Big Little Lies (HBO) reestreia grandiosa e mais ácida na 2ª temporada

A série de montagem impactante e direção minimalista está de volta para a sua segunda temporada. Big Little Lies, a produção da HBO inicialmente pensada para ser uma minissérie, reestreou na TV em grande estilo no último domingo (09) – e já indica a lapidação mais precisa de um material bastante valioso do audiovisual.

Madeline (Reese Whiterspoon), Celeste (Nicole Kidman), Jane (Shailene Woodley), Renata (Laura Dern) e Bonnie (Zoë Kravitz) estreitam os seus laços de amizade, após os acontecimentos fatídicos que uniram-nas irremediavelmente na temporada inicial. A nova união, que prometia a harmonia entre as figuras, digamos, peculiares, na verdade parece mais abalável do que poderia-se supor. Adaptada para as telas por David E. Kelley, do livro de Liane Moriarty, a obra dirigida por Jean-Marc Vallée (Sharp Objects) pesa a mão no mistério e investe no aprofundamento da obscuridade de sua história.

Imagem: divulgação

Na série, todos os personagens apresentam, desde sempre, um lado ambíguo e/ou irritante ao espectador. As próprias crianças, como os gêmeos de Celeste, Josh (Cameron Crovetti) e Max (Nicholas Crovetti), ou a caçula de Madeline, Chloe (Darby Camp), que flertam com uma certa malícia – e ainda que a doses infantis –, revelam que a, aparentemente, paradisíaca Monterey (Califórnia, EUA) é um cenário de desamparo emocional. Isso porque nem o mais bonito e completo ambiente é capaz de deixar uma comunidade problemática como aquela viver em paz – nem mesmo as faixas etárias mais baixas, consequentemente.

No primeiro episódio, podemos perceber que nada mudou quanto à dinâmica que rege as relações e o status social daquelas figuras. Mesmo que – ou, talvez, por isso – todos ali tenham alto poder aquisitivo, as mínimas diferenças materiais ou intelectuais viram motivo de um orgulho desmedido e pedante. Algo nessa linha fica evidente em uma cena, na qual Renata tenta, de forma patética e histérica, impressionar o novo professor de sua filha com o suposto valor do QI da criança. Em outra ocasião, Madeline perde a paciência com a primogênita Abigail (Kathryn Newton), ao compreender que a filha não pretende fazer faculdade e integrar à uma elite acadêmica.

Em meio a isso tudo, o glamour almejado pelas protagonistas, talvez não tanto por somente Jane, dá lugar a uma possível e gradual perda de civilidade generalizada. Então, se já com tão pouco, as mulheres e os homens de Big Little Lies alimentam pequenos surtos, por motivos maiores ou dores reais, a desproporção de suas reações é ainda mais gritante – tal como a assertividade, que passa longe.

Imagem: divulgação

Para tanto, são necessárias atuações extremamente talentosas e uma direção experiente. Nesse quesito, a série cumpre seu papel como poucas produções televisivas da atualidade (e tal como na primeira temporada inteira). Meryl Streep vem para acrescentar ainda mais camadas de suspense à história, com uma personagem tão excêntrica quanto as mulheres ricas mais jovens da comunidade. Na pele de Mary Louise, a sogra de Celeste que compartilha com ela um sentimento de luto, Streep dá seu show usual de interpretação com breves linhas de diálogo.

A acidez do texto, aliás, demonstra-se mais intensa e tragicômica do que nos episódios passados; o que é muito bom, se considerarmos a autoconsciência dos atores e o objetivo dos roteiristas em chocar o público com tamanhas asneiras ditas pelos personagens. Ademais, o clima de mistério recorrente, que é o combustível motor de toda a série, vem com ares de renovação.

O que será do relacionamento entre Jane e Celeste, após a descoberta da paternidade do filho da primeira? E quanto a Mary Louise e Madeline, que parecem nutrir uma desavença homérica? Ou Bonnie, que vem reagindo cada vez pior aos eventos do semestre anterior? Será que as cinco protagonistas manterão seu pacto de silêncio e apoio mútuo?

Para responder a essas perguntas de caráter novelesco, basta acompanharmos a temporada de Big Little Lies até o final. E, quem sabe em breve, ganhemos evidências de um futuro próspero e definitivo no imaginário do público e da crítica televisiva. Por ora, a produção da HBO vem brilhando com impecabilidade, pontualmente às 22h de domingo.

Imagem: divulgação

Ficha técnica

Criação: David E. Kelley

País: EUA

Ano: 2019

Elenco: Reese Whiterspoon, Nicole Kidman, Shailene Woodley, Meryl Streep

Gênero: Drama, Suspense

Distribuição: Warner Bros. Television / HBO Enterprises

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