Border, uma fábula nórdica contemporânea sobre ser humano

Border (Fronteira, em português), filme sueco dirigido pelo iraniano Ali Abassi, perdeu o Oscar 2019 de melhor maquiagem para Vice. Essa não vitória era bastante previsível, afinal, dificilmente o conservadorismo da Academia abriria mão de gratificar um filme sobre a política norte-americana em prol de um filme estrangeiro um tanto quanto peculiar aos olhos hollywoodianos, que sempre apostam em tons conciliadores e muito raramente em percepções verdadeiramente provocadoras sobre a realidade.

Fascinante, horrendo e absolutamente provocador, Border nos apresenta a personagem Tina (Eva Melander), uma policial que trabalha fiscalizando bagagens e passageiros. Para realizar seu ofício, ela conta com uma espécie de superpoder: consegue farejar os sentimentos das pessoas e, assim, perceber quando deve parar alguém na alfândega para fazer a revista.

‘Border’ / Divulgação

Seu dom foi desenvolvido ao longo da infância, e tem muito a ver com uma profunda ligação que possui com a natureza. Mas apesar de ser uma funcionária eficiente, Tina vive reclusa. Graças a uma espécie de deficiência, sua aparência não é muito bem aceita pelas pessoas. Por isso, ela convive apenas com um marido relapso e possui dificuldade de sociabilidade. Sua rotina se resume a trabalhar e voltar para uma casa que pouco se assemelha a um lar de verdade.

Um dia, o dom infalível de Tina parece traí-la. Ela sente que deve revistar o suspeito Vore (Eero Milonoff), mas, pela primeira vez, não encontra nada de ilegal em sua abordagem. A partir de então, seus instintos a  aproximam do homem misterioso que confundiu seus sentidos. Daí em diante, o filme adentra o universo do folclore escandinavo para representar, fantasticamente, mazelas sociais universais e contemporâneas.

Inspirado no conto homônimo escrito por John Ajvide Lindqvist, mesmo autor de ‘Deixa ela entrar’, Border transita com fluidez entre a potência deslumbrante do audiovisual (pelos gêneros drama, fantasia e suspense) e a riqueza da literatura fantástica – algo que se deve principalmente à ligação do diretor Abassi com a escrita.

‘Border’/ Divulgação

Em depoimento ao material de divulgação do filme, Abassi afirmou: “Com o cinema, eu nunca me interessei por histórias, mas sim mais em como forçar o limite da visão, da fantasia. O cinema mainstream e até mesmo o não-mainstream, em muitos sentidos parecia estreito e restrito em comparação com a literatura. O que me interessa é olhar para a sociedade através da lente de um universo paralelo, e o cinema de gênero é o veículo perfeito para isso.”

Forçar os limites da visão sobre as contradições da essência humana é exatamente o que diretor consegue fazer em Border. Nem sempre ser humano é bonito, coerente, justo ou “ideal”, mas nesta fábula crua, sem as firulas do mundo Disney, não há julgamentos de valor. Abassi busca na mitologia escandinava elementos para representar metaforicamente o grotesco, o diferente. Ele caminha, de fato, por uma tênue fronteira entre o que é considerado humano e o que é lido como animalesco por não corresponder às convenções sociais.

Imagem: divulgação

Assim, as críticas propostas pelo longa perpassam pela questão de gênero e sexualidade, racismo, deficiências físicas, xenofobia. Tentando comparar o incomparável, Border pode, por um lado, lembrar os incômodos e constrangedores filmes de Yorgos Lanthimos, dada a natureza cruel e perturbadoramente humana da trama; por outro, o filme também remonta às representações fantasiosas de Guillermo del Toro, que usa seus monstros e forças da natureza para, alegoricamente, representar características humanas.

Border é impressionante porque é capaz de causar, simultaneamente, identificação e repulsa. É um filme “esquisito” e dificilmente tragável, mas profundamente arrebatador. Cinema surpreendente, fascinante e da melhor qualidade.

Assista ao trailer:

(Fonte: Arteplex Filmes / YouTube)

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Ficha técnica

Direção: Ali Abbasi

Duração: 1h50

País: Suécia

Ano: 2019

Elenco: Eva Melander, Eero Milonoff, Jörgen Thorsson

Gênero: Drama, Fantasia

Distribuição: Arteplex Distribuidora


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