José, o filme guatemalteco que ganhou o Leão Queer no Festival de Veneza

Falar de amor é figurinha mais do que carimbada no cinema universal. Politizar o amor, no entanto, é um ato de resistência.  Isso é o que faz o diretor sino-americano Li Cheng em seu filme José, ganhador do Leão Queer no Festival de Veneza de 2018 – prêmio entregue pela Associação para a Visibilidade do Mundo Homossexual.

Li Cheng nasceu na China, cresceu nos EUA e hoje vive pelo mundo. Buscou, em diversos países da América Latina, material para seu filme. Acabou na Guatemala, onde decidiu contar a história de José (Enrique Salanic), um jovem de 19 anos que vive com a mãe religiosa em situação de pobreza, envolvido pelo conservadorismo centro-americano que o impede de manifestar seus afetos por ser homossexual e imobilizado pela inércia e ausência de perspectiva do cotidiano.

Tudo muda para José quando ele se apaixona por Luís (Manolo Herrera), um jovem migrante da costa caribenha que está na Guatemala trabalhando no setor de construção civil. O relacionamento dos dois, apesar de intenso e significativo para José, se desenvolve às escondidas em um quarto de hotel.

‘José’ / Divulgação

Desses encontros socialmente proibidos brota um dilema na cabeça do protagonista: partir com seu Luis, alguém que lhe permite ser o que é e lhe oferece a possibilidade de tentar uma vida melhor em outro lugar, ou permanecer na Guatemala, ao lado da mãe que é sozinha, levando a mesma vida cheia de miséria e desencanto?

O personagem fictício representa a condição de incontáveis jovens latino-americanos. Ele é filho de uma mãe solo, vem de família religiosa, pobre, conservadora. Sobrevive por meio de seus empregos informais e esbarra o tempo todo em obstáculos postos pelas desigualdades. Sua existência é  vítima direta de crises políticas e econômicas e de preconceitos descabidos, mas amplamente enraizados socialmente.

Li Cheng é cuidadoso ao delinear a rotina de seu protagonista, confrontando  realidades e oferecendo contextos. Seu olhar de estrangeiro não é um problema. O diretor se esforça para mostrar a diversidade das paisagens guatemaltecas e dos diversos tipos de relações que permeiam a rotina do personagem de Salanic.

José é um filme cíclico, e às vezes monótono, mas essa ciclicidade da rotina de um protagonista sem perspectivas e acuado por uma difícil tomada de decisão faz completo sentido. O jovem precisa escolher entre se lançar no mundo cheio de inseguranças, com um futuro incerto e obviamente nada fácil, ou manter a relação de parceria com a mãe em meio a condições sempre adversas, reprimindo seu existir como ser completo.

Imagem: divulgação

O diretor nos obriga a provar do arrastar dos dias de José, dos olhares perdidos em meio ao caos do trabalho, do isolamento da casa e da esperança do relacionamento. É um escolha corajosa, visto que o filme tende a tornar-se repetitivo e ameaça perder-se mais do que o personagem e suas dúvidas existenciais, mas também é algo que faz da obra uma experiência quase sensorial de progressão de personagem.

No final das contas, este é, sem dúvidas, um longa-metragem singular. Primeiro, por ter conseguido um prêmio internacional importante em nome da Guatemala, um país centro-americano sem “tradição” no cinema. Depois, por ser dirigido por um sino-americano. E por último, mas não menos importante, pela temática relevante e ainda tabu. Diversidade definitivamente é uma palavra que se aplica bem a todos os aspectos deste filme.

 

* Este texto faz parte da cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

 

Ficha técnica

Direção: Li Cheng

País: Guatemala

Ano: 2018

Elenco: Enrique Salanic, Manolo Herrera, Ana Cecilia Mota

Gênero: Drama

Distribuição: ainda sem distribuidor no Brasil.

 

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