Los Huesos: o fim do casamento entre o Chile e suas heranças malditas

Os letreiros iniciais do chileno Los Huesos (The Bones) apresentam a obra como a primeira animação stop-motion da história, datada de 1901 e encontrada mais de um século depois pelos restauradores Cristóbal León e Joaquín Cociña (A Casa Lobo). Mas León e Cociña são, na verdade, os diretores desse curta-metragem de animação que, lançado em 2021, brinca em forma e conteúdo com os sentidos do horror, da cronologia e da ficção.

“Los Huesos” / Divulgação

Vencedor do prêmio de melhor curta-metragem da mostra Horizonte do Festival de Veneza, o filme tem Constanza Nordenflycht como protagonista. A jovem usa fragmentos de cadáveres para executar um ritual de evocação dos espíritos dos ministros Diego Portales e Jaime Guzmán. 

São figuras que de fato existiram, mas que, transportadas para a ficção, ganham contornos simbólicos muito mais amplos. Portales, por exemplo, foi um político conservador que exerceu grande influência na redação da Constituição de 1833, marcando a fundação do Estado chileno com seu perfil ditatorial. Foi também amante de Constanza, a aristocrata com quem chegou a ter três filhos, nunca cumprindo a promessa de casamento. Já Guzmán tornou-se colaborador do ditador Augusto Pinochet. Nesse período, contribuiu na redação da Constituição de 1980.

Reconstituídos juntos em tela por uma coreografia ritualística de ossos e órgãos animados, os dois personagens representam a ciclicidade dos pactos de poder que prevaleceram ao longo da história pós-colonização do país e que foram colocados em cheque a partir da convulsão social de 2019. Pactos que, no curta, estão prestes a ser desfeitos por uma jovem protagonista que evoca o passado para poder finalmente se livrar dele.

Los Huesos tem produção executiva de Ari Aster (Hereditário) e está disponível na Mubi Brasil

O DIVÓRCIO

“Se desfez um casamento todo coberto de branco”

O ano de 2019 marca uma ruptura para os chilenos. Foi o ano em que manifestações populares tomaram as ruas e abriram caminho para a Constituinte  que pretende enterrar de uma vez por todas a Constituição pinochetista, um dos maiores símbolos dos terrores históricos enfrentados pelo país. É a partir desse contexto que nasce Los Huesos, uma alegoria sobre o libertar de um país dos acordos que sempre foram feitos entre os mesmos e para os mesmos.

Nessa alegoria de horror, o fim cerimonioso e sombrio de um casamento torna-se a espinha dorsal da narrativa. A partir daí, os diretores jogam com a dramaticidade e a cronologia, brincando com a data do próprio filme, quebrando linearidades ao reunir fantasmas de tempos diferentes (representantes dos mesmos autoritarismos e oligarquias) e, de certa forma, acenando para a possibilidade de um futuro que não seja todo coberto de branco.

Rompem-se os acordos entre os iguais. O filme se entrelaça com a atualidade do país para além do que é posto em tela. Os legados dos personagens são exorcizados no tempo em que uma nova Constituição, mais plural e paritária, começa a encontrar espaço para existir.

OS OSSOS

Macabro e hipnotizante, o balé de segmentos de corpos evocado pela protagonista do curta ganha ainda um outro nível de sentido ao inevitavelmente nos fazer lembrar de que a história chilena é feita sobre cadáveres, sejam os das vítimas dos genocídios da colonização, os das vítimas da ditadura militar ou os das vítimas da repressão dos carabineros (polícia do Estado) nas manifestações de 2019.

Trata-se de um filme sobre heranças malditas, um exercício fúnebre e fantasioso de memória e reconhecimento de horrores. Um filme rico em detalhes de concepção e executado magistralmente por uma equipe que domina temática e tecnicamente todo o seu processo de feitura (com destaque para a impressionante simulação de um filme de época que transformaria o Chile no berço mundial do stop-motion).

Em Los Huesos, portanto, o horror é gênero e espelho da realidade. São 14 minutos de inquietações morais e magnetismo estético.

LEIA TAMBÉM : [Entrevista] Carne, documentário animado de Camila Kater

Ficha Técnica:

Direção: Joaquín Cociña, Cristóbal León

Duração: 14 min

País: Chile

Ano: 2021

Gênero: Animação

Distribuição: MUBI Brasil

COMENTÁRIOS

Deixe um comentário