‘O Florescer da Voz’: curta inspirado em cordel retrata o papel da mulher negra

Selecionado para a 11ª edição do Davis Feminist Film Festival – festival de cinema da Califórnia (EUA) –, o curta-metragem O Florescer da Voz (The Blossoming Voice, em tradução para o inglês) já está disponível no YouTube.

Baseado no cordel Anastácia, da escritora Jarid Arraes, o filme de pouco mais de oito minutos explora o simbolismo presente na história da escrava e personagem-título, assim como o trabalho da poeta contemporânea Mel Duarte. Esta última, por sinal, empresta a sua voz e o seu corpo para a interpretação da protagonista do cordel, cujas cenas são intercaladas com as do próprio trabalho de Mel.

Mel Duarte em cena de ‘O Florescer da Voz’ / reprodução YouTube

Dirigido pela canadense J’aime Leigh Gianopoulos, O Florescer da Voz tem como objetivo romper com o silenciamento imposto às mulheres negras e, dessa forma, documentar experiências artísticas de sua cultura. O coletivo Slam da Minas, de São Paulo, que realiza saraus e promove batalhas de poesias entre as suas integrantes, faz uma pequena, mas muito pertinente participação no curta.

Duarte, que opta pela denominação poeta, ao invés de poetisa (como forma de ser equiparada não às esposas desses artistas, mas sim a eles próprios), é acompanhada pelas pinturas de Beatriz Corradi ao longo do filme. Já esta, sendo branca, pinta mulheres negras pela necessidade de sua retratação. “Na nossa sociedade, as mulheres ainda são muito oprimidas. Mas, as mulheres negras ainda são as que mais sofrem”, comenta a artista em certo momento do curta.

Quanto a Anastácia, a máxima representação do silenciamento feminino e negro, é tida como uma escrava, fruto de um estupro e, igualmente violentada, teve seu rosto deformado por uma máscara de ferro. Ainda assim, vitimada, encontrou, na ajuda aos doentes, a própria convalescença psicológica – à medida em que lhe fora possível, é claro.

‘Anastácia”, cordel de Jarid Arraes (imagem: divulgação / jaridarraes.com)

Anastácia se transformou em símbolo de resistência e fé. “Mas, se você escutar e prestar atenção, vai perceber que a história de Anastácia se repete ainda hoje”, lembra-nos Mel Duarte. Enquanto isso, vemos o rosto da escrava projetado em mãos humanas, que se banham em água.

Toda a parte artística do curta, principalmente a cena introdutória, chama a atenção pela sensibilidade e ótima técnica aplicada. Não admira que O Florescer da Voz tenha despertado interesse internacional. Assim, nos aproximamos do trabalho de mulheres incríveis como Mel, Beatriz e Jarid. E, também, desfrutamos de uma produção cujo maior mérito é a transfiguração ao audiovisual de sentimentos sufocados há séculos.

Curta-metragem na íntegra:

(Fonte: YouTube / Mel Duarte)

 

Ficha técnica

Ano: 2017

Duração: 8min55

Direção: J’aime Leigh Gianopoulos

Elenco: Mel Duarte, Beatriz Corradi, Slam das Minas

Baseado em: “Anastácia”, de Jarid Arraes

Gênero: Documentário

Disponível em: YouTube

País: Brasil

 

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