[Coluna] BBB19: militância virou chacota e racismo ganhou palco

O Brasil que elegeu Jair Bolsonaro como presidente da república também eliminou Hana Khalil do Big Brother Brasil 19 na última terça-feira (5). Os dois acontecimentos parecem distantes, mas estão longe de serem eventos aleatórios e desconectados. Tal como a eleição de Bolsonaro, a eliminação de Hana foi motivada por conservadorismo; e todos sabemos muito bem disso.

Poucas horas após a saída da participante, seu ex-colega de confinamento, Maycon, apontou que: “O Brasil tá numa fase muito família, você vê pelo nosso presidente. O Brasil tá numa fase que quer mudança, quer família, não quer revolucionário. Quem tá assistindo quer um programa família”. No fundo, sua fala quis dizer que o Brasil não queria Hana, a garota que fala alto, opina, veste o que quer, penteia o cabelo quando quer.

Bolsonaro foi eleito por sua fama de sujeito macho controlador e pai da família tradicional brasileira; alguém que se posiciona a favor “da moral e dos bons costumes” e contra as lutas das minorias sociais. Hana, por sua vez, foi eliminada justamente por representar tudo aquilo que amedronta as esferas do poder conservador, sustentadas pelo medo da diversidade; afinal, ela é uma mulher feminista, vegana, politizada, autossuficiente… Tudo que coloca em risco o status quo patriarcal. A figura de Hana desafia, portanto, o que é representado pela figura de Bolsonaro: o poder masculino, rico, apoiado pelo fundamentalismo religioso cristão, pelo dinheiro da agropecuária.

Hana / Gshow

Hana e os amigos que fez no Big Brother, o grupo da Gaiola (formado majoritariamente por pessoas negras), representam a força da resistência do #EleNão, do movimento negro e lgbt, da diversidade, da resistência. São pessoas engajadas em causas que, no geral, provocam medo no cidadão médio – por ignorância, mau caratismo ou pelos dois motivos.

O Brasil entrou num delírio coletivo retrógrado – até meio surrealista – e o BBB espelhou esse momento. As pessoas têm medo do que desconhecem, e elas desconhecem completamente a verdade e os contextos das pautas progressistas. Logo, essas pautas são consideradas inimigas e taxadas de “mimimi”; assim o  território fica livre para fake news sobre mamadeiras eróticas, kits gay  em escolas e Prêmios Nobel da Paz para Stalin. O descolamento da realidade não caberia num quadro de Dalí, mas coube no BBB 19.

A confusão gerada por crises econômicas e políticas no país serviu como solo fértil para o desenvolvimento de avanços ideológicos problemáticos. Tanto a eliminação de Hana quanto a posse de Bolsonaro são consequências de projetos de poder fertilizados no solo do caos, do medo e da violência. Enquanto a eliminação vem do espaço do entretenimento, a posse nasce do âmbito da política eleitoral. São duas trincheiras diferentes, mas tomadas pelos mesmos poderes.

Quando uma pessoa acredita não estar em segurança (emocional, financeira ou social), ela se apega ao que parece seguro, ao conservadorismo, às tradições que vendem soluções fáceis e poupa o indivíduo das complexidades do mundo, das incertezas. A eliminação de Hana, bem como a participação dos outros membros da Gaiola no programa, simboliza muita coisa. Estamos presenciando, no show da vida real, demonstrações claras de que ninguém mais tem vergonha de manifestar seus preconceitos (racismo, lgbtfobia, machismo e intolerância religiosa), simplesmente porque manifesta-los significa “proteger” um mundo que te prometeram ser seguro e simples. Basta seguir a cartilha e não questionar nada, basta manter a ordem (e a ordem, como sabemos, é masculina, branca e de classe média).

Maycon, do BBB19 / Gshow

Por isso Maycon diz que o Brasil não quer Hana no horário nobre da Rede Globo. Por isso Gabriela e Rodrigo são chamados de extremistas por questionarem comportamentos ofensivos de seus colegas. Bolsonaro é a legitimação da permissão para ser preconceituoso. Na cabeça do conservador, cada pessoa deve ocupar o lugar social que lhe foi estipulado pela tal ordem. Quem enfrenta essa determinação acaba no papel de pessoa indesejável e incômoda, que despreza os valores tradicionais da família, etc. É muito mais confortável, afinal, viver no próprio mundinho, fingindo que seu modelo de vida é o ideal e que o problema dos outros não existem simplesmente porque não são os seus problemas. Isso é privilégio, já diria a própria Hana.

MILITÂNCIA X BBB

Mas Hana não foi eliminada somente pela votação de uma audiência que preferiu salvar do paredão a outra participante – alguém que representa o estereótipo da mulher bonita, ignorante, preconceituosa e boa moça “para casar”. Hana (e todo o grupo da Gaiola) foi boicotada pela edição do programa.

Na primeira semana, quando houve um paredão de 14 pessoas, todos os integrantes do grupo da Gaiola ficaram bem colocados na votação. Mas como produto de entretenimento, o Big Brother Brasil entende que sua função seja única e exclusivamente fazer o enredo funcionar e conseguir audiência e lucro esperados. Com o passar do tempo, o boicote começou: todos os dias a edição que ia ao ar na TV aberta ignorava os bons momentos da Gaiola, mostrava muito mais o pessoal do Camarote e dava mais destaque às duas moças “excluídas” da casa.

Imagem: TV Globo

Gleici, vencedora do BBB18, viveu uma edição que já dava indícios de querer vender a narrativa conflituosa e bipartidária das redes sociais. Era uma edição com gente mais diversificada e, por isso, o enredo acabou tomando outros rumos – mas rendeu outros bons conflitos, de qualquer maneira. O conflito “Camarote × Gaiola” não tinha como acontecer em 2018. E não aconteceu. Gleici caiu nas graças da maioria do público como garota humilde e “do bem”, e não como mulher negra e feminista. Apenas quem já mantinha algum contato com esse tipo de causa conseguiu ler a militância de Gleici com clareza.

Em 2019, uma nova tentativa de gerar os tais conflitos avassaladores e bipartidários foi colocada em prática pelo reality. Dessa vez,  o elenco foi escolhido a partir de personalidades ainda mais demarcadas. O objetivo: reproduzir o espetáculo das brigas de internet com sucesso.

O problema é que mais uma vez as coisas não saíram exatamente como o planejado, e os posicionamentos do grupo da Gaiola parecem ter surpreendido a direção e a apresentação do programa. Lidar com as subjetividades do ser humano é assim, uma caixinha de surpresas, e neste ano as coisas saíram do controle.

Esperava-se que Hana, Gabriela, Rodrigo, Rizia e Danrley formassem um “grupo lacração”, mas não foi assim que aconteceu. Essas pessoas, chamadas agora de militantes de sofá e problematizadores pela edição do programa, não quiseram lacrar. São autoconscientes demais sobre seus papéis sociais para se reduzirem ao que se espera deles num programa de grande audiência. Em certa ocasião, Rodrigo chegou a constatar que eles são o grupo do coletivo e do afeto. São pessoas que sabem que carregam representatividades importantes consigo e até tentam explicar certas coisas aos outros participantes, mas coletivo e afeto não são elementos que costumam gerar barracos, convenhamos.

Parte do grupo “Gaiola” / Divulgação

Foi assim que a turma da militância decepcionou a produção do programa e passou a ser ridicularizada pela edição, com VTs forçando a tal lacração. Essa lacração não existe. O BBB 19 é um marasmo de não interação entre dois grupos que são completamente opostos e preferem se evitar – e quem pode julgar os integrantes da Gaiola por isso?.

Hana era a maior possibilidade de grandes movimentações de jogo, dada sua personalidade expansiva, mas ela também preferiu gastar energia brincando com os amigos em vez de “palestrar” para gente que não tem empatia. Agora eliminada, a youtuber ainda levou embora consigo uma boa parcela de engajamento da audiência que lutou para fazê-la permanecer no reality – gente que ficou frustrada por ver Hana saindo, enquanto uma pessoa preconceituosa ficava.

Daí a necessidade absurda da edição forçar material para fazer de duas mulheres privilegiadas e preconceituosas as figuras mais engraçadas, caricatas e perseguidas da casa. A narrativa inicial foi frustrada porque ninguém parece disposto a reproduzir brigas de internet, então criou-se um plano B e a dupla entrou como tapa-buracos. Os grandes conflitos polarizados não aconteceram, e por isso os VTs criam deboches e situações nada importantes.

O apresentador dá pitacos inconvenientes e induz a audiência da TV aberta a preferir determinados participantes ou a fazer determinadas leituras do jogo. Além disso, as doses de “humor politicamente incorreto” estão liberadas sem o menor critério de responsabilidade da emissora –  um canal que é concessão pública do Estado e deve satisfações sobre seu conteúdo -, só para causar alguma polêmica. Se esquecem de um detalhe, no entanto: racismo é crime. E o BBB 19 é um fiasco.

No final das contas, pouco importa a ética da mensagem, o importante é “fazer funcionar”. Assim, a mesma emissora que exibe o quadro “Isso a Globo não mostra” e debocha do presidente eleito, também dá destaque para gente preconceituosa num reality show.

As participantes Paula e Hariany / Gshow

O engajamento político e o que os participantes selecionados simbolizam pouco importa ao Big Brother. Pouco importa também se a divisão da casa em dois grupos representa conflitos graves do Brasil contemporâneo. O programa não vai tomar partido em nome de qualquer preocupação com o social. Se os participantes não servem como boas peças do jogo que deveria estar sendo jogado, são descartáveis.

Mesmo assim, uma coisa é certa: Hana, Rodrigo, Danrley, Rizia e Gabriela são algumas das pessoas mais especiais que já passaram pelo Big Brother Brasil. Tudo indica que eles serão perfeitamente capazes de saber usar a visibilidade que alcançaram no horário nobre da maior emissora televisiva do país de forma positiva, em benefício das causas que defendem.

No Brasil de 2019, a nobreza de espírito de parte dos participantes do BBB 19 é fundamental na TV aberta. Uma pena que eles saibam mais disso do que a produção do programa. Se no final tivermos um vencedor da Gaiola, será consequência dos esforços da internet. Mas se o vencedor for do Camarote, ninguém ficará  surpreso… Apenas teremos a certeza de que, com uma ajudinha da edição, até a pessoa mais desinteressante pode sair ganhadora do Big Brother Brasil.

Leia também: Precisamos falar sobre Hana e as masculinidades frágeis e tóxicas do BBB19

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