Museu, protagonizado por Gael García Bernal, discute o valor simbólico da arte

Era noite de natal de 1985 quando dois jovens de classe média entraram no Museu Nacional de Antropologia do México e roubaram mais de 100 peças arqueológicas. Na época, o evento foi considerado como o roubo do século.

Inicialmente, a polícia e os meios de comunicação acreditaram que o roubo teria sido cometido por pessoas experientes, contrabandistas de obras de arte e artefatos históricos. Ninguém imaginaria que dois estudantes de veterinária seriam os autores de algo tão grandioso.

Imagem: divulgação

Hoje, o evento é recontado de forma tragicômica pelo filme mexicano Museu, ganhador do prêmio Urso de Prata de melhor roteiro no Festival de Berlim. Dirigido por Alonso Ruizpalacios, o longa-metragem usufrui de suas duas horas de duração para ir além da trajetória pública do famoso roubo, explorando motivações e personalidades fictícias dos dois assaltantes de primeira viagem, e propondo uma discussão sobre os valores (simbólicos e materiais) do que é histórico e cultural.

Os ladrões de Museu, Juan Núñez (Gael García Bernal) e Benjamín Wilson (Leonardo Ortizgris), são completamente diferentes entre si. O primeiro, cabeça da dinâmica criminosa, é alguém que vive frustrado e revoltado por seu contexto familiar e que, por isso, decide inventar “uma grande aventura”. Já o segundo, um tanto quanto submisso, é mais contido – mas não menos desnorteado. Em comum, os dois têm quase 30 anos, ainda vivem com os pais e se sentem perdedores.

A interação e o amadorismo dos personagens é justamente o que garante os bons momentos de humor da trama. Aliás, a decisão de desenvolver a narrativa a partir do humor de uma situação que por si só já é absurda e improvável é dos grandes acertos do longa. Dessa escolha nasce toda a atmosfera nonsense do filme, presente tanto no roteiro quanto na direção; indo desde as situações e gestos caricaturais da dupla principal até os movimentos de câmera mais inusitados.

Imagem: divulgação

Museu também avança em sua temática mirando além do universo íntimo dos protagonistas e do planejamento do famigerado roubo. Ele toca em assuntos “polêmicos” como os males causados pelo colonialismo e pelo capitalismo aos bens culturais e questiona a função social dos museus.

Para abordar esses temas, Ruizpalacios insere algumas cenas onde as críticas acontecem através de diálogos e outras em que as críticas são postas por meio de imagens e ações. As cenas que se valem dos diálogos definitivamente perdem para as que são menos óbvias, mas mais físicas e potentes.

Em determinado momento, por exemplo, o personagem de García Bernal lava a máscara maia de jade do rei Pakal  – um dos itens mais famosos do roubo – com uma escova de dentes para depois guardá-la, desprezando qualquer técnica de preservação existente na face da terra e desprovido de qualquer tipo de cuidado. Para ele, naquele momento, o objeto em questão significa outras coisas.

Juan Núñez (Gael García Bernal) e Benjamín Wilson (Leonardo Ortizgris) / Divulgação

Às vezes o personagem volta a defender a importância da manutenção da história mesoamericana (ele não admite o termo pré-hispânico), outras vezes, no entanto, brinca com as peças na areia da praia. Ao delinear assim nossa relação grotesca, enquanto sociedade, com os vestígios de nossa história, o filme mexicano chega a conversar até mesmo com a tragédia e o contexto do incêndio do Museu Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro.

Museu começa com imagens de arquivo de uma escultura de um deus sendo retirada de seu sítio arqueológico para ser transportada a um museu. Depois, os protagonistas atrapalhados são introduzidos e, com eles, suas desventuras ficcionais (baseadas no roubo real). Esse transitar entre o documental e  o caricatural – quase alcançando o surrealismo – é muito rico e admirável.

Infelizmente, lá pelo terceiro ato, o filme assume um caráter mais formal e tende a um final dado a redenções. Nessa etapa ele perde a força das façanhas que vinha conquistando, mas nem por isso perde os valores de sua temática, de suas pretensões e da atuação de Gael García Bernal. Museu é obra importante do cinema mexicano contemporâneo, e sua forma é corajosa. 

Assista ao trailer:

(Fonte: Supo Mungam Films / YouTube)

 

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Ficha técnica

Direção: Alonso Ruizpalacios

Duração: 2h06

País: México

Ano: 2018

Elenco: Gael García Bernal, Leonardo Ortizgris, Alfredo Castro

Gênero: Comédia Dramática

Distribuição: Supo Mungam Films

 

 

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