Chicuarotes: a guerra de todos contra todos na periferia do capitalismo

Chicuarotes é como são chamados, de maneira grosseira, os habitantes de “personalidade difícil” de San Gregorio de Atlapulco, periferia do sul da Cidade do México; ademais, agora é também o título do novo filme de Gael García Bernal,  segundo de sua carreira como diretor de cinema.

Com roteiro de Augusto Mendoza, o longa-metragem acompanha Cagalera (Benny Emmanuel) e Moloteco (Gabriel Carbajal), adolescentes que vivem em San Gregorio e tentam ganhar uns trocados fazendo palhaçadas nos ônibus que circulam pela região. 

‘Chicuarotes’ / Divulgação

Sem sucesso com os passageiros, e logo na abertura da trama, os dois deixam de lado as piadas ruins de sua apresentação e anunciam um assalto. Mais tarde, escutam de um amigo que é possível comprar uma vaga de emprego num sindicato. É a partir daí que os jovens decidem fazer o que for preciso para arrumar o dinheiro, ficar com a vaga, conseguir alguma estabilidade e abandonar o povoado onde cresceram.

A LEI DA SOBREVIVÊNCIA

Em Chicuarotes, o humor é corrosivo; provém, acima de tudo, do amadorismo dos delinquentes novatos, e é usado para nos conduzir ao universo do absurdo realista, onde a única lei é sobreviver. Ali, na periferia de uma das regiões metropolitanas mais populosas do mundo, também periferia do capitalismo global, a vida se organiza sob regras particulares. 

A juventude, privada até mesmo do acesso ao consumo, seja por não conseguir comprar chocolates dentro do prazo de validade ou por não poder participar do tecnológico mundo das redes sociais,  não vislumbra perspectiva. Via de regra, romper com diversos ciclos de violência e exclusão impostos ao coletivo nesse cenário soa como um sonho distante.

Imagem: divulgação

Deste modo, Cagalera e Moloteco são mais que protagonistas decadentes,  são produtos do meio. Consequentemente, apresentam ao espectador, a partir de suas ações e interações, as dinâmicas do bairro. Ao seu redor, uma porção de personagens ajudam a compor o tecido social do lugar.

As lentes de García Bernal dão conta, então, de registrar um constante estado de crise, enquanto o roteiro de Mendoza trabalha o medo, o ódio e a indiferença como recursos psíquicos de sobrevivência; de proteção ao sofrimento, principalmente.

Assim, quando Chicuarotes atinge o momento de clímax,  quando todos parecem se dirigir rumo à barbárie, já não nos interessamos apenas pelo destino dos protagonistas: o comportamento de todo aquele conjunto de personagens passa a nos ser caro.

MASCULINIDADE E VIOLÊNCIA

Se o Estado não consegue garantir o mínimo de dignidade ao povo, as pessoas se viram; competem, abrem mão de sensibilidade e reproduzem violências pela amarga ilusão de  que há alguma vantagem em dominar e subjugar o outro.

Na tentativa de pertencer, os vários homens héteros do novo filme de García Bernal manifestam suas masculinidades agonizantes reproduzindo machismos e homofobia. Ser macho é o que lhes resta, afinal.

Imagem: divulgação

Contudo, é no momento em que o filme mais aparenta ser um enorme e incontornável poço de pessimismo que personagens, até então apenas secundários, emergem como sujeitos capazes de, em algum momento, romper com a letargia imposta pelo cotidiano estruturalmente opressor. 

Não por acaso, Chicuarotes se alinha a discussões contemporâneas e sugere o feminino como força combativa. Com os pés muito presos à realidade da conjuntura a que se refere,  a obra planta uma modesta, mas ligeiramente esperançosa, semente de dúvida. Portanto, embora nunca largue de vista Cagalera e Moloteco, o filme amplia o seu olhar para buscar protagonismo onde, inicialmente, menos esperaríamos.

Como resultado, tem-se um filme disposto a vasculhar as entranhas de uma comunidade, como tantas outras ao redor do mundo, onde a guerra de todos contra todos já começou. Onde solidariedade e coletividade parecem não fazer sentido. Mas ainda que essencialmente desolador, Chicuarotes se preocupa em, no final, contrariar o que parecia imutável e deixar em aberto as opções de para onde ir.

Leia também: “Ninguém Nunca Saberá: o machismo no México rural dos anos 70”
Trailer:
(Fonte: Supo Mungam Films/ YouTube)

Ficha Técnica: 

Direção: Gael García Bernal

Duração: 1h35

País: México

Ano: 2019

Elenco: Benny Emmanuel, Gabriel Carbajal,Dolores Heredia, Leidi Gutiérrez, Pedro Joaquín

Gênero: Drama 

Distribuição: Supo Mungam Films

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