Ninguém Nunca Saberá: o machismo no México rural dos anos 70

México, década de 1970. Lucía (Adriana Paz) e o pequeno Bráulio (Luciano Martínez), mãe e filho, levam uma vida bucólica numa província do país. Ela é dona de casa e realiza as tarefas domésticas ouvindo radionovelas. Ele, por sua vez, vive encantado com os filmes de vaqueiro que assiste na televisão do mercadinho da vila. Os dois alimentam a imaginação com melodrama para escapar de um cotidiano monótono e alcançar realidades paralelas, nas quais a rigidez do pai Rigoberto (Jorge A. Jimenez ), um típico machista bronco, não se faz presente.

É assim, a partir da dinâmica de uma tradicional e conservadora família do interior do México, que em Ninguém Nunca Saberá o diretor Jesús Torres Torres aponta para diversas manifestações do machismo no país e demonstra como o contexto político e econômico do período afetou a vida das pessoas de classe baixa no campo.

O filme não passou pelos cinemas brasileiros, mas pode ser encontrado na Netflix.

O MÉXICO DOS ANOS 70

Sempre ao sair e voltar para casa, Lucía passa por um muro pichado com o logo do PRI. O partido governou o México por tantos anos que seus vários mandatos foram apelidados pelo escritor conservador Vargas Llosa de “ditadura perfeita”; um regime que não se instaurou por golpe, mas que sempre agiu e permaneceu como algo do tipo.

‘Ninguém nunca saberá’ / Divulgação

No vai e vem dos dias, a presença simbólica do partido no muro muda de significado. Ao final, o logo acaba apagado pelos moradores. Tal trajetória imagética dialoga com os níveis de satisfação daquela comunidade sob a gestão PRI e acompanha, consequentemente, a jornada de expectativas e frustrações da protagonista. 

Descontente com a própria vida, Lucía deseja fazer como sua irmã e mudar-se para a capital. Uma vez lá, ela poderia finalmente estar perto de onde as coisas acontecem e dar uma educação melhor aos filhos – mesmo que isso signifique precisar abandonar a vida de dona de casa e começar a trabalhar como empregada doméstica.  

O México vive uma fase de otimismo econômico. A personagem escuta as promessas de progresso do governo em seu rádio de pilha e, então, imagina que é chegada a hora de abandonar a falta de perspectiva. O problema é que o marido não concorda com ela. Para ele, partir para a capital significaria “modernidade”, liberdades demais para a esposa e as crianças; perda de controle.

O MACHISMO PERCORRE GERAÇÕES

Em Ninguém Nunca Saberá, a protagonista interage frequentemente com outras mulheres: uma amiga antiga que volta da cidade; a mãe, que se casou por ordem dos pais e nunca amou o marido; a filha, irmã mais nova de Bráulio; a cunhada, uma mulher frustrada e inconveniente; e sua irmã, vista por ela como alguém que conseguiu escapar das limitações da vida na província.

Imagem: divulgação

Durante esses encontros notamos o que as difere e o que as une. Todas possuem características muito próprias, mas algo lhes é comum: o entender de que ser mulher é estar sempre vulnerável a condições e poderes patriarcais. Há, inclusive, momentos nos quais uma personagem questiona outra sobre a inércia de “se acostumar às opressões cotidianas”; sobre as dificuldades de se estabelecer como sujeito diante do Outro homem.

Ao longo do filme, Torres recorre a duas frentes para tratar da perpetuação do machismo. Na primeira, mais óbvia, temos um pai que negligencia a educação dos filhos por acreditar que o menino deve tornar-se um peão, como ele, e a menina uma dona de casa e esposa, como a mãe.

Por outro lado, Lucía é filha de uma mãe que reproduziu machismos, cunhada de uma mulher que reproduz machismos e ela própria também os reproduz ao, inconscientemente, ensinar a filha a ser subserviente – como quando manda a pequena recolher os pratos da mesa e deixa Braulio livre para estudar ou brincar. É precisamente com esse tipo de detalhe que a produção ganha pontos. 

ALIENAÇÃO

Bráulio e Lucía não são tão apegados às radionovelas e aos telefilmes por acaso. O que ouvem e assistem, além de funcionar como alienação da realidade, serve também como projeção de esperança. Bráulio não quer ser como o pai;  ele sonha em ver a mãe feliz e viver aventuras como as dos heróis dos filmes. Já Lucía almeja ter liberdade para ela e os filhos, além de viver um amor romântico como as mocinhas dos melodramas. 

Imagem: divulgação

Visando contrapor o que os personagens desejam com o que de fato lhes acontece, o diretor alterna o uso de fotografia colorida, para retratar a realidade do cotidiano daquela família, com o da preta e branca, quando representa as idealizações de mãe e filho. 

O otimismo econômico não dura muito. A esperança de viver melhor parece não ter passado de ilusão propagada por um partido que precisava conter a insatisfação popular por um tempo para se manter no poder. Logo outra fase de frustrações começa e o único alento do povo das províncias segue sendo o pouco de estabilidade dos trabalhos locais e o entretenimento do rádio e da televisão. 

No fim das contas, Ninguém Nunca Saberá é um filme que se localiza no tempo e no espaço sem deixar de tecer importantes comentários político-sociais relacionados ao presente.

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Ficha Técnica: 

Direção: Jesús Torres Torres

Duração: 1h42

País: México

Ano: 2018

Elenco: Adriana Paz, Jorge A. Jimenez, David Medel, Luciano Martínez, Arcelia Ramírez

Gênero: Drama

Distribuição: Netflix

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