Sierra Burgess é uma Loser e a representatividade do “quase lá”

As apostas da Netflix em romances adolescentes que flertam com os clichês de gênero da comédia romântica, enquanto tocam (de leve) em assuntos atuais, seguem de vento em popa. Dessa vez, o lançamento é Sierra Burgess é uma Loser.  Dirigido por Ian Samuels e roteirizado por Lindsey Beer, o filme chegou ao catálogo do serviço de streaming no feriado de 7 de setembro.

O longa tem como par romântico os protagonistas Sierra (Shannon Purser, a saudosa Barb de Stranger Things) e Jamey (Noah Centineo, o Peter Kavinsky de Para Todos os Garotos que já Amei).

Sierra é uma garota nerd, gorda e introvertida que, por acidente – causado pela popular Veronica (Kristine Froseth)  -, começa a conversar com Jamey, o atleta bonitão e bonzinho. Enquanto ele acredita estar conversando com Veronica, Sierra desenvolve uma paixonite pelo rapaz. Mais tarde, essas relações cruzadas obviamente se transformam em muita confusão.

Shannon Purser é a protagonista Sierra / Divulgação

A trama, portanto, é simples: a jovem fora dos padrões estéticos do ensino médio começa a receber atenção do galã por engano. Depois, ele percebe que está apaixonado porque conseguiu conhecê-la para além das aparências. Levando isso em conta, fica claro que apenas a sinopse não sustentaria todo o burburinho em torno do filme. O hype surge, na verdade, por alguns outros motivos: a popularidade de Shannon Purser e Noah Centineo e o marketing desenvolvido em relação à protagonista gorda e a uma aparente representatividade.

Claro que ter uma protagonista gorda é importante. Poucos filmes escalam mulheres gordas para serem o foco de suas narrativas – principalmente comédias românticas. Mas, é impossível deixar passar o fato de que, aqui, em particular, Jamey só se interessa por Sierra porque conheceu suas outras qualidades antes de ver sua aparência – e o próprio personagem diz isso com todas as letras. Quando, então, os filmes irão tratar mulheres gordas com naturalidade? Por que Jamey não poderia simplesmente ter se apaixonado por Sierra e o romance adolescente esbarrado em outros tipos de obstáculos?

Além disso, como longa-metragem, em si, Sierra Burgess é uma Loser é fraco. O artifício do encontro improvável entre garota excluída e cara bacana, consequência de algum tipo de falha de comunicação,  já foi usado muito recentemente em Para Todos os Garotos que já Amei. O mesmo acontece com o papel de Centineo, que aqui se repete como pretendente bom moço, generoso e “desconstruidão”. – com menos destaque e tempo de tela, mas com todo apoio da Netflix para se consagrar como sensação do momento.

Noah Centineo em ‘Sierra Burgess é uma Loser’ / Divulgação

A repetição de estereótipos de personagens secundários, apesar de batida, ainda consegue se elevar minimamente por conta dos atores negros e do irmão com deficiência auditiva de Jamey. Mesmo assim, todos eles são subaproveitados. Uma pena, porque o potencial estava todo ali e foi deixado de lado para dar espaço às intermináveis cenas de Sierra enganando Jamey com as mensagens de texto que ele acreditava serem de Veronica.

Nota-se, durante o filme, um pouco de inexperiência, tanto por parte do diretor, quanto por parte da roteirista. O trabalho da dupla resultou em um filme com pouca identidade, que dedica muito tempo ao “conto ou não conto” e “mando mensagens ou não mando mensagens” e abandonou o desfecho de seus personagens (dos secundários e até dos principais, em algum grau).

‘Sierra Burgess é uma Loser’ / Divulgação

Talvez, o grande acerto de Sierra Burgess é uma Loser seja a relação de amizade e parceria que se desenvolve entre Veronica e Sierra. Jovens que tiveram educações diferentes, condições e experiências de vida diferentes, mas que, entre as tantas brechas para serem rivais, encontram uma na outra a possibilidade de serem pessoas melhores. Afinal, nenhuma delas é perfeita. Assim, as duas quebram expectativas com suas reações diante de certos acontecimentos, repetindo, também, um pouco do que vimos da relação entre irmãs em “Para Todos os Garotos”.

A Netflix parece estar querendo lançar uma nova (e quase positiva) onda de comédias ou – dramédias – românticas adolescentes. Reaproveitando velhas fórmulas do gênero, mas atualizando tipos de relações.

Estamos presenciando o que almeja ser o renascimento – ainda um tanto quanto desajeitado – de uma fórmula pronta que já rendeu e ainda vai render muitos suspiros jovens. Porém, até agora não nos deparamos com grandes inovações. Jogar um elenco popular em seu nicho no meio de uma trama atrapalhada não significa exatamente a reinvenção do arroz e feijão. Por outro lado, podemos tomar o elenco mais diverso e a desconstrução da masculinidade tóxica de protagonistas homens desse tipo de enredo como elementos significativos. Nos resta, então, esperar para ver o que o futuro reserva.

 

Ficha técnica

Direção: Ian Samuels

Duração:1h45

País: EUA

Ano: 2018

Elenco: Shannon Purser, Kristine Froseth, Noah Centineo, RJ Cyler

Gênero: Comédia, Romance

Distribuição: Netflix

 

COMENTÁRIOS

Deixe uma resposta