La Casa de Papel parte 4: caos, ação e melodrama

Tendo estreado no último dia 3, La Casa de Papel Parte 4 prova que a série espanhola é um dos raros casos – senão o único – em que o acerto acontece pelo excesso. A produção, que antes sustentava-se principalmente pela genialidade estratégica dos planos do Professor (Álvaro Morte), agora tem cada vez mais drama por apostar fortemente nas particularidades de todos os seus personagens.

‘La Casa de Papel – parte 4″/ Divulgação

Frenética, a nova temporada conta com abundância de ação e melodrama – e orçamento – para provocar o ódio e a empatia do espectador a todo instante; mexendo com nossas paixões mais contemporâneas e estimulando frenesi e euforia durante as maratonas.  Tudo isso para valorizar um enredo de assaltos mirabolantes que, a princípio, parecia já não ter mais muito o que oferecer, mas que agora ganha outras tantas camadas de desenvolvimento graças à habilidade dos roteiristas e ao carisma do elenco.

Impressiona, aliás, a destreza com a qual a série aprimora o equilíbrio entre caos e emoção, estratégia e passionalidade. Consolidada, La Casa de Papel não exita em jogar com os sentimentos do público; seja tomando decisões polêmicas sobre o destino dos personagens, seja nos atordoando com correrias, tiroteios e explosões. O resultado disso é o puro e entorpecente creme do entretenimento.

SOMOS LATINOS OU ALEMÃES?

Somos latinos. E não por acaso essa pergunta é feita no meio da temporada. Mais do que nas duas primeiras partes, a produção reconhece suas origens e a identificação do público – que é enorme em países onde há tradição de realização ou consumo de telenovelas -, reverbera as questões atuais desse público na trama e promove seu repertório visual e musical ao patamar de marco da cultura pop global dos últimos anos.  

Imagem: divulgação

Em uma das cenas da temporada, por exemplo, Professor e seu fiel escudeiro Marselha (Luka Peros) aparecem entre moinhos de vento. Numa possível referência ao clássico da literatura Dom Quixote, a cena sugere o descompasso entre o realismo do contexto material e o idealismo de assaltantes que dizem ser a resistência enquanto, na prática, lutando contra moinhos; apontando para as contradições do sistema democrático capitalista sem nunca de fato parecerem propositivos. Da mesma forma, a cena de Lisboa (Itziar Ituño) nos braços do povo, como na famosa foto do dia da prisão do ex-presidente Lula, nos fala de política representativa e afetos.

Desafiando limites estreitos, portanto, La Casa de Papel Parte 4 mistura a ostentação das superproduções de ação e o dramalhão das novelas latinas com uma intensidade ímpar. Assim, em nome do espetáculo tornam-se aceitáveis até as costumeiras extravagâncias estrambólicas do roteiro.

Para os próximos muito prováveis episódios, então, fica a certeza de que a montanha-russa espanhola do entretenimento ainda tem uma quantidade considerável de trilho para percorrer. Desenfreada, com direito a frio na barriga, trajetos cada vez mais intrincados, muito sacudir de sentimentos e um enorme potencial de engajamento. 

Leia também: La Casa de Papel (Parte 3) e a volta dos que não foram

Ficha técnica – Parte 4

Criação: Álex Pina

País: Espanha

Ano: 2020

Elenco: Álvaro Morte, Úrsula Corberó, Alba Flores, Miguel Herrán, Jaime Lorente, Esther Acebo, Itziar Ituño, Enrique Arce, Belén Cuesta, Rodrigo de la Serna, Luka Peros, Darko Peric, Enrique Arce, José Manuel Poga, Pedro Alonso, Najwa Nimri, Hovik Keuchkerian

Gênero: Drama, Ação

Distribuição: Netflix

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