Crítica: Dirk Gently’s Holistic Detective Agency

O canal BBC América anunciou, no dia 18 de dezembro do ano passado, que Dirk Gently’s Holistic Detective Agency está cancelada. Apesar de essa ser uma péssima notícia para os fãs, isso pode servir como um incentivo para que você não deixe de passar por essa série “diferentona”. Distribuída no Brasil pela Netflix, a produção possui duas temporadas, a primeira com oito episódios e a segunda com dez – esta última tendo estreado no catálogo no último dia 5. Curta e divertida, ela pode ser uma boa escolha de série para maratonar.

Baseada nos romances de Douglas Adams (O Guia do Mochileiro das Galáxias), a série acompanha as bizarras e improváveis aventuras do detetive mais sem método de que se tem notícia, Dirk Gently (Samuel Barnett), e seu fiel, porém relutante, parceiro e assistente, Todd Brotzman (Elijah Wood).

A primeira temporada de Dirk Gently explora o início da amizade entre Dirk, Todd e, mais tarde, Farah Black (Jade Eshete). Dirk é um detetive holístico e sem amigos, que insiste em dizer, sempre com algum otimismo, que tudo está conectado e que não procura por casos para resolver, já que, segundo ele, são os casos que o encontram. Em contraponto, Todd é um verdadeiro pessimista. É um sujeito que já está na faixa dos 30 anos e se sente fracassado, sem perspectivas de vida e desorientado sobre como restabelecer uma boa relação com a irmã, Amanda (Hannah Marks), depois de tê-la decepcionado. Já, Farah é uma mulher extremamente corajosa, que luta para ser justa, para desempenhar bem o seu trabalho e para realizar o sonho de ser uma policial – assim como todos os homens de sua família. Indo contra qualquer estereótipo, Farah é a racional do grupo, enquanto que Dirk é “pura emoção”.

Dirk, Farah e Todd / Divulgação

A amizade entre os três personagens se desenvolve a partir de uma investigação um tanto quanto peculiar, como pano de fundo. Somam-se à aventura os mocinhos e os vilões, que subvertem o conceito de caricatural (e ainda assim seguem brilhantemente caricaturais). Mostrando-se divertidíssimos e cativantes, além de pecar pela ingenuidade e pelo excesso de bobeira, essas figuras se veem envolvidas numa trama sobre viagens no tempo, trocas de corpos e ironias do destino.

Aliás, cativante é um ótimo adjetivo para descrever Dirk Gently’s Holistic Detective Agency. Além dos personagens, que funcionam muito bem, e das atuações impecáveis, todo o resto opera em sincronia para compor a atmosfera tão singular da série. Do roteiro à direção de arte, cada detalhe faz a diferença e é notadamente bem executado.

Depois de sermos apresentados às premissas da obra nos primeiros oito episódios, nos deparamos com uma segunda temporada também de qualidade, mas ainda mais ambiciosa. Novos (e ótimos) personagens são introduzidos, e a relação entre os antigos é aprofundada. Farah, Todd, Dirk e Amanda precisam enfrentar seus medos e confiar em seus instintos para chegar a algum lugar. Mas, claro, os dilemas existenciais sempre surgem junto de uma boa dose de humor e de situações absurdas. Além disso, há uma expansão de universo com as novas aventuras em Wendimoor, uma espécie de dimensão alternativa que remete a um conto de fadas caótico, e que precisa da ajuda de Dirk.

Amanda e o vampiro Martin em Wendimoor / Divulgação

A proposta da série e a insistência em dizer que “tudo está conectado” nos leva a acreditar que todas as peças – aparentemente aleatórias – desse “quebra-cabeça” finalmente se juntarão em um enredo coerente. Se não comprarmos tal ideia, podemos atingir o mesmo desespero destrambelhado que acomete os personagens de quando em quando, e que os faz pensar que nada faz sentido ou vale a pena. Mas, Dirk Gently definitivamente vale a pena.

O ponto alto da nova e última temporada é a subversão de muitas expectativas. Desde vampiros de energia durões, que seguem fielmente uma garota como líder e usam florzinhas no cabelo, até o romance shakespeariano entre dois homens de famílias inimigas de Wendimoorm – que lutam com tesouras no lugar de espadas, buscando por paz em seu mundo.

Toda essa construção original serve para não nos deixar esquecer que a aparente “bobeira” é responsável pelo tom único e insubstituível da produção. Trata-se de uma série leve e divertida, sim, mas também repleta de críticas sociais e de representatividade – o que comprova que, repensar questões como cor, gênero, ou bem e mal, não precisa ser chato, só precisa ser; precisa estar lá. Com criatividade isso é possível.

Apesar do pequeno cliffhanger (exposição de um personagem a uma situação limite) no final do último episódio, “Dirk” encerra bem, através de um desfecho digno de conto de fadas repaginado. Se, por maquinações mirabolantes do destino ou combinações exatas e inacreditáveis da vida, você se deparar com a série no catálogo da Netflix, não deixe de dar o play. Afinal, tudo está conectado.

 

Ficha técnica


Criação: Max Landis

País: EUA

Ano: 2016

Elenco: Samuel Barnett, Elijah Wood, Jade Eshete, Hannah Marks

Gênero: Comédia, Policial

Distribuição: Netflix

 

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