Recife Frio: como o curta-metragem de Kleber Mendonça Filho se encaixa num país que nega o aquecimento global

O aquecimento global é uma farsa, debocham o Presidente da República e sua prole. Em 2017, Carlos Bolsonaro, vereador do Rio de Janeiro, insinuou que a existência de dias frios comprova que nada disso existe. “O aquecimento global proporcionando o dia mais frio do ano no Rio de Janeiro!”, ironizou ele no Twitter.

Essa não é a primeira vez que o clã Bolsonaro afirma que algo é mentira simplesmente porque é mais conveniente aos seus interesses. Negar a ciência nunca foi um problema para eles. O problema – para nós – é que as mudanças climáticas já estão acontecendo, e como pudemos perceber com o recente ciclone que destruiu Moçambique, os mais afetados por seus efeitos não serão os membros da elite mundial.

Enquanto incentivam seus seguidores a esbravejar na internet sobre aquecimento global ser “invenção de comunista”, o alarme ambiental dispara. Não há tempo para infantilidades.  Qualquer governo minimamente comprometido com o futuro deveria colocar-se em alerta e participar ativamente das discussões internacionais sobre saídas possíveis para a crise climática – principalmente se esse governo for o do Brasil,  país mais biodiverso do planeta e aquele que pode arrastar todo o resto do mundo consigo para o abismo. Ou isso, ou não haverá futuro possível.

‘Recife Frio’ / Divulgação

Infelizmente, o único comprometimento do atual governo brasileiro é com entregar nossas riquezas naturais de bandeja ao imperialismo do capital estrangeiro, deixar o povo vulnerável a selvageria dos destrutivos interesses neoliberais, destruir os povos protetores das florestas  e fazer sangrar ainda mais as já sofridas veias latino-americanas. Os protagonistas de nossa distopia particular formam uma família de subcelebridades que alcançaram o poder e elevaram seus egos. O espetáculo é nossa própria desgraça, e o absurdo é nossa realidade. Nosso reality show seria cômico, se não fosse trágico.

Tamanha tragicomédia faz lembrar o curta-metragem Recife Frio (2009), de Kleber Mendonça Filho. No filme, a ideia de um Brasil abençoado por Deus e bonito por natureza cai por terra. De repente, a cidade de Recife sofre com uma mudança climática grotesca e deixa de ser uma bela cidade tropical de lindas praias para conviver com eternos dias nublados, frios e chuvosos.

Mendonça Filho cria uma trama distópica e constrangedoramente hilária para apontar que, infelizmente, o enredo do filme não é um destino tão improvável assim. O curta simula uma longa reportagem que registra como, do dia para a noite, a mudança climática transforma as dinâmicas da cidade e da vida das pessoas.

Imagem: divulgação

Em poucos minutos, Recife Frio expõe a implacabilidade da “vingança da natureza” nas dinâmicas humanas. Gradativamente, vendedores ambulantes e turismo são prejudicados, a especulação imobiliária vê os negócios virarem de cabeça para baixo, moradores de rua morrem de hipotermia e, por ter menos ventilação, o quartinho da empregada é entregue ao filho da família de classe média alta, que não pode passar frio.

Tanto as relações pessoais quanto as contradições sociais (de classe, raça e gênero) são afetadas – e agravadas – diretamente por algo que antes parecia muito abstrato, mas que na prática é catastrófico. Teria Kleber Mendonça Filho previsto, 10 anos atrás, que o Brasil alcançaria tamanho nível de negligência institucional em relação à crise climática?

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