A tecnologia da realidade virtual no cinema

Em 1996, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas concedeu um Oscar especial à animação Toy Story, pela inovação em técnicas que permitiram a criação do primeiro longa animado de computação gráfica. Desde então, prêmios desse tipo nunca mais foram concedidos. Esse cenário mudou no dia 11 de novembro de 2017, quando o diretor mexicano Alejandro G. Iñárritu (O Regresso, Birdman ou: A Inesperada Virtude da Ignorância) foi premiado por sua instalação em realidade virtual Carne y Arena (“Carne e Areia”, em português), atualmente em cartaz no Museu de Arte do Condado de Los Angeles.

Carne y Arena é um curta realizado a partir da tecnologia de realidade virtual (como a dos videogames) que, em pouco mais de seis minutos, simula uma travessia ilegal aos EUA. A experiência é baseada em testemunhos de migrantes provenientes da Guatemala, Honduras, El Salvador e México. A obra coloca o espectador em meio ao deserto de Sonora, onde um grupo de pessoas tenta atravessar a fronteira liderados por um coiote e perseguidos pela polícia. O público ainda entra na instalação descalço e carregando uma mochila, para poder sentir a areia que foi colocada no chão, completando a imersão proporcionada pelos óculos de realidade virtual.

Instalação ‘Carne y Arena’ de Alejandro G. Iñárritu / Divulgação

O novo feito de Iñárritu já passou por Cannes, Milão, e Cidade do México. Infelizmente, não existe previsão de chegada ao Brasil. No entanto, fazer cinema usando esse tipo de tecnologia parece ser uma tendência mundial. Pensando nisso, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2017 exibiu 19 curtas em realidade virtual gratuitamente, oferecendo ao público a oportunidade de ter contato com o formato.

Entre as obras exibidas, estavam títulos como: After Solitary (EUA) e Planet (França). No primeiro curta, o espectador é transportado para dentro da minúscula cela do detento Kenny Moore. Ali, o homem conversa com o “visitante” sobre sua vida e seu tempo na solitária. Já no segundo, assim que coloca o óculos de realidade virtual, o espectador começa uma viagem por um planeta repleto de fungos, mofos e mudanças climáticas. Duas produções brasileiras também foram exibidas: Rio de Lama e Fogo na Floresta, ambas de Tadeu Jungle.

After Solitary / Divulgação

Claro que as exibições da Mostra não chegaram a ser instalações altamente elaboradas como a do cineasta mexicano, mas ter a possibilidade de acesso a produções como essa é uma oportunidade e tanto.

Por outro lado, também é necessário considerar que o cenário do cinema brasileiro não costuma ser animador. Sabemos que muita gente pelo país ainda não tem acesso sequer ao cinema convencional. Ir ao cinema é caro, muitas cidades não possuem uma única sala de exibição e existe o problema da distribuição. Além disso, executar filmes em realidade virtual exige todo um aparato específico, o que dificultaria a circulação de longas e encareceria o ingresso. Pensar nesse tipo de obra difundindo-se em grande escala e país afora é complicado neste momento. A logística, além de não ser muito promissora, vai de encontro ao caráter coletivo do cinema. Assistir a algo com um óculos de realidade virtual é uma experiência muito individual.

De qualquer maneira, é importante que mostras de cinema possibilitem primeiros contatos com um tipo de obra que ainda engatinha, e que pode ter muito a oferecer no futuro – mesmo que esses eventos lidem com um público restrito. Esperemos que os museus e centros culturais brasileiros estejam dispostos a receber e proporcionar experiências multimídia.

 

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