Em suas últimas semanas, Malhação – Viva a Diferença é a melhor novela atual

Quando a 25ª temporada da novela teen estreou na Rede Globo, em maio de 2017, as expectativas eram bastante altas. Malhação, com o subtítulo de Viva a Diferença, é escrita por Cao Hamburguer (um dos criadores do amado programa infantil Castelo Rá-Tim-Bum) e, já durante as primeiras chamadas, obteve a atenção do telespectador e da internet por conter cinco protagonistas mulheres – ao invés do tradicional casal heterossexual.

Com a premissa de abordar o machismo e as diferenças de classe, etnia e orientação sexual, de uma forma mais compatível com a realidade, o público entusiasta se dividiu entre comemorar as temáticas escolhidas e ficar com um pé atrás diante de tanta propaganda sobre as “diferenças”. Seria mesmo a novela capaz de falar sobre temas adolescentes de maneira – finalmente – verossímil?

Keyla (Gabriela Medvedovski) à esq., Ellen (Heslaine Vieira), Tina (Ana Hiraki), Lica (Manoela Aliperti) e Benê (Daphne Bozaski) / Divulgação

Ambientada em São Paulo, pela primeira vez em 22 anos, Viva a Diferença é dirigida por Paulo Silvestrini e, logo no primeiro capítulo, mostrou-se fiel ao que vinha prometendo: o clima diferente da vida urbana paulistana trouxe frescor à faixa mais defasada da programação da Globo. Depois que Keyla (Gabriela Medvedovski) conheceu Lica (Manoela Aliperti), Benê (Daphne Bozaski), Ellen (Heslaine Vieira) e Tina (Ana Hiraki), a vida das cinco meninas mudou significativamente. Um episódio muito marcante – o parto de Keyla, dentro de um vagão de metrô e feito pelas outras quatro personagens – acabou por unir as “Five” (como são chamadas dentro e fora da telinha) em uma grande amizade.

Inicialmente, e pelo fato de cada uma das protagonistas aparentarem características superficiais das novelas e séries adolescentes – Lica é uma jovem rica e rebelde, Tina é moderna e cheia de conflitos com sua família tradicional japonesa, Ellen é inteligentíssima e moradora da Brasilândia, Benê é uma garota solitária e com dificuldade para relacionamentos, e, por fim, Keyla é uma menina romântica que ficou grávida aos 16 anos de idade –, seria bem possível que a trama decaísse por supostas fraqueza narrativa ou desconexão com o público conservador brasileiro. Afinal, quem se lembra de quando as veteranas Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, que interpretavam um casal de lésbicas da terceira idade, foram rejeitadas pela audiência da faixa das nove?

Keyla (Gabriela Medvedovski) e seu filho, o bebê Tonico / Divulgação

Como Viva a Diferença é exibida de segunda à sexta, às cinco e meia da tarde, seria pouco surpreendente se a emissora optasse por cortar cenas de jovens se drogando, de beijos homossexuais, sexo casual na adolescência, ataques de homofobia e racismo explícitos, além das que conteriam diálogos didáticos, como “não existe opção sexual, o que existe é orientação sexual” (clique aqui para ver a cena, no minuto 01:51). Felizmente e, para a nossa surpresa, nada disso foi excluído das subtramas do programa. Muito pelo contrário, esta Malhação será lembrada pela reinvenção da novela, muito por causa de seu texto.

O autor, Cao Hamburguer, tem demonstrado uma incrível habilidade na evolução das histórias e desenvolvimento dos personagens, apresentando-nos tudo de maneira aprofundada e responsável. Além de Castelo Rá-Tim-Bum (1994-97), e de sua ótima adaptação para o cinema (Castelo Rá-Tim-Bum: O Filme, de 1999), o elogiado O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006) – escrito, produzido e dirigido por Hamburguer –, demonstra a enorme sensibilidade de seu texto, assim como a alta capacidade do escritor de compreender mentes tão jovens. Aparentemente, tal compreensão acerca das crianças também se estende aos adolescentes. E isso ficou provado em Viva a Diferença.

Benê (Daphne Bozaski) sente dificuldades de socialização / Reprodução Globo Play

Nesta temporada, os jovens bebem álcool e usam drogas, conversam através das redes sociais (em formatos quase idênticos às redes da vida real, como o WhatsApp e o Facebook), vão para a balada de madrugada, discutem sobre problemas políticos de forma madura, erram por impulso, fazem sexo por diversão, se relacionam com pessoas do mesmo sexo – beijam pessoas do mesmo sexo –, e apresentam mais uma porção de outros comportamentos normais para um adolescente do ensino médio.

Parece que, enfim, o triângulo amoroso protagonista, os vilões banalizados e os desfechos pouco realistas, abandonaram a novela teen. Elementos que, por sinal, estiveram presentes em peso na péssima temporada anterior, Pro Dia Nascer Feliz. Agora, em se tratando das demais faixas de novela da Globo (das seis, das sete e das nove horas), Viva a Diferença ganha “com folga” no quesito qualidade – e tal observação merece ser analisada com cuidado.

O casal Lica (Manoela Aliperti) e Samantha (Giovanna Grigio) / Reprodução Globo Play

Peguemos a trama das nove, por exemplo. Batendo recordes de audiência, O Outro Lado do Paraíso, de Walcyr Carrasco, descambou para uma narração totalmente absurda e desconexa com a realidade. Temas como racismo e violência doméstica, cuja discussão é urgente, foram negligenciados no folhetim, ao mostrar a personagem Raquel (Erika Januza), uma mulher negra e ex-empregada doméstica, vivendo na casa de sua sogra, ex-patroa e agressora racista, Nádia (Eliane Giardini) – e por escolha própria. Enquanto isso, as atitudes violentas e misóginas de Gael (Sérgio Guizé) estão sendo tratadas como problemas espirituais, e a jovem Laura (Bella Piero), molestada pelo padrasto na infância, ao invés de iniciar tratamento psicológico, foi submetida a métodos de coaching, através de sessões de hipnose.

Os diálogos da trama do horário nobre são expositivos e, os personagens, unidimensionais. Mas, como a novela está tendo audiência, a Globo não irá mexer no texto de Carrasco. Uma pena, já que a influência que esse tipo de programa exerce nos brasileiros é realmente gigante. No final da tarde, no entanto, uma novela destinada ao público jovem trata de temas super importantes, de forma extremamente sensível, mas, não apresenta nem metade da audiência de O Outro Lado.

Ellen (Heslaine Vieira) enfrenta colegas racistas / Reprodução Globo Play

Em Malhação, a personagem Benê, por exemplo, portadora de Síndrome de Asperger, e interpretada por uma atriz não-portadora (Bozaski), tem suas dificuldades expostas muito delicadamente. Ela é doce, inteligente e, de certa forma, ingênua. Devido à síndrome, Benê entende a maioria das coisas ao pé da letra, enquanto sofre bullying por parte de colegas de classe. Ellen, a única menina negra das “Five”, mora na Brasilândia, é especialista em programação de computadores, pega metrô todos os dias até a Vila Mariana e, apesar das dificuldades, conquista uma bolsa de estudos em um colégio particular de São Paulo. Assim como a amiga Benê, Ellen chega a sofrer bullying na nova escola, mas devido a intenções explicitamente racistas de alguns colegas. O personagem Fio (Lucas Penteado), aliás, também negro e morador da Brasilândia, protagoniza várias cenas como vítima de racismo.

Lica, uma menina anteriormente desprendida de relacionamentos amorosos, envolve-se com a amiga Samantha (Giovanna Grigio), transmitindo-nos a naturalidade de uma relação homossexual saudável – com direito a beijos, insinuações de sexo e conversas sobre intolerância aos LGBTs. Enquanto isso, a jovem K1 (Talita Younan), desbocada e alegre, vê-se numa situação desesperadora ao ser assediada pelo próprio padrasto. K1 é aconselhada pela diretora de sua escola, Dóris (Ana Flavia Cavalcanti), a realizar um boletim de ocorrência em uma delegacia da mulher, e todo o processo é mostrado em cena.

K1 (Talita Younan) busca consolo em Dóris (Ana Flavia Cavalcanti) / Reprodução Globo Play

Além do ótimo texto e de atuações autoconscientes (ou seja, situação em que o ator “encarna” seu personagem, de maneira a sentir-se como ele e a entender suas atitudes inteiramente), Viva a Diferença conta com a sempre competente produção da Globo, representando o cotidiano da geração atual com verossimilhança e maturidade.

A temporada se encerra no dia 5 de março, sendo substituída por Malhação – Vidas Brasileiras. Enquanto isso, você pode acompanhar a reta final da novela, com a exibição de capítulos inéditos e diretamente no canal aberto da Globo, ou todos os capítulos anteriores, que estão disponíveis no streaming da Globo Play. Quanto à Vidas Brasileiras, esperemos por sua estreia, no dia 06. E que ela mantenha o nível excelente da temporada mais original e realista de Malhação até agora.

 

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