Bacurau: nova colonização e sertão de guerrilha

Daqui a alguns anos, quando o país estiver dividido entre Brasil do Norte e do Sul, a pena de morte será legalizada e executada em praça pública; smartphones farão traduções simultâneas perfeitas de quaisquer idiomas; e um povoado do sertão nordestino reagirá diante de uma ameaça estrangeira. Em Bacurau, comunidade fictícia e título do novo filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, a modéstia cede lugar à resistência armada. Afinal, conquistar o Prêmio do Júri do Festival de Cannes é para os fortes.

Da mesma direção-geral (de Mendonça Filho) e de arte (de Dornelles) de Aquarius (2016) e O Som ao Redor (2013), Bacurau, que estreia nesta quinta-feira (29) nos cinemas, repete o caráter essencialmente autoral dos trabalhos anteriores da dupla. Para tanto, foram necessários um roteiro digno de uma crônica brasileira de terror, um elenco brilhante e uma produção impecável. Nada muito diferente dos outros dois longas-metragens de Mendonça Filho; já que ambos flertam com o thriller psicológico de forma singular.

Em Cannes deste ano, Bacurau dividiu as atenções e a honraria do júri com Os Miseráveis (versão do francês Ladj Ly). Mas, em terras brasileiras, o longa-metragem nacional brilha sozinho. “Eu nunca escrevi nada com a intenção de passar uma mensagem. (…) Meus filmes são sempre muito cheios de conflitos que se anulam, e isso gera uma confusão que eu considero importante”, frisa Mendonça Filho, no que é apoiado por Dornelles; “[concordo] cem por cento”.

Imagem: divulgação

“Então, esse sentimento de mudança, de união, de resistência, não é um sentimento apenas brasileiro; ele é do mundo, neste momento. A minha esperança é a de que este filme [Bacurau] também venha [para] trazer uma revisão.” – Sonia Braga

Sábia anciã

Assim, como fora enfatizado logo no início da coletiva de imprensa em São Paulo (SP), com a presença de elenco e direção, os personagens politicamente incorretos da obra têm – a princípio – a função única de contar uma história. Na trama, Teresa (Bárbara Colen) retorna à sua terra natal após a morte da querida avó. Enquanto isso, o criminoso Lunga (Silvero Pereira), conhecido pelo povoado da região, continua foragido. Passados alguns dias, uma dupla de forasteiros vinda do Sudeste (e interpretada por Karine Teles e Antonio Saboia) chega de surpresa em Bacurau.

A partir daí, a aparente pacatez dos cidadãos é confrontada por uma série de eventos violentos, promovidos por um grupo contratado de norte-americanos. Em papéis de maior destaque, no núcleo de estrangeiros, estão Udo Kier (Armageddon), como Michael, e Alli Willow (O Escolhido), como Kate. Além destas estrelas, a grandiosa Sonia Braga repete a parceria com Mendonça Filho e Dornelles, depois de protagonizar Aquarius.

“Eu acho que eu só aceito fazer um filme se eu já estou entendendo a vida; se já me passaram essa mensagem. A minha escola é a rua, mesmo. (…) Então, esse sentimento de mudança, de união, de resistência, não é um sentimento apenas brasileiro; ele é do mundo, neste momento. (…) A minha esperança é a de que este filme [Bacurau] também venha [para] trazer uma revisão; (…) rever o Brasil…”, reflete Braga.

No longa-metragem, a veterana da atuação vive Domingas, uma profissional da saúde que atende o povo da comunidade. E, mesmo que compartilhe o protagonismo com tantos outros personagens, Braga interpreta uma sábia anciã, de luz própria.

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Rebelião

Dessa forma, quando o filme atinge o clímax e Bacurau vira um campo de guerra, a firme Domingas encabeça uma das lideranças da rebelião. “Vou acrescentar, neste momento, já, o que eu disse em Gramado [Festival]; que Domingas, a minha personagem, eu dediquei à Marielle [Franco; vereadora assassinada em março de 2018]. E eu quero saber, sim, quem mandou matar Marielle”, complementa a atriz, seguida de aplausos.

Por falar em resistência, aliás, esta é a questão de maior destaque da produção. De suspense sutil, Bacurau metamorfoseia-se em um faroeste contemporâneo; em uma narrativa derivada das tentativas de nova colonização da América Latina. E, por nova colonização, entenda-se uma combinação de vira-latismo interno com crises sociais e interesses socioeconômicos internacionais. É claro que, de vira-lata, a comunidade fictícia não tem nada. Mas, ainda assim, é possível perceber reflexos da realidade brasileira na obra.

Quando as coisas começam a degringolar em Bacurau (povoado), por exemplo, uma espécie de safári humano é lançado. Então, os brancos estadunidenses, divididos entre sádicos e mercenários, passam a caçar os seus alvos indiscriminadamente. Em uma das cenas mais chocantes do filme, um casal de caçadores, em um êxtase absurdo pós-extermínio, decide ter relações sexuais no breu de um matagal; como dois animais selvagens.

Visão extraterrestre e tempo de tela

Inclusive, este cenário dificilmente pode ser associado à cena de abertura de Bacurau; que expõe o resultado máximo do avanço tecnológico, dentro e fora das telas: um satélite que orbita o planeta Terra. Ao som de Não Identificado, na voz da tropicalista Gal Costa, a cena de maior custo do longa-metragem rompe com a lógica hollywoodiana e foca em uma visão extraterrestre do Brasil (e não da América do Norte, como de costume).

Portanto, o início que introduz, logo de cara, os créditos do elenco principal – como nos filmes estadunidenses dos anos 50 – entrega a hibridez artística da obra. A produção do longa nacional é, a propósito, muito bem feita. A caracterização dos personagens, os elementos presentes nos cenários, as locações (em Barra, no Rio Grande do Norte) e todos os demais detalhes dão a impressão de comprometimento e harmonia nos bastidores; já que há, mesmo, unidade visual e verossimilhança decorrentes da produção.

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Tantos ingredientes poderiam facilmente dar errado. No entanto, os distintos ambientes servem para compor todo o povoado de Bacurau. Nessa linha, não há um personagem sequer que monopolize a atenção das câmeras para si. Cada um deles é peça-chave no enredo, além de ter tempo digno de tela – incluindo os ainda não citados Pacote/Acácio (Thomas Aquino), um ex-matador, e Plínio (Wilson Rabelo), professor e pai de Teresa, por exemplo; o que é um feito visto em pouquíssimos filmes (é preciso reconhecer); quanto menos em produções nacionais.

“(…) A gente vive em um país que é muito rico em absurdos, rico em contradições, rico em violência e rico em deseducação. E, isso é alimento para mais de dois mil filmes. Bacurau é só mais um.” – Juliano Dornelles

Empoderamento brasileiro

De volta às impressões que o espectador pode ter sobre o longa-metragem, Dornelles salienta o cinismo necessário para criar uma obra audiovisual com temática política. “(…) A gente precisa, às vezes, ser um pouco…eu não sei, um pouco cínico para lidar com certas coisas que estão nos machucando, nos agredindo; e jogar na tela uma espécie de resposta a isso. (…) A gente vive em um país que é muito rico em absurdos, rico em contradições, rico em violência e rico em deseducação. E, isso é alimento para mais de dois mil filmes. Bacurau é só mais um”, comenta o diretor.

Realmente, Bacurau é somente um título dentre tantos ótimos do cinema nacional político. Mesmo que seus diretores afirmem fugir de mensagens, as interpretações da obra estão liberadas ao espectador. Sendo assim, a guerrilha do povoado sertanejo abre espaço tanto à mera distração quanto à reafirmação do empoderamento brasileiro.

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Ficha técnica

Direção: Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles

Duração: 2h12

País: Brasil, França

Ano: 2019

Elenco: Sonia Braga, Udo Kier, Bárbara Colen, Thomas Aquino

Gênero: Drama, Suspense, Faroeste

Distribuição: Vitrine Filmes

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