O Cristal Encantado: A Era da Resistência (Netflix)

Este texto NÃO contém spoilers.

No fantástico planeta de Thra, iluminado por três sóis e conectado à força vital do Cristal da Vida, há uma sociedade aparentemente pacífica. Assim, as criaturas naturais daquele mundo sequer imaginam que os Skeksis, raça de alienígenas dominadores – e atuais guardiães do Cristal –, usam-no exclusivamente em benefício próprio. Em O Cristal Encantado: A Era da Resistência, prequela do longa-metragem de 1982, de Jim Henson e Frank Oz, o início de uma história épica é explorado em dez episódios.

A superprodução original da Netflix, cuja primeira temporada estreou no streaming no dia 30 de agosto (deste ano), aborda a relação entre os Skeksis e os sete clãs de Gelflings, seres similares a elfos; de modo que o espectador familiarizado ao filme original depara-se com o aprofundamento maciço daquele universo.

Brea (centro; Anya Taylor-Joy) e suas irmãs Seladon (esq.; Gugu Mbatha-Raw) e Tavra (Caitriona Balfe) / Divulgação

Na série, os habitantes com a maior conexão ao Cristal (Gelflings) tornam-se subalternos dos Skeksis em uma civilização reorganizada há dois mil trine (contagem de anos em Thra) pelos mesmos. Tão logo as coisas saem do controle dos possuidores do Cristal, três Gelflings, de três clãs distintos, detêm em suas mãos o futuro do planeta.

Rian (voz de Taron Egerton), Brea (Anya Taylor-Joy) e Deet (Nathalie Emmanuel) – respectivamente dos clãs Stonewood, Vapra e Grotten – são designados a desvendar as reais intenções dos Skeksis e a, finalmente, rebelarem-se contra o sistema opressor em que vivem. A partir daí, várias aventuras mágicas e, de fato, emocionantes aproximam os protagonistas uns dos outros; para que, então, suas jornadas particulares revelem-se essenciais a um processo de mudança definitiva.

Bonecos e CGI

Tanto uma obra de fantasia medieval quanto uma produção com vestígios cyberpunk, A Era da Resistência é uma preciosidade do audiovisual televisivo recente. Por conseguinte, a hibridez dos gêneros e a classificação infantojuvenil (para 12 anos, no Brasil) permite uma carga de dramaticidade impactante e violenta.

Através da mistura de fantoches, bonecos animatrônicos e ricos figurinos, a obra em live-action consegue ser detalhista e extremamente nostálgica. Isso porque a organização de entretenimento responsável pela série (The Jim Henson Company) também está por trás dos programas de televisão Vila Sésamo (desde 1969), Muppet Show (1976 – 1981) e A Família Dinossauros (1991 – 1994); além de todos os longas-metragens dos Muppets (tal como o filme homônimo de 1979) e o sombrio Labirinto – A Magia do Tempo (1986), que conta com o célebre Jim Henson na direção.

Imagem de divulgação / Netflix

Ademais, os efeitos especiais em CGI (Computer Graphic Imagery, ou “imagens de computação gráfica”, em tradução para o português) trazem um ar de renovação e modernismo ao universo fantasioso de Thra. Há tantas paisagens e detalhes únicos – afinal, trata-se da ambientação de um planeta inteiro – que a contextualização grandiosa da série faz toda a diferença na construção do imaginário do espectador.

De volta a O Cristal Encantado, de 1982, seu enredo muito mais simples acompanha a produção de tecnologia logicamente menos avançada – ainda que inovadora para a época. Portanto, em A Era da Resistência, suas dez horas de série, um público mais exigente e a alta tecnologia de 2019 demandam um roteiro minimamente complexo. E, mesmo com tamanha abundância de todas as etapas de produção, a narrativa sustenta-se de forma criativa e empolgante.

Encantadores

As batalhas bem coreografadas, a partir do manuseio de bonecos, e o elenco estelar (com Mark Hamill, Helena Bonham Carter e Andy Samberg, por exemplo) também são pontos altos da série. Até a falta de sincronia entre a fala e o movimento da boca dos fantoches-personagens é algo positivo na original Netflix; uma vez que isso remete aos clássicos trabalhos anteriores da companhia de Henson.

A carisma dos Gelflings e a monstruosidade gore dos Skeksis é mérito certeiro da obra. Há, realmente, muitos núcleos na prequela de O Cristal Encantado, mas nada que atrapalhe o desenvolvimento de sua história. Pelo contrário, a diversidade de clãs abre espaço para uma abordagem expansiva da série. E, simultaneamente, a produção é capaz de abarcar todos os artifícios de roteiro do filme de 1982, com várias referências a ele.

Dessa forma, A Era da Resistência cumpre com a expectativa dos fãs de live-actions com fantoches; tal como é cativante o suficiente para conquistar novos públicos. No fim da bela primeira temporada, as possibilidades de enredo são tantas que é difícil não assumir – antecipadamente – uma segunda temporada garantida pela Netflix. De qualquer maneira, os dez episódios já disponíveis de O Cristal Encantado são encantadores por si sós.

Imagem de divulgação / Netflix

Ficha técnica

Direção: Jeffrey Addiss, Javier Grillo-Marxuach, Will Matthews

País: EUA

Ano: 2019

Elenco: Taron Egerton, Anya Taylor-Joy, Nathalie Emmanuel, Mark Hamill

Gênero: Aventura, Fantasia

Distribuição: Netflix

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