Crítica: Invisível

No dia 8 de novembro, a PEC 181, conhecida como Cavalo de Tróia, passou pela Comissão Especial da Câmara dos Deputados e agora segue para o plenário. A princípio, a proposta de Emenda à Constituição prevê uma ampliação do tempo de licença maternidade em casos de bebês prematuros. Porém, na prática não é bem assim.

A mudança que a PEC propõe tem sido chamada de Cavalo de Tróia por abrir brechas para estabelecer que a vida começa desde a concepção, o que faria com que casos de aborto que hoje são considerados legais no Brasil – como derivado de estupro, em risco de vida da mãe ou em gestação de fetos anencéfalos – fossem criminalizados, o que reduziria ainda mais a autonomia das brasileiras sobre seus próprios corpos.

Um dia depois da votação da Câmara, estreou nos cinemas brasileiros o longa argentino Invisível, do diretor Pablo Giorgelli (Las Acacias). O momento não poderia ser mais oportuno, já que o filme trata de questões como gravidez na adolescência e aborto. Na Argentina, assim como no Brasil, abortar só não é crime em casos de estupro ou de gravidez que represente risco à gestante.

Na trama argentina, Ely (Mora Arenillas) é uma garota de 17 anos que engravida do filho do dono do Pet Shop onde trabalha. Logo de cara, a jovem define que irá abortar não importa como. A partir daí, acompanhamos seu cotidiano repleto de silêncios, dúvidas e pesares.

Mesmo com a pouca idade, a adolescente já tem de lidar com muitas cargas em sua vida. Ela vive apenas com a mãe, que, depressiva, não sai mais de casa e nem trabalha. A função de manter o lar acaba caindo sobre os ombros de Ely. Além disso, o homem com quem ela mantém relações é mais velho, casado e pai, o que evidencia uma relação abusiva, por mais que ele seja o típico cara que “se faz de legal”.

Imagem: divulgação

Tudo isso colabora para que a protagonista sinta-se sozinha com seus problemas. A única pessoa com quem Ely pode contar é uma amiga, Lorena (Agustina Fernandez), tão jovem e inexperiente quanto ela. As duas fazem pesquisas na internet e buscam por saídas que, bem ou mal, são o que está ao alcance de duas jovens mulheres.

O grande destaque do longa é, sem dúvidas, a atriz Mora Arenillas. Sua atuação faz o filme. Cada gesto cotidiano e banal, impregnado por um interior que pondera e reflete exaustivamente, transborda na tela e dá o tom da obra. Diante de um mundo que nunca para e sempre acusa, Ely é invisível. Mas, diante de seu universo particular, ela é tudo o que há para si mesma.

Talvez o filme não seja completamente eficiente em “enfiar o dedo na ferida”, já que algumas escolhas de roteiro podem soar clichês, mas é, sim, eficaz em demonstrar que o tipo de escolha que a protagonista deve fazer diz respeito somente à mulher, seu corpo e sua vida.

Observar Ely durante seus vários momentos de olhares silenciosos é um imenso exercício de empatia. Ali, na sala de cinema, a jovem não passa por invisível. Somos obrigados a enxergá-la como ser um humano completo, a pensar sobre seus sentimentos, medos e angústias. Esse é um exercício que vale a pena ser transportado para o dia a dia. Invisível é um filme político, que, apesar de fazer um recorte individual, funciona como material para um debate que está em pauta.

O longa já foi exibido na mostra competitiva Orizzonti, da 74ª edição do Festival de Veneza, e na Première Latina do Festival do Rio 2017. Agora ele está em cartaz na Sessão Vitrine Petrobras, o que significa que você pode assisti-lo por 12,00 (inteira).

*Texto originalmente publicado em 16/11/17

 

Ficha técnica

Ano: 2017

Duração: 1h30

Direção: Pablo Giorgelli

Elenco: Mora Arenillas, Agustina Fernandez, Mara Bestelli

Distribuidora: Vitrine Filmes

País: Argentina, Brasil

 

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