CARNE, documentário animado de Camila Kater, estreia em Locarno

CARNE, curta-metragem dirigido por Camila Kater, roteirizado também por Kater, em parceria com Ana Julia Carvalheiro, e produzido por Lívia Perez (Quem Matou Eloá?) e Chelo Loureiro, é um dos representantes do Brasil na mostra Pardi di Domani do Festival de Locarno 2019, que começou no último dia 7. 

Fruto de uma coprodução entre Brasil e Espanha, o filme de 12 minutos de duração traz cinco mulheres, cada uma em uma faixa etária, falando sobre como se relacionam com os próprios corpos. Entre elas estão a cineasta Helena Ignez, ícone do cinema marginal brasileiro, e Raquel Virgínia, uma das vocalistas da banda As Bahias e a Cozinha Mineira. 

(Fonte: TIFF Trailers/ YouTube)

Na produção, um encontro dos gêneros animação e documentário, os estados de cozimento da carne servem de alegoria para as etapas da vida feminina, e cada mulher corresponde a uma dessas etapas. Relatando experiências íntimas, as personagens compõem, coletivamente e de forma plural, um ciclo do que é ser mulher numa sociedade patriarcal. 

Crua, mal passada, ao ponto, passada e bem passada são pontos de consumo da carne; mas, para além disso, são condições que simbolizam o estar dos corpos femininos no mundo, da infância até a velhice. 

Também foram cinco as animadoras que trabalharam no curta. Cada uma em uma fase, executando um tipo diferente de técnica de animação, ilustrando os relatos pessoais de cada personagem e garantindo diversidade até mesmo na estética da obra. 

A seguir, confira a entrevista que a diretora Camila Kater concedeu ao Francamente, querida!
Francamente, querida! : Por que fazer um documentário em animação?

Camila Kater: Acredito que foram vários motivos. Um porque amo animação e é a linguagem com a qual melhor consigo me expressar. A temática do CARNE é intensa e os depoimentos são bastante íntimos e pessoais, queria representá-los protegendo a imagem dessas mulheres, deixando-as mais à vontade na hora em que elas dividissem suas histórias com a equipe. Não havia câmera no estúdio de captação das vozes e a equipe de captação era 100% feminina, além de ser bem reduzida, de duas a três pessoas. Gosto muito de como a animação no documentário recria os relatos, dando forma, plástica e movimento a questões tão latentes do nosso corpo. A animação tem o poder de potencializar as sensações.

FQ: Como você vê a relação do público brasileiro com o formato curta-metragem? Quais são as dificuldades de fazer esse tipo de filme circular?

CK: Na minha opinião, o problema do público em relação ao curta-metragem é o acesso. São poucos os canais de distribuição. As redes de cinema raramente apresentam curtas na programação, assim como os canais de televisão. O meio de distribuição são os festivais de cinema, que geralmente têm um público restrito e acontecem nos centros das grandes cidades, tornando praticamente impossível o acesso nas regiões periféricas. Depois da circulação em festivais, pretendo publicar [o curta] na internet e ampliar o acesso. Quero fazer apresentações em escolas e espaços culturais de periferia. 

“A animação tem o poder de potencializar as sensações”

FQ: Qual a importância de um festival como Locarno para a carreira do filme?

CK: A estreia mundial em Locarno é uma grande conquista. É um dos principais festivais de cinema do mundo e o maior da Suíça. Em geral são poucos filmes brasileiros na seleção oficial. Nesse universo dos festivais, lançar o filme num festival grande de categoria A traz bastante visibilidade, até mesmo para futuras exibições pelo mundo.

FQ: Outras animações serviram de inspiração para a realização de CARNE? Alguma mulher te inspira nesse meio da animação?

CK: Foram muitas animações que me inspiraram. A produção de animação independente das mulheres sempre foi minha maior fonte de referência para o filme. Não queria reproduzir as tradicionais representações masculinas do corpo da mulher, em geral hiperssexualizadas, caricaturescas. Algumas referências foram The Hat da Michèle Cournoyer, What she Wants da Ruth Lingford, Guida da Rosana Urbes, a animação com argila da Nara Normande para a série Angeli the Killer e as animações experimentais da Elizabeth Hobbs.

FQ: Você poderia falar um pouco sobre a metáfora da carne e como o filme relaciona consumo e dominação patriarcal? 

CK: Fazemos uma associação irônica das fases de cozimento da carne com as fases da vida da mulher, portanto o filme inicia na fase crua, a infância, e termina na bem passada, a terceira idade. Essa associação da mulher como objeto e também como produto de consumo do masculino. Uma das referências bibliográficas é o livro Política Sexual da Carne, da Carol J. Adams, que associa o consumo da carne principalmente ao homem, àquele que precisa de mais energia para cumprir suas tarefas “pesadas”, precisa de um alimento rico em proteínas. E do outro lado, a mulher é vista antes de um ser humano como um corpo, muitas vezes à disposição do homem. A ideia das fases de cozimento não está no livro, porém se encaixa perfeitamente na sociedade patriarcal, pois na medida que a mulher amadurece, passado pela juventude (fase ao ponto) até a terceira idade (bem passada), ela vai perdendo o sentido do consumo, ela vai deixando de ser mulher.

Imagem: divulgação
FQ: CARNE é um filme diverso em todos os aspectos (personagens, profissionais, técnicas, histórias). Quais os desafios de lidar com tanta diversidade?

CK: Acho que a diversidade é o que há de melhor no filme, mas também nos trouxe uma grande responsabilidade de representá-la da maneira correta. E mesmo sendo mulher e me alimentando de referências de mulheres, não é difícil cair numa representação ruim, somos bombardeadas o tempo todo por produtos sexistas, racistas. Eu e a Ana Julia Carvalheiro revisamos o roteiro muitas vezes e minha grande preocupação era não representar bem as histórias que essas mulheres quiseram nos contar.

FQ: Como seria, na sua opinião, um futuro ideal para o fortalecimento do cinema brasileiro e das mulheres no audiovisual?

CK: O futuro ideal acho que seria ampliar o acesso ao cinema e ao cinema de animação na educação. É uma linguagem tão rica e interdisciplinar, e ainda tão dominada pelos diretores homens brancos. Na animação, o cenário é medonho. Segundo os dados da Universidade do Sul da Califórnia em parceira com a Women in Animation, apenas 3% dos filmes do gênero foram dirigidos por mulheres nos últimos 12 anos. Acredito que as cotas nos editais são essenciais nesse momento. É bom não nos esquecermos de exigir as cotas num momento político tão avesso ao pensamento, exigindo a própria existência do edital.

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