O Irlandês, de Scorsese, realça a solidão da máfia

Não contém spoilers!

O filme de máfia mais esperado dos últimos anos acaba de ser lançado na Netflix (sua distribuidora original). O Irlandês está disponível aos assinantes da plataforma de streaming desde a última quarta-feira (27), após poucas sessões de exibição destinadas ao grande público – inclusive, em cinemas brasileiros.

O longa-metragem de Martin Scorsese, prestigiado cineasta da indústria cinematográfica, reúne nomes bastante conhecidos da direção. Um deles é o de Robert De Niro, que protagonizou diversos títulos da carreira de Scorsese; Taxi Driver – Motorista de Táxi (1976) e Touro Indomável (1980) são dois dos principais; ademais de produções que compartilham da mesma temática de O Irlandês.

Imagem: divulgação

Em Caminhos Perigosos (1973), Os Bons Companheiros (1990) e Cassino (1995), também estrelados por De Niro, o diretor retrata grupos de mafiosos elitistas dos Estados Unidos. Já em Gangues de Nova York (2002) e Os Infiltrados (2006), Scorsese retoma a abordagem da máfia. Outro nome presente em seu último lançamento é o de Joe Pesci, que integra ao elenco dos filmes de 1980, 1990 e 1995.

Desta vez, o diretor também traz à tona o talento de Al Pacino – notório por obras como a trilogia O Poderoso Chefão (1972, 1974 e 1990), de Francis Ford Coppola, e Scarface (1983), de Brian De Palma. Tanto De Niro como Pesci e Pacino estão em demais longas sobre a máfia (principalmente a italiana), como em Era Uma Vez na América (1984), de Sergio Leone; Os Intocáveis (1987) e O Pagamento Final (1993), ambos de De Palma; Desafio no Bronx (1993), do próprio De Niro; e Donnie Brasco (1997), de Mike Newell.

O Irlandês, dois sindicalistas e três mafiosos

Na trama, Frank “O Irlandês” Sheeran (De Niro) é um caminhoneiro sindicalista e integrante da máfia de Russell Bufalino (Pesci). Depois de anos de envolvimento no crime organizado, Frank repensa suas ações e a relação de longa data com o líder sindical Jimmy Hoffa (Pacino); que fora condenado à prisão por fraude e suborno, em um passado nem tão distante.

Aos que esperam pelo frenesi habitual dos filmes de máfia de Scorsese, O Irlandês pode realmente surpreender. Isso porque as tragédias pessoais e profissionais de quem (sobre)vive nesse submundo urbano estão mais em evidência do que nunca. Há, no entanto, algum glamour ainda exposto na história de Frank – mesmo que pouco. Afinal, esta não seria uma obra de máfia do célebre cineasta sem os diálogos caricatos e o abuso de uísque de homens engravatados.

Mas, de volta à abordagem central do longa-metragem, esta é, acima de tudo, uma produção de intenso drama. É necessário pontuar que o espectador não terminará sua sessão de forma eufórica. Muito pelo contrário, a disrupção brutal de Frank com a instituição familiar, tal como com qualquer laço de amizade – seja por perdas iminentes ou ocasionais –, enfatiza o sentimento cruel de solidão e velhice.

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Filosofia de terceira idade

Em três horas e meia de filme, décadas passam sem que se perceba o avanço do tempo; ainda que o rejuvenescimento digital dos atores seja muito realista e evidente. Nesse aspecto, aliás, O Irlandês brilha. Já que bancar o lançamento de uma montagem tão longa é um feito grandioso por si só, ser capaz de justificá-lo a partir de um caráter autoral é motivo de maior reconhecimento. Ou seja, fugir de um roteiro arrastado e superficial seria, de fato, algo difícil nas determinadas circunstâncias. E há, talvez, cenas específicas que não acrescentam muito mais à história; mas, nada que atrapalhe a genialidade da produção.

Além disso, Scorsese revela, através da obra, sua maturidade artística ininterrupta. Agora, já um homem que atravessa as limitações físicas e a filosofia da terceira idade, o diretor reflete sobre a própria carreira e o encaminhamento da vida. Tal como Frank, Jimmy e Russell, Scorsese depara-se com a crueza e a frustração de uma ocupação que não mais sustenta prazeres.

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Considerando-se a vasta carreira e o único Oscar por direção do cineasta (por Os Infiltrados, em 2007), pode-se imaginar que o norte-americano nunca atingira o status de “queridinho de Hollywood”. Quem sabe, na edição de 2020, Scorsese não entre no páreo duro de Melhor Direção, de modo a disputá-lo como um dos favoritos.

De qualquer modo, O Irlandês entrará com folga na temporada de premiações, cujo auge será a 92ª edição do Oscar, exibida em 9 de fevereiro. Por ora, a obra pode ser vista pelos assinantes da Netflix quantas vezes desejarem – e se sobreviverem às emoções de mais de três horas seguidas, é claro.

Ficha técnica

Direção: Martin Scorsese

Duração: 3h29

País: EUA

Ano: 2019

Elenco: Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci, Anna Paquin

Gênero: Drama, Suspense, Biografia

Distribuição: Netflix

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