Coluna: Relato de uma fã tardia de Arquivo X

Quando Arquivo X estreou em setembro de 1993, eu ainda nem existia. Nasci em 1994 e perdi o hype dessa série badaladíssima da década de 90. Imagino que, como a maioria das crianças da época, o que via de séries na TV era Um Maluco no Pedaço, As Visões da Raven e Eu, a Patroa e as Crianças. Convenhamos que não devia ser muito atrativo para uma criança ouvir a abertura de Arquivo X na Record. Além do mais, ainda não existia esse hábito de hoje em dia de assistirmos a tantas séries, de passarmos algum tempo as procurando com afinco nos catálogos e de nos dedicarmos a fazer mais e mais maratonas.

Creio que faço parte da geração que hoje vive a “era de ouro das séries”, como algumas pessoas na internet costumam chamar por aí. Nossa geração cresceu e se acostumou a consumir filmes e séries online. A chegada das plataformas de streaming foi mais uma das tantas facilidades tecnológicas que nos foram presenteadas nos últimos anos.

Apesar do enorme e frequente fluxo de conteúdo, estabeleci uma meta pessoal: assistir à pelo menos uma série antiga por ano. Algumas que, com certeza, perdi por ser ainda muito jovem e acabei não dando muita bola na época. Já mais velha, finalmente me interessei por títulos antigos e decidi assistir a Dexter, Lost e Gilmore Girls. Então, finalmente cheguei a Arquivo X. A verdade é que me apaixonei por cada uma dessas séries. Apeguei-me muito mesmo. Mas Arquivo X me “pegou de jeito” e, depois de muito pensar a respeito, acho que entendi por quais motivos me afeiçoei tanto.

Eu, que sempre fui uma grande fã de Sherlock Holmes, que via CSI sempre que possível e que já gastei muitas horas com Criminal Minds, tive a oportunidade de ver a série que serviu de inspiração a tantas outras do gênero. Apesar de hoje existirem uma porção de séries criminais de investigação, Arquivo X tem aquele “jeitinho todo seu de ser”. Existem as conspirações, os monstros da semana, aqueles vilões peculiares, os episódios mais engraçados que são os melhores episódios, e Dana Scully (Gillian Anderson) e Fox Mulder (David Duchovny) no elenco – possivelmente, a melhor dupla da história das séries.

Mas, apesar de minha paixão em ver a dupla trabalhando junta, decidi focar este texto na Scully. Em determinado momento, me dei conta de que meu amor por Arquivo X é diretamente relacionado ao meu amor por Scully. Toda vez em que ela se destacava em determinado episódio, eu tinha uma nova alegria na vida. Agora, com 23 anos, e sendo uma jornalista formada, me dei conta do quanto essa personagem é significativa para a história da TV. Claro que, hoje, tendo mais contato com o feminismo e sabendo de sua importância, a relevância de Scully é muito mais evidente. A personagem destaca-se por ser uma mulher muito forte, que está numa profissão majoritariamente masculina, trabalhando ao lado de um cara cheio de manias, e que, de quando em quando, impõe sua coragem necessária para desafiá-lo.

Dana Scully (Gillian Anderson) / Divulgação

Com o recente retorno da série para a décima temporada, muito se tem falado sobre a personagem. Digamos que, a própria Gillian Anderson é um ícone: segundo a atriz, em uma entrevista de 2014 para a Red Magazine, ela demorou três temporadas para começar a receber o mesmo salário de seu parceiro de cena nos anos 1990. Em julho do ano passado, Gillian também criticou o fato de que, na 11ª temporada, nenhuma mulher ficou responsável pelo roteiro da série.

A série voltou a ser gravada recentemente e as mesmas atriz e personagem ainda são símbolos de uma luta – pessoal e coletiva – de mais de vinte anos. Imagine se falarmos da história do cinema, então! Talvez por isso eu vibre tanto com os feitos de Scully. Mesmo que tenhamos muitas séries da atualidade retratando o empoderamento feminino, Arquivo X é especial pra mim. Antes, não crescíamos ouvindo sobre feminismo e muito menos tínhamos a internet como ferramenta básica, mas, ainda assim, tínhamos personagens como Scully e mulheres como Anderson nos mostrando como lutar como uma garota. Imagino o quanto isso significou para as jovens da época.

Não foram raras as vezes em que Scully se destacou muito positivamente, dentro do “atual” conceito de empoderamento, e em um tempo em que ele não era escancarado como jogada de marketing. Os pequenos detalhes ou os rápidos diálogos com Mulder serão sempre muito gratificantes de se assistir. Em um momento da série, por exemplo, os agentes alugam uma casa para investigar os moradores dum condomínio. Logo que chegam, Mulder brinca que Scully deveria ser uma “boa mulher” e o preparar um sanduíche. A investigadora logo trata de olhá-lo com tom debochado e joga um par de luvas em sua cara. No episódio três da sexta temporada, divertidíssimo por sinal, Mulder fica preso em uma espécie de navio fantasma e Scully não perde tempo para salvar o parceiro. 

Já no episódio 13 da sétima temporada, Mulder e Scully vão investigar uma personagem de videogame que matava os jogadores na vida real. Criada por uma jovem desenvolvedora de games que se sentia inferiorizada diante dos colegas homens, a assassina virtual só pôde ser derrotada por Scully. E, infelizmente seguindo uma linha realista, como já é de conhecimento geral, o mundo dos games continua um ambiente hostil para mulheres.

Isso tudo sem contar o fato de que, quando David Duchovny decidiu abandonar a produção e investir em sua carreira no cinema, Anderson e sua Scully carregaram nas costas a responsabilidade de manter a essência da série por duas temporadas inteiras, entre roteiros ruins, arcos forçados, falhas na mitologia e perda de ritmo.  

Arquivo X tem praticamente a minha idade. Dana Scully e Gillian Anderson passaram a minha vida inteira sendo ótimas representações femininas, mesmo que eu sequer soubesse de suas existências na época de exibição original. Hoje, posso dizer que não tenho como não sentir uma enorme gratidão por elas terem sido precursoras de um posterior boom de ótimas personagens mulheres. Lembrando que: a luta que vivemos não é ganha, mas tem, sim, belas batalhas.

 

COMENTÁRIOS

1 comentário sobre “Coluna: Relato de uma fã tardia de Arquivo X”

  1. Ótimo texto. Scully e Gillian representam isso mesmo. É maravilhoso constatar que ainda hoje a personagem influencia mulheres pelo mundo.

    Uma observação: Gillian conseguiu igualdade salarial com Duchovny apenas na negociação de contrato para a nona temporada. Até aquele momento, ele ainda ganhava mais que ela, apesar da enorme importância de sua personagem.

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