A cruzada da Record TV pela conquista de mercado e narrativa no cinema brasileiro

Em qualquer lugar do mundo, dominar o mercado cinematográfico e seu discurso é tão importante economicamente quanto ideologicamente. Sem ter cativado o imaginário de gerações de crianças, a Disney não viveria de remakes em live-action de suas antigas animações infantis – dentre elas, filmes de princesas que moldaram comportamentos femininos durante décadas, por exemplo. Estamos em 2019 e a cada novo trailer da empresa uma comoção é gerada, movimentando o mercado.

No Brasil não há o que podemos chamar de indústria, como fazemos com Hollywood, mas a disputa de imaginário também faz parte do jogo do mercado. Durante anos, as maiores bilheterias do cinema nacional pertenciam às comédias repletas de atores de novelas globais que levavam multidões às salas de exibição. Nosso imaginário foi conquistado primeiro pela acessibilidade e popularidade da TV, garantindo assim o sucesso das produções cinematográficas de massa que colonizavam – e ainda colonizam – nosso comportamento com enlatados cheios de fórmulas fáceis e eficientes.

“Nada a Perder” / Divulgação

Falamos o tempo todo sobre a importância de prestigiarmos o cinema brasileiro, mas desde sempre algum tipo de produção domina o mercado e toma para si o título de representante desse cinema nacional, marginalizando tudo que há de diversidade cultural e incentivando ideias como a de que “cinema brasileiro não presta”; como se não produzíssemos uma imensa variedade de narrativas, formas e temas abordados.

Dentre todos os elementos que maltratam nossa diversidade cinematográfica (falta de recursos, dificuldades de distribuição e marketing etc), há o mais grave deles: monopólio de imaginários. Quem tem o dinheiro dita a tendência. A fase das comédias novelescas durou anos e, agora,  tem perdido potência por conta da ascensão dos dramas religiosos; algo que conversa profundamente com o imaginário popular brasileiro atual: um imaginário conservador que reage ao medo dos – mínimos – avanços de minorias sociais, prezando pela família tradicional, os “bons costumes”, estereótipos de gênero (menino veste azul e menina veste rosa), intolerância religiosa… Enfim, um espectro político – e econômico – fundamentalista ronda o cinema nacional.

Se antes o mercado era totalmente dominado por comédias sexistas, melodramáticas e “politicamente incorretas”, agora ele acena para um projeto de retrocesso absoluto. Nesse projeto de evangelização massiva, nem as tais comédias são mais tão bem vistas como antes, já que, hoje, elas exploram temas como emancipação feminina – mesmo que a abordagem nem sempre seja feita da melhor forma possível. .

MINHA MÃE É UMA PEÇA 2 (2017)

Em 2017, Minha Mãe é Uma Peça 2 foi o filme brasileiro de maior bilheteria. Distribuído em 1055 salas pelo Brasil, o longa conseguiu vender 5.213.465 do total de 17.358.513 ingressos vendidos dentre todos filmes nacionais do mesmo período. A produção, que estreou no finalzinho de 2016, teve, no total (somando a semana de estreia em 2016 com os números de 2017) mais de 10 milhões de ingressos vendidos e tornou-se o quinto filme de maior bilheteria da história do cinema nacional.

‘Minha Mãe é Uma Peça 2″/ Divulgação

Na trama, Paulo Gustavo interpreta  uma mãe superprotetora que não consegue lidar bem com a síndrome do ninho vazios e torna a vida dos filhos impossível. Não é um filme de grande maestria técnica ou narrativa, mas o ator protagonista sabe exatamente como usar a comédia de situação para criar conexões afetivas com o público.

A receita tem funcionado. Minha Mãe é Uma Peça é uma franquia que deu certo, tem público garantido e previsão de continuação. Na atual conjuntura, entretanto, ela esbarra na aparente invencibilidade dos filmes religiosos da turma de Edir Macedo – que não só dá seu jeito de bater os números das comédias nacionais no cinema como também ajuda a eleger presidentes da república.

No mesmo ano de estreia do filme de Paulo Gustavo, 463 filmes foram lançados no Brasil. Desses, 160 eram longas nacionais, mas só Minha Mãe é Uma Peça 2 conseguiu representar o Brasil no top 10 filmes mais assistidos no país. Ao final do ano, a participação do público em filmes nacionais no período foi de 9.6%. Ou seja: em 2017, sem nenhuma estreia de longa-metragem religioso, os números foram favoráveis às comédias nacionais.

NADA A PERDER (2018)

Nada a Perder- Contra tudo. Por Todos, cinebiografia de Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da Record TV, estreou no final de março de 2018 e, em termos numéricos, se tornou o maior fenômeno de bilheteria nacional da história – ultrapassando filmes como Tropa de Elite.

Nada a Perder / Divulgação

O filme, dirigido por Alexandre Avancini, passou por 1161 salas de exibição pelo Brasil e fez uma impressionante bilheteria de 12.184. 373. Isso significa que, do total 22.192.953 ingressos vendidos para filmes brasileiros em 2018, mais de 12 milhões foram somente para “Nada a Perder”. Sozinho, o filme sobre o bispo levou mais da metade da bilheteria nacional de 2018.

Já a participação do público em filmes nacionais aumentou de 9.6% para 15.04% em 2018. Mas, se levarmos em conta os importantes números de “Nada a Perder”,  percebemos que esse aumento diz respeito a um filme somente, e que ele não significa muita coisa para o cenário geral das produções brasileiras.

A produção religiosa bateu até o record de seu antecessor Os Dez Mandamentos (2016), adaptação da telenovela da Record que conseguiu uma bilheteria de 11.305.479  ingressos vendidos em seu ano de estreia. A primeira comédia brasileira a aparecer no ranking de filmes mais assistidos no país em 2018 é Os Farofeiros (16ª posição), com apenas 2.604.658 ingressos vendidos, número que nem de longe ameaça a liderança do  longa de Edir Macedo. Em 2018, então, as comédias perderam na disputa de forças.

Tamanha performance numérica levantou polêmicas sobre a trajetória da cinebiografia do bispo: pipocaram nas redes denúncias e mais denúncias sobre ingressos que foram comprados em grandes quantidades para serem distribuídos aleatoriamente por espaços públicos e shoppings. Muitos desses ingressos não foram de fato usados e algumas sessões que constavam como lotadas foram fotografadas vazias.

Aparentemente, nem só de fake news vive o Brasil contemporâneo. A nova moda do cinema, inaugurada graças a cruzada pela conquista de territórios ideológicos e econômicos no espaço cinematográfico, é a das fake bilheterias (bilheterias falsas). São sucessos fabricados para disputar espaço com fenômenos de massa que já aconteciam; implantados para impressionar, gerar marketing e, de um jeito ou de outro, marcar território, estabelecer os campos de batalha e impor novas peças ao jogo.

O problema da dinâmica das fake bilheterias estrondosas é que mesmo sem termos como tomar conhecimento sobre o alcance real desses discursos, fica evidente que, por trás da “maquiagem dos números”, há uma necessidade de dominação de mercado e narrativa que, independente de ser inflada ou não, é funcional e nociva ao significado de “cinema brasileiro”.

‘Os Farofeiros’ / Divulgação

Ao mesmo tempo em o cinema brasileiro contemporâneo vive momentos fabulosos e riquíssimos de criatividade, diversidade de lugares, cores, gêneros, histórias, formas e representações, o que chega de cinema nacional até a maioria das pessoas é a dicotomia “filmes evangelizadores x comédias” .

Depois de analisados os números, a preocupação que fica é: como contornar esse fenômeno de massas que mesmo sendo fabricado, e até frágil em alguns sentidos, ainda é fortíssimo no que diz respeito às correlações de forças sociais do momento presente do país?

Começamos 2019 com a estreia de Eu Sou Mais Eu, comédia adolescente protagonizada por Kéfera, que deve levar milhões de seguidores da youtuber até os cinemas; teremos também as estreias de Sai de Baixo – O Filme, longa de forte apelo televisivo e, ainda no primeiro semestre, a segunda parte de “Nada a Perder”. Nesse tipo de duelo de mercado, vence a celebração do capitalismo midiático e perde a diversidade.

*Dados retirados do Anuário Estatístico do Cinema Brasileiro /Ancine

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