[Estreia] Utøya – 22 de julho: a dramatização do terrorismo em uma única tomada

Retratar um episódio tão complexo e violento da vida real nunca é um trabalho simples. Para que as vítimas e o contexto da tragédia sejam devidamente respeitados, a dramatização da mesma precisa de um estudo detalhado e altamente fundamentado. Quando a produção de Utøya – 22 de Julho: Terrorismo na Noruega fora iniciada, o diretor Erik Poppe teve de lidar diretamente com os sobreviventes do ataque terrorista.

Para transferir às telas, de maneira fidedigna, os 72 minutos de perseguição e puro horror que assolaram a ilha norueguesa de Utøya, naquela sexta-feira de 2011, Poppe optou por um filme de uma única tomada, e feito sob a perspectiva de uma jovem vítima.

Kaja (Andrea Berntzen) – a protagonista fictícia do longa-metragem – aproveita o final de tarde de um acampamento de verão em Utøya, juntamente com sua irmã Emilie (Elli Rhiannon Müller Osbourne) e as centenas de jovens do Partido Trabalhista norueguês.

Mais cedo, naquele mesmo dia, um carro-bomba fora detonado na sede do Governo, na capital do país, Oslo. Assim, os primeiros minutos do filme se delineiam; a partir de uma calmaria inocente e melancólica que permeia os campistas.

Passados alguns minutos, o primeiro som de disparo é confundido com o de fogos de artifício. Afinal, o que poderia acontecer de tão ruim em um pedaço de terra isolado, como bem lembra Kaja? Após a quarta ou quinta repetição do barulho incômodo, a correria desenfreada de um grupo vindo da praia entrega as circunstâncias daquele momento: alguém estaria caçando os campistas com uma arma de fogo.

Imagem: divulgação

Utøya – 22 de Julho não é a única dramatização do ataque terrorista. Em outubro de 2018, a Netflix liberou em sua plataforma de streaming o longa-metragem 22 de Julho. Mas, diferentemente da obra de uma tomada de Poppe, o filme de Paul Greengrass traz o assassino para o centro da narração.

Na produção de Poppe, a escolha de perspectiva e de ritmo fazem toda a diferença. Durante os 90 minutos de filme, vivenciamos cada instante do mais primitivo terror, a partir da câmera ininterrupta que acompanha Kaja. Tal como a própria sinopse do longa nos entrega, a adolescente representa o pânico e o desespero dos 500 jovens que, realmente, viveram aquilo tudo.

Cada cenário – de uma ilha que é pequena em tamanho, mas que passa a ser infinita quando transformada em purgatório – faz nossos olhos percorrerem aquela finitude verde e imprevisível, buscando por uma solução. Enquanto isso, nossos ouvidos acostumam-se às dezenas de tiros disparados, que pré-anunciam mais uma morte.

Ao mesmo tempo em que um barulho de tiro pode indicar mais vítimas do ataque, a intensidade de um mesmo disparo denuncia a que distância o assassino está de Kaja. Seria, então, menos pior que o barulho continuasse, ou que cessasse por mais minutos? Um intervalo de quanto tempo entre os tiros indicaria o fim daquele massacre – aparentemente – interminável?

Agora, sabendo de sua exata duração, vivenciar essa experiência torna-se mais suportável, do lado de cá. Já para Kaja, cada milésimo de segundo é como um dia inteiro de correrias e ausências da irmã Emilie.

Pôster do filme / Divulgação

No meio disso tudo, a amplitude do horror é exposta através dos corpos de jovens estendidos ao chão. O tempo passa, e as vítimas aprendem a correr em silêncio, à medida em que os caminhos de alguns jovens se entrelaçam com o de Kaja. Uns vêm, outros vão. E jamais sabemos quando, e se, voltarão.

Para controlar cada movimento, diálogo e aparição em frentes às câmeras, Poppe e toda a sua equipe tiveram de ensaiar exaustivamente. E, logicamente, sua experiência como fotógrafo em zonas de combate lhe rendeu uma boa noção, quanto ao tipo de filme que gostaria de fazer. Ao final, a tomada saiu – e impecável, diga-se de passagem.

Assistir a Utøya – 22 de Julho é como experimentar o mais vívido e assustador terrorismo. Tal como Kaja, somos transformados em vítimas de um ataque brutal; aprendendo, então, a nos comportarmos como animais caçados em uma floresta. E, assim, a figura do atirador aproxima-se de algo, cada vez, menos humano.

Ao final do longa-metragem, e a quem interessar possa, a mensagem sobre o assassino é somente a de que ele é um extremista de direita norueguês de 32 anos. E, sobre o criminoso, nada mais importa. De resto, ficamos com um crime de ódio em que 69 pessoas foram assassinadas, mais as oito que morreram durante a explosão da bomba em Oslo.

A íntima aproximação que temos com o ataque em Utøya é o que mais choca na produção homônima. Ainda assim, para aqueles que tiverem a coragem de se aprofundar na história, é altamente recomendável que assistam ao filme. Afinal, o modo mais eficaz de compreender a realidade de uma tragédia é estar ao lado de quem a viveu.

Trailer oficial:

(Fonte: YouTube / californiafilmes)

 

Ficha técnica

Direção: Erik Poppe

País: Noruega

Ano: 2018

Elenco: Andrea Berntzen, Aleksander Holmen, Brede Fristad

Gênero: Drama, Suspense

Distribuição: California Filmes

 

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