Bacurau e O Doutrinador, os Brasis do Brasil

ATENÇÃO, este texto contém spoilers de O Doutrinador e Bacurau 

Há Brasis em constante disputa no Brasil: um deles, completamente individualista e despolitizado, quer vingança por suas frustrações. Outro, de gente sempre subjugada, aponta para a necessidade de recuperar o sentido de comunidade e superar, de forma organizada, o que não deu certo até aqui. Em momentos de polarização, como por exemplo o que vivemos nos últimos anos, o antagonismo entre eles se evidencia, rompendo com as aparências cordiais de regulações conciliatórias dos conflitos sociais.

Imagem: divulgação

Estourada a crise sobre que tipo de sociedade queremos ser, a imagem do país harmonioso e alegre, abençoado por Deus e bonito por natureza, já não é mais suficiente para mascarar a violência intrínseca à formação de nosso tecido social. Os encontros entre Brasis deixam nítido que nunca fomos um povo cordial; sempre fomos, na verdade, dissimulados.

O cinema brasileiro, claro, não passa ileso pelas questões de seu tempo. Distribuídos pelas grandes telas, filmes com diferentes propostas e sobre diferentes Brasis disputam narrativa nos quesitos linguagem, estética e mensagem, sempre atrelados às disputas concretas que acontecem no conjunto da sociedade. Falaremos, então, sobre O Doutrinador e Bacurau, cada qual representante de um tipo de Brasil.

O DOUTRINADOR

No Brasil de O Doutrinador pulsa a insatisfação desordenada da classe média brasileira urbana, grupo social do qual faz parte o super-herói adaptado para o cinema de histórias em quadrinhos.

Ao ver a filha morrer vítima de uma bala perdida e sem atendimento público de saúde, o protagonista Miguel (Kiko Pissolato), um policial de elite, decide fazer justiça contra o sistema com as próprias mãos. 

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Pautado pelo ódio por “tudo isso que está aí”, o herói com ares messiânicos autoproclamados se põe a caçar os corruptos responsáveis por todo o mal do país. Trata-se de uma iniciativa individual, conduzida por uma fórmula de ação que segue moldes hollywoodianos e arrisca se relacionar direta e levianamente com o contexto brasileiro.

Miguel se enxerga como justiceiro social, mas o que ele de fato busca é vingança contra algo muito raso. Seus adversários são ladrões do povo e ponto. Não sabemos quase nada sobre eles. Aqui, a superficialidade do tratamento dado às tensões sociopolíticas brasileiras é bastante constrangedora.

No avançar do longa-metragem, o protagonista estraçalha cabeças de políticos corruptos e, depois, explode Brasília. Tudo muito gráfico e vago. Não há sentido concreto em tais ações. O que acontece ao país depois de Brasília explodir e cabeças rolarem? Estará finalmente resolvido o colapso político e social que causa tanta insatisfação à parcela da população que se identifica com o herói? 

O filme coloca em evidência um indivíduo atordoado,  que sequer sabe contra o que exatamente está lutando. Ele não tem um plano para depois do fim da corrupção porque age sozinho; porque em momento nenhum reflete sobre a configuração do lugar que tanto quer salvar dos vilões genéricos. Por tudo isso, e apesar de Miguel também ser um sintoma de contextos contemporâneos,  a violência da produção soa gratuita e banalizada.  

BACURAU

Bacurau, tal como O Doutrinador, usa violência explícita para tratar dos conflitos de um país tensionado. Aqui, entretanto, a violência reativa é organizada e estratégica; ela não tem a ver com vingança ou ego, tem a ver com sobrevivência. 

Imagem: divulgação

No início do filme, a chegada da personagem de Bárbara Colen nos apresenta às dinâmicas do povoado fictício do nordeste sertanejo. Sabemos que ali a água está privatizada, que o político local é marketeiro, oportunista e individualista e que a pequena população de Bacurau vive com pouco. Ficamos sabendo, inclusive, que Lunga (Silvero Pereira), outrora ativo na comunidade, está exilado e procurado pela polícia. A frustração desse povo não vem de quando o mal-estar social acometeu a todos e tornou generalizada a insatisfação, ela é muito anterior a isso.

O Brasil ligeiramente distópico delineado por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles é complexo porque considera não só as relações entre Brasis, mas também a relação entre Brasil e exterior. Numa amostra completa de contradições sociais permanentes, os diretores destrincham cirurgicamente as disputas de poderes e imaginários que são essenciais para entender as variáveis disso que chamamos de nação.

Mais tarde, quando o filme finalmente alcança o clímax com os norte-americanos caçando o que imaginam ser apenas pessoas fracas ou inferiores, Lunga, o justiceiro social e cangaceiro moderno,  sai de seu exílio e volta para ajudar a organizar uma guerrilha de resistência. Bacurau, afinal, não é passarinho, é um pássaro. A partir daí vemos sangue espirrando e cabeças sendo cortadas como símbolos, não como entretenimento grotesco.

BACURAU É EXTREMISTA?

Houve quem chamasse Bacurau de extremista. É fundamental reparar que as críticas nesse sentido caíram muito mais sobre a reação violenta do povo do que sobre como eles são caçados até chegar o momento do revide. 

‘Bacurau’/ divulgação

Não é a violência que incomoda os mais críticos ao filme. Outras tantas produções violentas estreiam com frequência e ninguém as chama de extremistas. O que incomoda, mesmo, é a inversão de papéis sociais dados como certos. Deve ser realmente difícil olhar para a tela e ver tamanha variedade de brasileiros com autoestima, conhecimento e coragem para lidar com o coletivo. Deve realmente surpreender ver “os ganhadores” não serem tão ganhadores assim.

A violência em Bacurau nunca enche a tela esvaziada de sentido, somente para chocar ou inflamar torcidas. Naquele universo se fez necessário e inadiável superar o medo e pensar estrategicamente. O pegar em armas emerge como uma ruptura drástica com um status quo falido e tirano – porém morbidamente naturalizado pelo Brasil do “deixa disso”, “não seja tão radical, o progresso exige sacrifícios”. Depois de todo derramamento de sangue, de chegar ao limite e precisar enfrentar a barbárie, essa gente consegue finalmente mirar a construção de algum futuro diferente.

E como fica evidente no decorrer do filme, os cidadãos de Bacurau apresentam plenas condições de colocar em prática novos modelos de organização social – modelos baseados na memória, na educação, no comunitário e na diversidade. Consequentemente, as cabeças decepadas e as marcas de sangue nas paredes não servem como troféus de uma guerra vencida pelo ego ou como expressão de ódio, são lembretes de que sempre que surgirem novas situações de colapso haverá a opção de, em conjunto, resistir à brutalidade e reorganizar a civilização. Portanto, Bacurau não é extremista, nosso modo de vida atual que é insustentável.

NÃO CONFUNDIR REAÇÃO DO OPRIMIDO COM VIOLÊNCIA DO OPRESSOR

É bem provável que quem enxergue Lunga como uma figura extremista hoje também tenha se incomodado com a “arrogância” de Jéssica (Camila Márdila) em Que Horas Ela Volta?. Em 2016, quando a conciliação de classes dava seus últimos suspiros e ainda evitávamos falar em colapso de sistema e barbárie, o filme de Anna Muylaert já lidava com as tensões entre diferentes Brasis. 

Imagem: divulgação

Ironicamente, Karine Teles atuou duas vezes como representante do Brasil que despreza outros e, despolitizado, usa da vingança (a partir de várias formas de violência) para extravasar seus sentimentos perturbados de crise de identidade. Em Que Horas Ela Volta?, Dona Bárbara personificava a dissimulação do período. Hoje, a forasteira de Teles funciona quase que como uma evolução sinistra do que foi Bárbara. Em outras palavras, as Bárbaras de 2016 ficaram muito mais hostis.

Não surpreende, portanto, que, à época, Jéssica tenha parecido esnobe por ousar ser altiva e inteligente, por não se limitar ao lugar de filha da empregada doméstica. Surpreende muito menos que agora Lunga soe exagerado por, numa situação limite, defender estrategicamente sua gente e simbolicamente performar uma tão ameaçadora quebra com a ordem dominante. Das duas figuras certamente esperava-se resignação, não afirmação de autonomia e autoestima. 

Se caminhamos desnorteados por estradas repletas de caos e desumanização, beirando uma situação limite, é porque falhamos como comunidade. Inertes, assistimos ao sufocamento constante de possibilidades outras e deixamos que tudo que nos restasse fosse a indignação incoerente do doutrinador Miguel. 

Por sorte, e para além da violência que tanto chamou atenção, Bacurau carrega consigo um sopro de otimismo. Cumprindo com seu papel artístico de exercitar outros mundos possíveis, o filme aponta para o instante de ruptura como oportunidade de projetar novos modos de vida. Esta é a mensagem. 

Leia a crítica completa de Bacurau aqui.
Leia a crítica completa de O Doutrinador aqui.

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