargos internacionais, crises econômicas e contradições inerentes à história do extrativismo no continente, Congo Mirador reflete os distúrbios de uma nação essencialmente petrolera, dependente de exportações e subdesenvolvida. E estando na região da fronteira com a Colômbia, onde armas circulam de mão em mão, milícias se instalam com facilidade e as relações entre os países são tensionadas com frequência, o vilarejo sofre ainda com a polarização em seu estado mais violento. 

Imagem: divulgação

Do fantástico do Relâmpago Catatumbo à demagogia e à negligência. Aos poucos, os deslocamentos passam a ser frequentes, porque a vida torna-se impossível; e aos que relutam em decidir ir embora resta a condição de um mundo que acabou. Não há interesse em recuperar as águas lamacentas do Maracaibo – e também não haveria caso fosse outro o governo. As maldições locais são resultado de uma estrutura de exploração determinada, há muito tempo, pela dinâmica de dominação do capitalismo global. Engrenagem que deliberadamente aprofunda as contradições de um regime que não foi capaz de superá-la, tirando proveito delas. 

Para salvar Congo Mirador seria necessário, entre tantas outras coisas, solucionar a dependência da economia extrativista, algo distante no horizonte. Nesse cenário, os povoados petrolíferos do lago Maracaibo não passam de Bacurais apagados do mapa. Suas urgências são sobras, efeitos colaterais de um modelo econômico insustentável. Seus habitantes, lembrados apenas em períodos de campanha e votação.

TAMARA E NATALIE

No centro de Era Uma Vez na Venezuela, duas mulheres: Tamara,  líder comunitária e chavista fervorosa, espera que em algum momento as autoridades dediquem atenção às necessidades do povoado. Já Natalie, única professora da comunidade, percebe seu entorno com profunda decepção. Para ela, a impressão prevalente é de que o regime Maduro fracassou e se degenerou. Então, enquanto Tamara faz de tudo para conseguir votos favoráveis ao partido do presidente, Natalie torce timidamente pela vitória da oposição.

‘Era Uma Vez na Venezuela”/ Divulgação

É a partir dessas diferentes compreensões da realidade, e de uma imersão de cinco anos na comunidade, que Ríos consegue já em seu primeiro longa-metragem traçar um panorama rico em nuances sobre várias das problemáticas que hoje afligem toda a Venezuela. A diretora, aliás, é sempre muito honesta sobre seu posicionamento contrário ao governo venezuelano, o qual classifica em diversas entrevistas como ditadura. Mesmo assim, o filme evita cair nas armadilhas dos discursos típicos da parcela leviana da oposição, oferecendo ao espectador um verdadeiro exercício de observação atenta.

Podendo ser considerado documentário testemunha, Era Uma Vez na Venezuela registra a passagem do tempo, o findar de um coletivo, os resultados da exploração da natureza e da expropriação dos territórios, a derrocada da poesia e a chegada do vazio.  Muitos outros Congo Mirador já existiram pela América Latina, quase todos condenados à desmemória. Escolher contar a história desse lugar, que em essência representa muito do que há de mágico e estarrecedor no continente, é como recuperar memórias perdidas e sinalizar para a ameaça de catástrofes que recaem sobre todos nós. Belo trabalho de Anabel Rodríguez Ríos.

Leia também: “Missão H2O é o primeiro longa de animação digital da Venezuela”

Ficha Técnica:

Direção: Anabel Rodríguez Ríos

Duração: 1h39

País: Venezuela

Ano: 2020

Gênero: Documentário

Distribuição: —

COMENTÁRIOS

Deixe uma resposta