Terror emergente: a junção entre o suspense convencional e a narrativa silenciosa

[ATENÇÃO: Este texto pode conter spoilers dos filmes O Babadook, A Bruxa, Ao Cair da Noite, Alien – O Oitavo Passageiro, O Massacre da Serra Elétrica e O Enigma de Outro Mundo]

Se você assistiu aos últimos lançamentos de terror nos cinemas, está a par de que o gênero se encontra em intensa transformação. Ao público geral, os filmes de terror precisam daquela dose “adequada” de jump scare (técnica usada nesse tipo de produção, com o intuito de assustar os espectadores a partir de mudanças bruscas de som ou imagem), uma história sobrenatural e outros clichês.

Longas-metragens como Annabelle (2014), que se encaixam perfeitamente em “terrores convencionais”, são os que atraem mais pessoas para as salas de cinema. Uma figura marcante e facilmente identificável, como a boneca demoníaca do título em questão, além de personagens histéricos e sustos constantes, fazem parte do maior estereótipo das produções do gênero.

Graças a isso, a aceitação em torno de filmes silenciosos, e nos quais o monstro não apareça, dificilmente é consenso do grande público. Esse é o caso de O Babadook (2014), A Bruxa (2015), Ao Cair da Noite (2017) e Um Lugar Silencioso (2018).

 

MONSTRO INVISÍVEL

Em O Babadook, um menino malcriado começa a ter visões do monstro literário de mesmo nome do título. Aterrorizados com sua nova realidade, os personagens principais (uma mãe e seu filho) passam a viver noites assustadoras dentro da própria casa. A produção intriga pela simples incerteza de que o menino está mesmo tendo experiências sobrenaturais, ou de que ele apenas herdou a loucura da mãe. Em nenhum momento o monstro vilanesco nos é mostrado – ao menos, não com clareza –, o que dificulta que tomemos decisões a respeito do filme, enquanto o assistimos.

Essie Davis e Noah Wiseman em cena de ‘O Babadook’, de Jennifer Kent / Divulgação

Será que há uma lição de moral? Será que, pelo fato de o Babadook nunca aparecer, a criança apresenta problemas psiquiátricos? Ou ainda, será que o maior medo advindo do monstro consiste no mistério de sua forma? Seja qual for(em) a(s) resposta(s) correta(s), a questão é que o longa-metragem assusta justamente por não declarar suas artimanhas, e muito mais por não apostar em clichês do terror.

No site Rotten Tomatoes, o filme ganhou aprovação de 98% da crítica especializada, contra 79% do público. Isso indica que, por mais que os espectadores tenham, em sua maioria, gostado do filme, há números consideráveis de reprovação popular. Afinal, talvez haja dois tipos de público do gênero de terror: os que curtem tomar sustos e os que apreciam o medo em suas abstrações.

 

SILÊNCIO

Um exemplo do último caso está no clássico O Enigma de Outro Mundo (1982). Por mais que o artifício gore (definido por elementos que causam nojo e/ou repulsa no espectador) revele parte do monstro dessa produção, o mistério permanece até a última cena. Considerando sua época de produção e lançamento, é claro que o gênero em questão compunha-se de características distintas às populares de hoje em dia – como o próprio fato de que os longas antigos eram dotados de silêncio.

Kurt Russel em cena de ‘O Enigma de Outro Mundo’, de John Carpenter / Divulgação

Retornando aos filmes atuais, em A Bruxa, por exemplo, a ausência de som é um verdadeiro trunfo. Isolada às margens de uma floresta sombria, uma família do século XVIII sofre com o desaparecimento de seu bebê. Acusada pela própria mãe de envolvimento com o caso inexplicável, a filha mais velha é tida como alvo de uma histeria religiosa que paira sobre seus pais e três irmãos mais novos. Ao longo do filme, somos envolvidos por uma atmosfera de perigo iminente, justificada num clima superficial de tranquilidade.

A vegetação, a neblina e os sons naturais da floresta são somente o que cerca a família desamparada. Durante todo o decorrer de A Bruxa, há cerca de dois ou três jump scares, o que os torna ainda mais surpreendentes – e o que parece não ter agradado tanto o público, considerando seus 57% de aprovação, contra os 91% da crítica. Tendo estreado recentemente, Um Lugar Silencioso segue essa mesma linha: como o próprio nome diz, silêncio, silêncio e mais silêncio. Em contrapartida à A Bruxa, no entanto, a produção satisfez espectadores um pouco mais habituados a esse tipo de terror.

‘A Bruxa’, de Robert Eggers / Divulgação

 

AO CAIR DA NOITE E O “CÚMULO” DO EMERGENTE
‘Ao Cair da Noite’, de Trey Edward Shults / Divulgação

Ao Cair da Noite é uma espécie de fusão entre os filmes silenciosos e cujos monstros não passam de alegorias simbólicas. Se o longa tiver mais de dois jump scares, já é muita coisa. Podendo comparar seu suspense ao interminável de Alien – O Oitavo Passageiro (1979), por exemplo, (que se passa quase que totalmente no interior de uma nave), e seu clímax no ato final com o de O Massacre da Serra Elétrica (1974), fica fácil de definir o filme de 2017.

‘Alien – O Oitavo Passageiro’, de Ridley Scott / Divulgação

Assim como em Alien, Ao Cair da Noite eleva a sensação de confinamento ao extremo. Conviver com pessoas estranhas nunca fora tão difícil (em ambas as produções), ainda mais quando o único objetivo é a própria sobrevivência. No filme mais recente, duas famílias disputam por espaço e comida, diferentemente do longa-metragem de 79, no qual a máxima “cada um por si” se sobressai a qualquer noção de coletividade.

Já em O Massacre da Serra Elétrica, a carnificina atinge seu ápice apenas no ato final, quando o maníaco da serra elétrica mata sua última vítima, antes de chegar até a mocinha. A construção narrativa de Ao Cair da Noite acontece de forma similar, já que, nos “45 do segundo tempo”, o caos desbanca tudo aquilo que parecia sob controle aos personagens.

‘O Massacre da Serra Elétrica”, de Tobe Hooper / Divulgação

 

QUESTÃO DE HÁBITO

Gostar de um terror não-convencional talvez seja uma questão de hábito. Daqui a alguns anos, quando estivermos mais acostumados à evolução do gênero para “esses lados”, será possível que o público geral aprecie genuinamente um filme de horror silencioso, sem clichês ou obviedades. Enquanto isso, tal transformação configura-se em produções emergentes, que costumam muito agradar a crítica e dividir bastante seus espectadores.

Até que nos acostumemos ao massivo lançamento do terror de qualidade, não custa nada darmos uma chance a filmes contemporâneos que já se enquadram nesse quesito. Abandonar o jump scare nunca foi tão convidativo.

Emily Blunt e Millicent Simmonds em cena de ‘Um Lugar Silencioso’, de John Krasinski / Divulgação

 

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