As mulheres indígenas do cinema latino-americano nas premiações hollywoodianas

A data da cerimônia do Oscar 2019 se aproxima, e com ela a convicção de que Roma, longa-metragem mexicano dirigido por Alfonso Cuarón e distribuído pela Netflix, é o grande destaque dessa temporada de premiações. Mas Cuarón não foi o único alçado aos holofotes graças ao sucesso de Roma. Yalitza Aparício, protagonista de ascendência indígena do filme e atriz estreante, é o assunto do momento no mundo cinematográfico.

Yalitza Aparício interpreta Cleo em ‘Roma’ / Divulgação

Desde que emocionou público e crítica com sua interpretação de Cleo, empregada doméstica de uma família mexicana tradicional de classe média, Aparício tem dado grandes passos a favor da representação das mulheres indígenas na indústria do entretenimento.

A atriz, que até bem pouco tempo atrás era professora em uma pré-escola, nasceu em Oaxaca, um dos estados com maior população indígena do México. Aos 25 anos, participou despretensiosamente de uma audição de Roma e foi escolhida por Cuarón. Agora, ela representa um levante contra preconceitos enraizados na sociedade de seu país.

REPRESENTATIVIDADE

Quando pensou em realizar Roma, Cuarón desejava revisitar sua infância. Filho de uma família de classe média, ele foi criado por uma empregada como Cleo. Hoje reconhecido como célebre diretor de cinema, decidiu retratar, em preto e branco e com uma sensibilidade estonteante, as contradições sociais que presenciou dentro de seu próprio lar.

Roma é um filme sobre detalhes e subjetividades; sobre cargas do cotidiano que têm raízes profundas na configuração histórica e social do país. Na trama, Cleo é o pilar da família para qual trabalha. Ela cuida da casa, das crianças e vive sem tempo, espaço e condições para cuidar de si mesma. Na relação com a patroa (Marina de Tavira), uma mulher branca e socialmente privilegiada, encontram-se intersecções e contrastes sobre o que era ser mulher mexicana na década de 1970. Ambas sofrem, por exemplo, de abandonos masculinos; mas isso não impede que as diferenças de classe sejam sentidas constantemente – e justamente nos detalhes.

Graças à doce e melancólica Cleo, Yalitza, uma jovem humilde, filha, coincidentemente, de uma mulher que trabalhou por anos como empregada doméstica, conseguiu ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz, tornou-se a primeira mulher indígena a estampar as capas da Vogue México e Vanity Fair, revistas dominadas por modelos magras, altas e brancas, e está fazendo história para muito além do cinema.

Marina de Tavira, Alfonso Cuarón e Yalitza Aparício/ Foto:Vittorio Zunino Celotto (Getty Images Europe)

Em entrevista à revista Vogue, a estrela de Roma disse estar agradecida pelos novos rumos de sua vida: “Estou muito grata por estar percorrendo o mundo todo com uma história tão bonita. Uma mulher normal está conseguindo ser inspiração para outras pessoas”. Já ao The New York Times, a atriz falou sobre sua indicação ao Oscar e disse que tal nomeação significa “estar rompendo com esses estereótipos que dizem que porque somos indígenas ou porque não temos uma cor de pele clara não podemos fazer certas coisas”.

Tanta visibilidade tem seus prós e contras. A falta de representatividade indígena e negra na mídia reflete as desigualdades sociais do México –  tal como acontece em toda a América Latina. De acordo com reportagem da AJ+ Español, os mexicanos de pele escura ganham 42% a menos que os de pele mais clara, por exemplo. Tais desigualdades foram espelhadas nas reações sobre o sucesso de Aparício.

Enquanto parte do público e da mídia comemoram uma tardia chegada da representatividade feminina indígena e mexicana à Hollywood , outras pessoas escancaram seu racismo. Aparício tem sido alvo de inúmeros ataques preconceituosos na internet, além de, recentemente, ter sido vítima de comentários racistas vindos de atores e atrizes mexicanas. Eles afirmam que a atriz não mereceu sua indicação ao Oscar porque só fez interpretar a si mesma (como se sua condição natural fosse ser uma empregada doméstica). Um grupo de atrizes chegou até a solicitar à Academia Mexicana de Artes e Ciências Cinematográficas (AMACC) que Yalitza Aparício não seja considerada como opção de indicação de Melhor Atriz no Prêmio Ariel de Cinema.

A TETA ASSUSTADA

Em 2010, A Teta Assustada, filme peruano protagonizado também por uma mulher indígena, conseguiu uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Na época, a produção não causou tanto alarde quanto Roma causa agora – possivelmente por conta da distribuição, já que Roma está disponível na Netflix para 190 países; por se tratar de um outro momento, no qual o feminismo não era tão difundido na internet; e por causa do furor em torno de O Segredo dos Seus Olhos (longa argentino protagonizado por Ricardo Darín e vencedor da categoria naquele ano). Mesmo assim, A Teta Assustada tornou-se o primeiro filme peruano a ganhar o Festival de Berlim como Melhor Filme.

‘A Teta Assustada’ / Divulgação

Dirigida por Claudia Llosa, a obra retrata uma lenda do folclore andino que fala sobre a doença da teta assustada. De acordo com o mito popular, mulheres estupradas durante a guerra ficam com a doença do medo e a transmitem, através da amamentação, aos filhos que nasceram desses estupros. Fausta (Magaly Solier), a protagonista, é fruto de um estupro e vive com medo.

Quando a mãe de Fausta morre repentinamente, logo no início do filme, a jovem precisa trabalhar na casa de uma mulher branca e rica para conseguir dinheiro para enterrar a mãe aonde ela gostaria de ser enterrada.

Aos poucos, percebemos que a protagonista vive com uma batata introduzida na vagina por sentir um medo brutal de ser estuprada, e que sua relação com a patroa (Susi Sánchez) expõe correlações de poder que sistematicamente são resultado da colonização do europeu sobre os povos originários latino-americanos – tal como em Roma.

As relações entre Cleo e Fausta com suas respectivas patroas são tão diferentes quanto similares. Ambos os  filmes retratam, cada qual à sua maneira, como mulheres de diferentes classes convivem com o masculino e como a interação entre classes é repleta de códigos sociais marcados por explorações, opressões e solidões que não cessam por culpa da permanência das desigualdades sociais e da ausência de reparações históricas.

Susi Sánchez e Magaly Solier são patroa e empregada em ‘A Teta Assustada’ / Divulgação

Cleo e Fausta são, além de empregadas domésticas, mulheres solitárias e subjugadas, que expressam seus medos de diferentes formas – a segunda, introduzindo uma batata na vagina, elemento de realismo fantástico muito potente. As duas são vítimas de dívidas históricas que se manifestam nos detalhes do cotidiano e das relações até hoje.

Quase dez anos separam um filme do outro, mas a importância de tratar de temas relacionados às consequências dos processos de colonização na América Latina sob a perspectiva de mulheres indígenas ainda é fundamental – e raro no cinema ficcional que chega à Hollywood.

Os ataques sofridos por Yalitza Aparício em pleno 2019 apenas comprovam a necessidade de ouvirmos sobre mulheres descendentes dos povos originários de nossa terra e de assistirmos a filmes como Roma e A Teta Assustada. O marco de Aparício como primeira mulher latino-americana e indígena a ser indicada ao Oscar é importante, e também um desafio. Hoje, com a potência da internet, a jovem atriz é mais do que uma protagonista de filme premiado, ela é porta-bandeira de uma causa e alvo daqueles que odeiam “o diferente”. Cuarón quis retratar os contrastes das mulheres de sua infância, mas acabou marcando a história das premiações de cinema. Quem sabe esse momento sirva para que atrizes indígenas possam, finalmente, ir além de interpretações de empregadas domésticas.


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