Análise: Alias Grace

ATENÇÃO: Este texto contém spoilers

Alias Grace (“Vulgo Grace”, em português) entrou para o catálogo da Netflix no último dia 3. A minissérie canadense da rede CBC é composta por seis episódios de aproximadamente 45 minutos cada, e foi baseada no livro homônimo de Margaret Atwood (que, por sua vez, é baseado em fatos reais). A série chega à plataforma de streaming logo depois do sucesso de The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia), disponível na plataforma Hulu, e adaptação de outro livro da autora que foi aclamada pelo público, pela crítica e levou muitos dos prêmios do Emmy 2017.

A trama se passa na Toronto do século 19 e acompanha a trajetória de vida de Grace Marks (Sarah Gadon), uma imigrante irlandesa que abandonou seu país com a família por perseguição religiosa e, aos 16 anos, foi condenada à prisão perpétua pelo assassinato do patrão, Thomas Kinnear (Paul Gross) e da governanta, Nancy Montgomery (Anna Paquin), com quem o homem mantinha um relacionamento. Na época, Grace era vista como uma moça muito trabalhadora e bonita, incapaz de cometer um crime hediondo. Por isso, ao contrário da figura que fora considerada sua cúmplice, James McDermott (Kerr Logan), ela escapa da forca e recebe apoio de algumas pessoas que contratam um médico, Dr. Simon Jordan (Edward Holcroft), a fim de que ele possa afirmar que a jovem é inocente.

Os episódios mesclam os relatos de Grace ao médico – nos quais ela diz não se lembrar se é responsável pelos crimes dos quais é acusada –, flashbacks e os pensamentos da protagonista, que, devido a episódios de amnésia e surtos, também já havia passado algum tempo internada em um manicômio. Lá, Grace sofreu mais abusos e claramente não encontrou ninguém realmente preocupado com sua saúde mental. O objetivo de Dr. Jordan, então, seria estabelecer se a jovem sofre mesmo de falta de memória e se ela seria capaz de matar alguém.

Se você maratonou os seis episódios, deve ter percebido que não é uma tarefa difícil. Assim como The Handmaid’s, Alias Grace possui um enredo completamente envolvente e complexo – mesmo sendo uma série limitada e com ritmo um pouco mais acelerado, ao contrário da primeira que já tem próxima temporada confirmada.

Comandada por mulheres, com roteiro de Sarah Polley e direção de Mary Harron, a série também apresenta um viés feminista. Mas, aqui, não se trata de um sistema distópico que oprime e humilha mulheres, de um governo religioso e misógino ou de um universo macro. Nesta obra, o olhar feminista é lançado sobre o micro, o cotidiano das mulheres, em uma época onde ser mulher, pobre e estrangeira era sinônimo de uma vida miserável. Duro é perceber que, ainda hoje, mulheres nessas condições sofrem das mesmas situações de abandono e abuso, principalmente levando em conta as recentes crises migratórias que obrigaram muita gente a abandonar seus países.

É no dia a dia de Grace, e ao longo de seus anos, que o machismo é retratado; em cada homem que passa por sua vida, deixando uma ferida. Sendo esses homens seu pai alcoólatra, violento e abusivo, o patrão rico que se sente dono da empregada, o “colega de trabalho” que desenvolve uma obsessão doentia por ela ou o médico que deveria ajudá-la, mas também se torna obsessivo. Cada uma das ações desses homens acarreta em algum tipo de consequência na vida da protagonista, como ser julgada por homicídios que não sabemos se ela cometeu, até a importância que outras mulheres tiveram em seu caminho.

Imagem: divulgação

Grace Marks desenvolve relações diferentes com algumas mulheres que passam por sua vida, e cada uma delas é de fundamental importância nos rumos de seu destino. Durante a viagem de navio da Irlanda ao Canadá, a moça perde sua mãe, que era seu porto seguro frente ao desamparo do pai. A partir daí, Grace precisa tomar conta da família e cuidar de seus quatro irmãos menores, até o dia em que seu pai decide que ela deve procurar um emprego para sustentá-lo.

Ao arrumar um trabalho de empregada, Grace é surpreendentemente bem recebida por sua colega Mary Whitney (Rebecca Liddiard). Como ela mesma conta ao Dr. Jordan, a passagem de Mary por sua vida foi um dos momentos mais doces de sua existência. Mary foi uma amiga generosa, que lhe incentivou a ser corajosa, altiva e a sobreviver em um mundo injusto, cruel e cheio de homens violentos. Mas, a alegria dessa amizade não durou muito. A garota se envolveu com o filho da patroa, engravidou, foi desprezada por ele e preferiu correr o risco de abortar em uma clínica clandestina. Grace usa todas as economias para tentar ajudar a amiga, mas em seguida a perde devido a complicações do procedimento.

Esse momento é crucial para a protagonista. Ela entra em choque por perder a amiga, por perder outra vez um porto seguro e por presenciar tão de perto as consequências das violências sofridas pelas mulheres. Desde a física à emocional. Além disso, pela primeira vez acontece um de seus episódios de amnésia. E, não bastando tudo isso, o mesmo homem que abandonou Mary, e colaborou para sua morte, começa a assediar Grace.

Buscando fugir desses acontecimentos, Grace aceita trabalhar com Nancy, a governanta que mais tarde seria assassinada. A princípio muito doce e empolgada, Nancy logo demonstra ver em Grace uma rival e entrega que não pretende ser sua amiga. Mesmo não gostando dela, Grace aparenta entender que Nancy é vítima do mesmo machismo que ela sofre, e que a rivalidade é fruto de uma sociedade que faz mulheres competirem por um homem para terem algum lugar de destaque. E, esse homem que Nancy tanto quer, é o mesmo de quem ela esconde que está grávida para não perdê-lo, sabendo que, dela, ele só quer “diversão”.

Não sabemos se Grace é corresponsável ou não pelos assassinatos. Afinal, essa história realmente aconteceu e nunca surgiram evidências conclusivas. O que a série – assim como o livro de Margaret Atwood – permite, é que Grace possa conduzir sua própria narrativa. E por isso ela é uma personagem tão complexa. No período dos assassinatos Grace ficou muito famosa, muita gente falou sobre o caso, enquanto ela própria não teve a chance de ser dona de sua história.

No final, o que precisamos saber é que essa personagem passou por inúmeras violências, pela prisão, pelo manicômio e teve sua vida espetacularizada. Mas, no fundo, ela sempre carregou consigo todas as mulheres e experiências que atravessaram seu caminho. No último episódio, nos deparamos com uma cena muito significativa: Grace, que antes costurava para outras mulheres, agora costura sua própria colcha, em sua casa, com tranquilidade e após ter sido perdoada pelo governo. Isso simboliza, de forma muito tocante, que ela está livre, mas que nunca será livre de fato porque é uma mulher; porque outras mulheres não estão livres e porque perdemos muitas delas para o machismo no meio do percurso.

*Texto originalmente publicado em 09/11/17

 

Ficha técnica

Criação: Sarah Polley, Noreen Halpern

País: Canadá

Ano: 2017

Elenco: Sarah Gadon, Edward Holcroft, Anna Paquin, Rebecca Liddiard

Gênero: Suspense, Histórico

Distribuição: Netflix

 

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