Coluna: Como a depressão de BoJack Horseman me fez enxergar a minha própria

ATENÇÃO: Este texto pode conter spoilers da 1ª a 4ª temporada

Em setembro do ano passado, a Netflix confirmou a produção da quinta temporada de BoJack Horseman. A série animada mostra a vida de um cavalo e ex-estrela de televisão que, ao ingressar na meia idade, sofre por não saber lidar com a decadência de sua carreira e com as incertezas de seus relacionamentos.

Tendo estreado em 2014, a primeira temporada chamou bastante a atenção do público, alcançando 90% de aprovação, segundo o site Rotten Tomatoes. Nos anos seguintes, com a evolução das subtramas de BoJack (Will Arnett), de seu amigo humano Todd (Aaron Paul), de sua agente felina Princess Carolyn (Amy Sedaris) e de demais personagens, como o cão Mr. Peanutbutter (Paul F. Tompkins) e sua namorada Diane (Alison Brie), a crítica especializada acompanhou as notas da audiência, mostrando-se totalmente favorável à qualidade da série – na segunda e terceira temporadas, BoJack levou 100% de aprovação.

Para mim, em contrapartida, o desenho estreou apenas na metade do ano passado. Lá em 2016, confesso que já havia dado uma chance para BoJack; mas o estranhamento inicial de assistir a um cavalo politicamente incorreto, que usa all star, se embebeda com um colega de quarto humano e vomita algodão doce na sacada de sua casa em Hollywood foi – um tanto – demais para a minha cabeça. Depois de maratonar coisas fofinhas da Netflix, como Gilmore Girls e Stranger Things, resolvi dar uma nova chance ao cavalo deprimido. E, daquela vez, só não devorei a série de uma vez para prolongar o prazer que era assisti-la.

Mr. Peanutbutter (esq.), Diane e BoJack, vomitando algodão doce. (reprodução Netflix)

No decorrer dos episódios, um programa com pegada adulta, grotesco e cheio de piadas prontas, se desenvolveu numa grande representação sobre a vida após os trinta anos, assim como sobre os absurdos do mundo das celebridades. Na realidade, os temas dos quais BoJack trata são tantos que eu poderia até escrever uma tese sobre a série. Para citar alguns deles, temos: fama, separação, assédio sexual, aborto, vício em drogas e doenças psicológicas. Sim, o desenho adulto é muito, muito, mais do que um simples besteirol americano ou que um escracho gratuito “a la South Park“.

É claro que, a grande maioria das animações nessa linha, como o pioneiro Os Simpsons, Uma Família da Pesada e American Dad, tem como combustível motor suas inúmeras críticas sociais. Mas, BoJack consegue atingir um nível de sensibilidade bastante peculiar, que dificilmente é abordado por produções similares. Os diálogos da série são tão bem construídos que parecem ser fruto de uma conversa real e despretensiosa sobre…sei lá, sobre a vida, em geral. “Preciso tomar um banho para não conseguir dizer se estou chorando ou não”, “eu acordo de manhã e sinto que não tenho um propósito” e “essa é uma ‘comédia de situação’ (sitcom). Ninguém assiste ao programa para sentir alguma coisa” são algumas das frases que são, alguns diriam, “pessimistas”, de BoJack Horseman.

Eu, pessoalmente, optei por enxergar as mensagens da série mais como um alerta à minha própria vida. Afinal, de que serve a arte, senão para refletirmos sobre nossas realidades e, a partir disso, transformarmos nossas vidas? Foi exatamente assim que passei a me sentir acolhida por um cavalo deprimido: vendo-me representada não somente em BoJack, mas em quase todos os personagens do desenho.

‘Você precisa dar um jeito nessa merda’, Princess Carolyn. (reprodução Netflix)

É preciso frisar que, pelo simples fato de as pessoas serem diferentes, indivíduos que apresentam quadros de depressão reagem à doença de maneiras igualmente distintas. No meu caso, a ansiedade excessiva de toda uma vida culminou em uma depressão secundária, o que significa que seu nível em meu organismo não é dos mais altos, sendo, então, mais facilmente tratável. Portanto, coisas mundanas, como sair com os amigos, comer chocolate e meditar, são práticas bastante eficazes contra o tipo de depressão que apresento. É claro que, por estarmos falando de uma doença muito séria – que elevou o suicídio à terceira causa de morte entre jovens brasileiros de 15 a 19 anos, segundo estudo da OMS divulgado em maio de 2017 –, sigo com acompanhamentos psicológico e psiquiátrico. Mas, assistir a um filminho aqui, um episódio de BoJack ali, tem me ajudado bastante a longo prazo.

E o que será que eu tenho de diferente das outras pessoas para me sentir tão representada pelos complexos personagens dessa série, você pode estar se perguntando. A resposta é: nada. A melhor coisa de BoJack é que qualquer pessoa com mais de vinte anos, que já tenha saído da escola, que tenha tido, pelo menos, um relacionamento amoroso mal sucedido ou que, quem sabe, tenha protagonizado uma sitcom dos anos 90, pode se identificar com um cavalo, uma gata e um cachorro – ou com meros humanos, talvez.

Desde o primeiro episódio, Horseman sofre com uma realidade na qual não alcançou mais nenhum sucesso depois do final do programa de TV Horsin’ Around, em que interpretava o pai adotivo de três crianças humanas. BoJack, então, desfruta de sua quase total solidão, em meio a uma crise de meia idade e de muitas dúvidas sobre a validade de amizades, namoros, sexos casuais e de seu próprio caráter. Afinal, o cavalo não é um homem perfeito. Longe disso, aliás, Horseman comete uma sucessão de erros, temporada atrás de temporada, derivados de seu ego gigantesco, de uma impulsividade preocupante e de porres intermináveis. Alguns destes, por sinal, chegam a durar dias, entre um blackout e outro. Mas, não é com essas características de BoJack que – mais – me identifico.

Todd e BoJack em sua casa em Hollywood. (reprodução Netflix)

O protagonista da série homônima carrega nas costas o peso do fracasso, após já ter sentido o gostinho do auge de sua carreira – que, convenhamos, não foi lá essas coisas. Quantos de nós não tememos exatamente isso? Quantos de nós não sofremos de uma ansiedade visceral e evitamos viver o presente em sua plenitude para, somente anos depois, percebermos isso e terminarmos dizendo coisas como “bem, essa foi outra dentre uma série de escolhas de vida lamentáveis”.

‘Se tivesse escolhido esta vida’, BoJack e sua amiga Charlotte, em uma realidade imaginada. (reprodução Netflix)

Algo que podemos tirar de BoJack é que, apesar de sofrer de depressão e de, normalmente, optar pelas soluções menos assertivas possíveis, o protagonista faz parte de um movimento cíclico, assim como nós, e assim como o mundo real, em que nada dura para sempre, já que tudo se renova. Se algo der errado em nosso dia a dia, desde não conseguirmos abrir a tampa de um pote até sermos dispensados de um projeto de trabalho, sempre virão coisas novas pela frente. E é sobre esse movimento constante e sobre suas pequenezas – como relaxar no sofá após um longo dia, voltar a dormir numa manhã despreocupada de sábado ou ver TV em uma tarde chuvosa – que a série trata.

Assim, despretensiosamente, passei a enxergar melhor a minha própria doença: algo a ser tratado, sim, mas, enquanto não for embora por completo, é apenas um problema para o qual dou as mãos e sigo em frente. Além do mais, não podemos ser felizes o tempo todo, mas podemos ser felizes a longo prazo. E isso é tudo que realmente precisamos para viver plenamente. Boa vida pra você.

*ATENÇÃO: Este texto não contém informações médicas. Para identificar um quadro depressivo, entre em contato com um especialista.

**Em caso de emergência, ligue 141 ou contate o Centro de Valorização da Vida por outros canais.

BoJack e Diane, após o cavalo receber um Globo de Ouro. (reprodução Netflix)

COMENTÁRIOS

3 comentários em “Coluna: Como a depressão de BoJack Horseman me fez enxergar a minha própria”

  1. Poxa, parabéns pelo ótimo texto.

    Bojack é um personagem realmente complexo, ele tem tantas facetas, tantos conflitos, que em algum aspecto nos identificamos com ele ou com os outros coadjuvantes, e é sempre da forma mais bruta possível.

    Mas a depressão eu acho que é o grande mote da série, ela trata do assunto de uma maneira tão séria, que eu acredito que existem poucos trabalhos na TV que conseguem ser tão assertivos ao tratar do tema.

    Não tenho uma depressão séria, mas como todo mundo hoje em dia, tenho lá meu grau de ansiedade e também minhas mazelas, como essa eterna sensação de fracasso e baixa-estima, alimentada por prazeres imediatos. E tocar no assunto de certa forma alivia um pouco, já que sempre temos a impressão dessa ser uma dor que só existe em nós.

    Obrigado por escrever esse texto, é muito bom ler coisas legais sobre coisas que também achamos legais. Não pare 🙂

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