O Abraço da Serpente e a necessidade de aprender a sonhar

Indicado ao Oscar 2016 de Melhor Filme Internacional, O Abraço da Serpente projetou a carreira do cineasta colombiano Ciro Guerra a nível mundial. Ao mesmo tempo, a circulação do filme por festivais e premiações do mundo inteiro despertou nos mais diversos públicos o interesse por uma narrativa primorosa sobre como os processos da constituição da nação colombiana interferiram nas dinâmicas dos povos da floresta amazônica no século XX. 

Nilbio Torres interpreta a versão jovem de Karamakate/ Divulgação

Sob a surpreendente e imponente fotografia em preto e branco de David Gallego, então, a trama do longa sobrepõe dois momentos da vida de Karamakate (Nilbio Torres/Antonio Bolívar), o último sobrevivente de seu povo. Em seus melhores dias, o protagonista foi considerado um grande xamã amazônico; detentor de muito conhecimento. Os muitos anos de solidão e isolamento, porém, o transformaram em “chullachaqui”, uma casca vazia, sem memória e emoções.

O exílio de Karamakate é perturbado com a chegada de um etnobotânico branco e estadunidense que, seguindo a trilha deixada por um antigo conhecido de Karamakate, está à procura da rara yakruna, planta capaz de curar e ensinar a sonhar. Ao decidir acompanhar o estrangeiro em sua busca, o protagonista inicia uma viagem íntima de resgate de sabedoria ancestral e reconexão com as cosmovisões indígenas. 

Sem cores no registro da fotografia, portanto, a imponência da selva, investigada pelo olhar rigoroso de Guerra, empresta protagonismo à movimentação de seus elementos humanos.

A COLÔMBIA E A FLORESTA

Karamakate é, em si próprio, um universo de subjetividade. Confrontado a todo instante pela branquitude estrangeira e pelas tensões típicas do subdesenvolvimento latino-americano moldado pela colonização, que inevitavelmente marcam também as várias esferas de sociabilidade dos povos originários, o personagem opera como fio condutor da narrativa. 

‘O Abraço da Serpente’/ Divulgação

É através das incursões do protagonista pela floresta, acompanhado do explorador branco, que Guerra cruza o passado, o presente e o futuro da Colômbia em relação à floresta, apontando para algumas das deformações causadas por ações humanas no coração verde do país: catequização da população tradicional, escravidão, alcoolismo, militarização, extrativismo vegetal, por exemplo. Simbólico, aliás, que tais deformações apareçam durante uma jornada de procura pela planta que ensina a sonhar. 

Mais simbólico ainda que, ao permitir que o homem branco tome contato com a flor, Karamakate diga a ele, olhando para a câmera e quebrando a quarta parede, que “volte do sonho como um homem íntegro”. Neste momento, tal recomendação se comporta como um recado do diretor ao público sobre a necessidade de projetar novos modos de vida, harmonizando a existência comunitária com as demandas da Terra. Logo, permitir-se abraçar a serpente em sonho seria como aceitar imaginar a possibilidade de outros mundos.

Assim, quando a fotografia em preto e branco dá espaço para a cor, transcendendo o que é realidade material e alcançando alguma representação imagética do que seria cosmovisão  indígena, o filme transborda toda a habilidade de Ciro Guerra em manipular conteúdo, representações e gêneros cinematográficos (drama e aventura, neste caso) sem cair nas armadilhas da exotização.

SÉCULO XXI: A FLORESTA E O CORONAVÍRUS

Este ano, O Abraço da Serpente voltou a ser notícia por conta da morte de Antonio Bolívar, causada pela Covid-19. O intérprete mais velho de Karamakate, também ator da série Frontera Verde, xamã na vida real e figura ancestral emblemática da região do Amazonas, foi atendido e isolado pelo precário sistema colombiano de saúde pública, mas não resistiu. Acredita-se que a pandemia tenha chegado à Amazônia colombiana via fronteira com o Brasil.

O episódio, tremendamente infeliz, acaba por atestar de forma terrível a materialidade dos processos inscritos na ficção de Ciro Guerra; processos sempre atrelados às mais variadas manifestações de violência contra povos e territórios tradicionais.

Antonio Bolívar como Karamakate/ Divulgação

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Ficha Técnica:

Direção: Ciro Guerra

Duração: 2h05

País: Colômbia, Venezuela, Argentina

Ano: 2015

Elenco: Nilbio Torres, Antonio Bolívar, Jan Bijvoet, Brionne Davis

Gênero: Drama, Aventura

Distribuição: Esfera Cultural

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