Sintonia (Netflix) leva a marginalização ao holofote

Atenção! Este texto pode conter spoilers.

Na última sexta-feira (09), a Netflix liberou em sua plataforma a primeira temporada de Sintonia, a mais nova produção original e brasileira do streaming. Ao lado de Samantha!, Coisa Mais Linda, O Escolhido, O Mecanismo e 3%, a produção de KondZilla, Guilherme Quintella e Felipe Braga estreou com seis episódios; que mostram um grupo de amigos da periferia de São Paulo (SP) nos dias atuais.

Doni (João Pedro Carvalho), Rita (Bruna Mascarenhas) e Nando (Christian Malheiros) moram na mesma favela desde a infância. Agora, jovens adultos, o trio concilia a antiga amizade com os rumos tomados por cada um. Quando Doni vê a oportunidade de investir em sua carreira de funkeiro, a cantora Dondoka (Leilah Moreno) rouba uma de suas composições. Simultaneamente, Nando estreita laços com o tráfico de drogas e Rita, bastante solitária, complica-se com a vizinhança.

Rita (Mascarenhas), Doni (Carvalho) e Nando (Malheiros) / Divulgação

Além da história de ritmo constante e sempre atraente, uma grande qualidade de Sintonia é a verossimilhança com a realidade brasileira. A linguagem cheia de gírias, a batalha diária do trabalhador não regulamentado e o consumo de drogas são pontos explorados de maneira responsável pelo texto da produção.

Outro aspecto importante e positivo da série é quanto à relevância do funk carioca na cultura periférica (de São Paulo, no caso). Em uma das primeiras cenas de Sintonia, Doni e Rita vão a um baile funk na favela em que vivem. A favela, aliás, é a ambientação central da série. A partir daí, o espectador não familiarizado com a periferia de cidades grandes tem um vislumbre da realidade de milhões de cidadãos; enquanto que o morador periférico vê-se representado de forma mais crua do que nas demais produções do gênero.

Família e pertencimento

Mesmo que a série trate de questões sociais dentro dos limites da favela, tudo que acontece ali respalda nas classes média e alta. O tráfico de drogas, como exibido em Sintonia, é financiado por figuras da alta sociedade – como por empresários e/ou políticos; tal como recebe o aval das corruptas Polícias Civil e Militar para funcionar. Ademais, a Igreja Pentecostal, que encontra-se cada vez mais forte no Brasil, e a disseminação do funk também atingem quaisquer camadas sociais. Assim, a produção da Netflix trilha o destino simbólico de seus personagens principais.

Por mais distintos que sejam os caminhos encontrados pelos amigos, todos conquistam o que mais aproxima-os de uma sensação de pertencimento. Doni assina um contrato com uma gravadora de sucesso; Nando faz um juramento à facção criminosa da qual já fazia parte, e onde cresce perigosamente; e, por último, Rita é batizada em uma Igreja evangélica, ao identificar-se com o puritanismo da instituição.

Rita (dir.) e Cacau (Danielle Olímpia), vizinha e amiga de Rita / Divulgação

Ao espectador, as ciladas da indústria musical, do mundo do crime e de oportunistas da Igreja ficam mais claras; principalmente por a série abordar esses cenários fora da subjetividade dos protagonistas. Já para estes, no entanto, cada grupo que encerra a primeira temporada serve aos amigos como um centro de acolhimento; uma família, de certa maneira.

E, por falar nisso, Doni é quem mais pode contar com uma rede de apoio familiar. Rita, de apenas 18 anos, vive sozinha desde que a mãe morrera. Ao mesmo tempo, Nando, que tem de sustentar esposa e filha bebê, mina suas próprias chances de progresso em um futuro próximo, ao ser impedido pelo crime de fazer escolhas saudáveis. Logo, o traficante torna-se um assassino; e, de faz-tudo indiscriminado, é promovido a um alto cargo da facção.

Identificação

Mais do que uma crítica social do audiovisual brasileiro, Sintonia põe a marginalização de muitos jovens sob o holofote de uma mídia popular. Desse modo, a série apropria-se de um conteúdo acessível ao público mais novo e conquista-o pela honestidade de sua história.

Extremamente imperfeitos, os três protagonistas têm a carisma necessária para despertar a empatia do espectador. Então, a identificação é garantida. Além disso, alguns propícios cliffhangers (recurso textual que abarca algo surpreendente) auxiliam na capacidade de atração do roteiro. No final, há altas chances de você maratonar a série.

Imagem: divulgação

Ficha técnica

Criação: KondZilla, Guilherme Quintella e Felipe Braga

País: Brasil

Ano: 2019

Elenco: João Pedro Carvalho, Bruna Mascarenhas, Christian Malheiros

Gênero: Drama

Distribuição: Netflix

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