Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar

Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar, documentário brasileiro de Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus), inaugura uma nova fase do projeto Sessão Vitrine Petrobras, da distribuidora Vitrine Filmes. 

Agora sem o patrocínio Petrobras, o projeto passa a se chamar somente Sessão Vitrine. A cada mês um filme será lançado simultaneamente nas salas de 20 cidades do país (com ingressos custando até 15 reais) e nas plataformas digitais – sempre filmes nacionais, independentes e contemporâneos. Algumas das salas ainda recebem sessões com debate.  

Graças ao novo modelo de distribuição, o projeto conseguirá, a partir deste ano, alcançar o país inteiro via internet; e sem abrir mão de projetar os filmes na boa e velha tela grande.

Precursor da nova empreitada, o filme de Marcelo Gomes chegou aos cinemas no último dia 11 e também está disponível para compra e aluguel nas plataformas digitais (Google Play, YouTube, Now, iTunes).

‘Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar’ / Divulgação

A SITUAÇÃO DA CLASSE TRABALHADORA EM TORITAMA

Em Estou Me Guardando para Quando o Carnaval Chegar, Gomes vai até Toritama,  cidade conhecida como a capital brasileira do jeans, para filmar relações contemporâneas estabelecidas entre moradores, lugar,  trabalho e tempo.

Nessa pequena e pobre cidade do agreste pernambucano, responsável pela produção de aproximadamente 20% do jeans brasileiro, tempo é dinheiro.  O trabalho têxtil autônomo é a principal fonte de renda dos locais; e as facções, nome dado às fábricas de fundo de quintal que tomaram a maioria das casas, são onde os trabalhadores passam a maior parte de seu tempo. 

Em Toritama a regra é clara: quanto maior a produção, mais dinheiro ganho. Por serem donos do próprio negócio e trabalharem no quintal de casa, os moradores da região sentem-se privilegiados. Podem fazer os próprios horários e trabalhar mais caso precisem de mais dinheiro. Dizem ao diretor que o “jeans azul é o ouro de Toritama” e  que “Toritama é só trabalho”. Por outro lado, ponderam: sabem que muito trabalho adoece e que não contam com nenhum tipo de proteção ou garantia de direitos. 

Pode-se dizer que existe ali um certo romantismo a respeito das noções de progresso trazidas pelo avanço do capitalismo. Nessa cidade, em específico, o capitalismo se manifesta em sua forma mais explícita. A comunidade, fundamentada essencialmente na valorização do trabalho, é vítima de precarização, exploração e ilusão de liberdade.  

Mas não somos todos, em algum grau,  vítimas desse mesmo sistema econômico? O progresso não nos parece sempre um pote de ouro a ser alcançado no fim do arco-íris? A lógica opressiva do trabalho autônomo também não tomou as principais cidades do Brasil via serviços de aplicativos de celular? Por isso Marcelo Gomes usa a “realidade aumentada” do capitalismo de Toritama para pelo menos apontar para a existência de um contexto maior; de uma engrenagem que é capaz de transformar uma cidade inteira em indústria têxtil.

Em Toritama, as facções são fábricas de fundo de quintal / Divulgação

O DOCUMENTÁRIO

Na memória do diretor, filho de um fiscal de tributos que trabalhava pela região, vive a imagem da Toritama de algumas décadas atrás. Quando criança, Gomes conheceu uma cidade rural, cujo trabalho de seus habitantes, que mantinham outro tipo de relação com o tempo, era dedicado à agricultura e à criação de animais.

Ao retornar para rodar um filme, entretanto, ele se depara com a paisagem mudada; com pessoas sem tempo, realizando movimentos repetitivos em suas máquinas de costurar – essa, aliás, uma das cenas mais marcantes do longa. Nela, Gomes filma a repetição de movimentos por diversos ângulos, trocando a trilha sonora e confessando que tal dinâmica lhe causa ansiedade. 

Estou me Guardando pra Quando o Carnaval Chegar percorre duas frentes principais. Na primeira, há a narração em off do diretor, que é quando ele confronta suas lembranças sobre Toritama com suas percepções sobre o que encontra no presente. Mas o olhar de Gomes é um olhar externo, nostálgico, crítico e privilegiado pela não necessidade de  submeter-se às pulsões mais cruéis do capitalismo do lugar. 

Daí a importância da segunda frente de desenvolvimento do documentário: o depoimento dos moradores de Toritama; o declarar de suas preocupações, de seus sonhos, e até mesmo de suas concepções de normalidade do cotidiano.

Em certo ponto, conversando com os entrevistados, o diretor percebe que o carnaval tem grande importância para a comunidade. Sob tanta demanda de trabalho e vontade de prosperar, os trabalhadores nunca param; exceto no carnaval, quando vendem os próprios bens se preciso for para bancar uma viagem ao litoral. Durante a semana do feriado Toritama fica deserta e o respiro vem do mar. 

É aí que o filme assume um tom melancólico. O tão sonhado feriado de carnaval não acontece na capital do jeans de forma muito distinta do que acontece em São Paulo, por exemplo. As engrenagens, no fundo, são as mesmas. E na quarta de cinzas o ciclo recomeça, repetitivo como os movimentos na máquina de costura.

Imagem: divulgação
Leia também: A Sombra do Pai: “Sentimentos param a máquina de produção capitalista”, diz diretora

Trailer: 

(Fonte: Vitrine Filmes/ YouTube)

Ficha técnica

Direção: Marcelo Gomes

Duração: 1h25

País: Brasil

Ano: 2019

Gênero: Documentário

Distribuição: Vitrine Filmes

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