Se a Rua Beale Falasse e a sinestesia do filme de Barry Jenkins

Indicado ao Oscar 2019 em três categorias (Melhor Roteiro Adaptado, Atriz Coadjuvante, para Regina King, e Trilha Sonora Original), Se a Rua Beale Falasse é a mais nova produção de Barry Jenkins, diretor de Moonlight: Sob a Luz do Luar, e estreia nesta quinta-feira (07) nos cinemas brasileiros.

O longa-metragem é uma adaptação do romance de 1974 escrito por James Baldwin, famoso escritor e ativista do movimento negro estadunidense. Na história, Fonny (Stephan James) e Tish (KiKi Layne) são dois jovens de famílias amigas e convivem um com o outro desde a infância. Conforme apaixonam-se, ambos têm de lidar com uma falsa acusação de estupro e com a prisão repentina de Fonny. Paralelamente a isso, Tish descobre estar grávida do namorado – e para o desagrado da família do rapaz.

Imagem: divulgação

Longe de qualquer traço de melodrama, Se a Rua Beale Falasse segue a sensibilidade singular de Moonlight. No mais recente, a união do cinema cuidadoso e humanizado de Jenkins com o texto político de Baldwin é bastante harmônica. O contexto social da trama – que aborda o racismo – é terreno confortável ao diretor; mas nunca algo fácil de ser explorado, pela evidente tenebrosidade do tema.

Ainda que as injustiças acometidas contra Fonny revoltem-nos, o romance puro e sincero dos protagonistas serve como uma espécie de amparo ao sofrimento, e, mais do que isso, como um acontecimento prazeroso de assistir-se.

Já enquanto a marcante trilha sonora toca, cresce progressivamente e envolve as cenas em um abraço caloroso, relaxamos no assento do cinema e mergulhamos de cabeça nos embalos familiares do diretor – mesmo que tenhamos consciência da breve finitude de momentos assim neste filme.

A eternidade daqueles poucos minutos é poética e vívida não somente ao casal adorável de protagonistas, mas, também, a quem acompanha-os do lado de cá da tela. Ademais, é simples e perceptível o afeto de Jenkins a Fonny e Tish, o que culmina na expressão do grande amor cultivado entre o casal; trabalhado sem pieguices e através de aparentes mundanidades.

Imagem: divulgação

Apesar de o roteiro da produção parecer vago e inconsistente nas sequências de algumas de suas cenas, a predominância do clima de resistência ao caos, por parte dos personagens, vigora dentre as sutilezas do enredo – além de dar a impressão de unidade narrativa. Como exemplo disso, temos o apoio vital da família de Tish à sua gravidez e à prisão de Fonny; o que sustenta grande parte da trama.

A câmera próxima e centralizada, aliás, é outro artifício indissociável ao diretor de Moonlight. Durante a ebulição do cenário em que um personagem está inserido (e evidenciado), a introspecção deste transfigura-se em um processo particular de imersão do espectador para com o filme. Assim, é possível encontrarmo-nos isolados do mundo real, graças à atraente e sensibilíssima composição artística do longa-metragem.

Mesmo que imperfeito, ao tentar contextualizar todos os desdobramentos de sua história, Se a Rua Beale Falasse é um longa-metragem extremamente rico. A sinestesia proporcionada através de sua trilha, tal como a partir do foco de Jenkins em elementos simbólicos, é o ponto alto do filme.

Antes de objetivar o didatismo, a produção baseia-se no impacto emocional que provém de problemas estruturais da sociedade. Além do que, a resistência do amor às adversidades é algo, ali, sublimado – como forma de valorizar os aspectos realmente saudáveis dos relacionamentos familiares.

(Trailer oficial legendado):

YouTube/ Sony Pictures Brasil

*Este texto faz parte da cobertura da sessão gratuita de Se a Rua Beale Falasse, promovida pelo jornal Folha de S. Paulo, em 04 de fevereiro de 2019.

Ficha técnica

Direção: Barry Jenkins

Duração: 1h59

País: EUA

Ano: 2018

Elenco: KiKi Layne, Stephan James, Regina King

Gênero: Drama

Distribuição: Sony Pictures Brasil

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