[Análise] Seria A Forma da Água um misto entre A Bela e a Fera e Monstro da Lagoa Negra?

No último domingo (04), A Forma da Água se consagrou como um dos principais filmes de 2017 ao levar, dentre as 13 categorias em que concorria, quatro estatuetas do Oscar 2018 – incluindo os principais prêmios da noite: Melhor Direção e Melhor Filme. Aparentemente, o formato de “fábula moderna e encantadora”, de Guillermo del Toro, fascinou o público e a crítica especializada mais do se esperava e, portanto, desbancou uma das principais apostas à Melhor Filme, Três Anúncios Para Um Crime.

Levando em consideração o Oscars So White em 2016 – campanha contra a ausência de negros na premiação –, e as recentes campanhas contra assédios na indústria e quanto à desigualdade salarial, como o Time’s Up, a 90ª edição do Oscar assumiu seu caráter político já no momento das indicações.

Na categoria de Melhor Filme estavam, dentre os indicados, Corra!, um thriller sobre tensões raciais (dirigido por um negro); Lady Bird, indie sobre amadurecimento feminino (dirigido por uma mulher); Três Anúncios para Um Crime, longa sobre uma mãe que exige que as autoridades investiguem o assassinato da filha, e A Forma da Água, do mexicano Guillermo del Toro.

Numa época em que Donald Trump governa os EUA, com toda sua intolerância às minorias sociais, a presença de del Toro (O Labirinto do Fauno), como um dos principais nomes do maior prêmio de cinema do mundo, se faz tão necessária e política quanto as demais. Principalmente, por seu filme ser como é: uma fábula que, além de falar de amor, assimila muito bem as demandas atuais.

‘A Forma da Água’ / Divulgação

Ambientada durante a Guerra Fria, a trama do cineasta mexicano nos apresenta à Elisa (Sally Hawkins), uma faxineira muda que trabalha em um laboratório secreto do governo, onde um ser meio peixe e meio homem é mantido em cativeiro. Sentindo-se à margem da sociedade, e podendo contar apenas com a amiga negra Zelda (Octavia Spencer) e com seu vizinho homossexual Giles (Richard Jenkins), Elisa logo descobre que o ser humano pode ser muito mais perverso do que uma criatura rotulada como “demoníaca”.

Com ótimo humor, toques de violência gore, um enredo que carrega empatia nas entrelinhas, impecável trilha sonora (incluindo a brasileira Carmen Miranda) e brilhante design de produção, A Forma da Água arrancou inúmeros elogios da crítica, que também detectou na obra algumas semelhanças com a clássica animação da Disney, A Bela e a Fera (1991), e a referência de monstro anfíbio retirada do clássico de terror dos estúdios da Universal, O Monstro da Lagoa Negra (1954).

Perceber essas referências de del Toro só tornam a experiência de assistir a seu filme ainda mais especial. Isso porque, se partirmos de uma análise comparativa entre as três obras, é possível perceber os elementos que foram reutilizados com maestria pelo diretor e aqueles que foram transformados.

 

O MONSTRO DA LAGOA NEGRA

Neste clássico do terror de 1954, um grupo de pesquisadores parte rumo à Lagoa Negra, na Amazônia Brasileira, para tentar encontrar o ser a que pertence uma nadadeira escavada, e que não se parece com nada que já fora visto antes. Lá, eles se deparam com uma misteriosa criatura anfíbia que passa a matar alguns dos integrantes do grupo.

O visual e a origem da criatura de del Toro, sem dúvidas, foram inspirados neste filme de Jack Arnold, mas, de cara, o tratamento que o “ser misterioso” recebe é diferente. Em A Forma da Água, o monstro interpretado por Doug Jones ajudava a população da Amazônia e era considerado um deus. Aqui, o monstro é desconhecido e muito mais sanguinário e instintivo do que inteligente.

Monstro de ‘A Forma da Água’ (esq.) e o de ‘O Monstro da Lagoa Negra’ (dir.). Imagens: divulgação/ Montagem: Francamente, querida!

Vale lembrar que a origem dos mitos sobre seres meio homens e meio peixes é brasileira. O monstro da Universal, que inspirou del Toro, saiu das lendas do Caboclo da Água (ser místico que, na lenda, protege o Rio São Francisco e tem o poder de virar embarcações – os pescadores da região acreditam que, esculpindo uma carranca em seus barcos, estarão protegidos da criatura) e do Ipupiara (monstro marinho que habitava o litoral brasileiro, baseado na mitologia dos povos tupis).

Outro ponto de enorme divergência entre as duas obras são os personagens. No filme de 1954, todos são homens – com exceção da mocinha Kay (Julie Adams) – e, aos poucos, vão sendo derrotados pelo monstro exótico das águas tropicais do Brasil, deixando o ato final de heroísmo para o protagonista “viril”, David (Richard Carlson).

Comparação da relação entre os monstros e as humanas, em ‘A Forma da Água’ (esq.) e ‘O Monstro da Lagoa Negra’ (dir.). Imagens: divulgação / Montagem: Francamente, querida!

A Forma da Água traz os personagens menos improváveis como heróis: duas faxineiras, sendo uma delas muda; um pintor solitário, e um cientista russo espião, que se divide entre ser patriota e acabar com a criatura – impedindo os americanos de terem acesso àquele conhecimento –, ou salvá-la por tudo o que ela representa para a ciência.  

Em relação à “moral da história”, Jack Arnold apresenta um filme no qual a ganância e a imprudência de um homem acabam por levá-lo direto às garras do predador desconhecido e perigoso. Em contrapartida, o longa-destaque do Oscar 2018 traz Strickland (Michael Shannon), um homem ganancioso, intolerante, arrogante e opressor que, ao se deparar com o desconhecido, reage de forma absolutamente violenta e irracional. O que lhe acontece, então, é consequência de seus próprios atos, e não de um ataque instintivo e predatório.

Del Toro também acerta ao atualizar os personagens, deixando-os muito mais complexos, interessantes. Elisa, por exemplo, possui suas fragilidades, mas não é uma pessoa frágil. A personagem, interpretada magistralmente por Sally Hawkins, exibe todas as suas camadas de subjetividade sem precisar de falas. Enquanto que, em O Monstro da Lagoa Negra, chega a ser constrangedor assistir a uma personagem feminina (Kay) se comportando como mero adereço, em uma trama em que seu papel alterna entre apenas existir, sem ter função nenhuma, gritar por socorro e cair no chão sem motivos – ou melhor, para facilitar seu sequestro.

 

A BELA E A FERA

Que atire a primeira pedra quem nunca assistiu à animação A Bela e a Fera. Quando imaginamos uma história de amor entre monstro e “princesa”, é natural que o clássico Disney surja como referência imediata. Assim, lembrar-se da animação, ao testemunhar a relação de Elisa com o monstro, é compreensível. No entanto, o longa do cineasta mexicano nos coloca frente a um paradoxo: o monstro não é um monstro, a princesa não é uma princesa e não temos garantia de um final feliz.

Apesar de toda a ternura que envolve A Forma da Água, ele não se encaixaria na categoria “conto de fadas clássico”. É possível que, excluindo as cenas de nudez e de sexo, essa fábula moderna até se aproxime das novas “princesas independentes” da Disney (como Moana, Elsa e Merida). Mas, Elisa possui diferenças fundamentais em relação ao que Bela representa.

Em primeiro lugar, Elisa não muda a “Fera” para que ele se torne seu príncipe. A personagem até tenta adaptar a criatura ao seu mundo – algo semelhante ao que Bela faz quando se empenha em ensinar bons modos à Fera –, mas logo percebe que essa é uma tarefa impossível. O desafio do relacionamento entre monstro e humana é que ambos se adaptem às particularidades de cada um. Além disso, a fera, no caso, o monstro de A Forma da Água, não precisa mudar para ser salvo. Ele precisa ser respeitado como é. Não é ele o monstro do filme, senão aqueles que o atacam por medo do desconhecido ou por puro sadismo.

Os primeiros contatos entre Elisa e a criatura (esq.), e entre a Bela e a Fera (dir.). Imagens: divulgação / Montagem: Francamente, querida!

Nessas circunstâncias, o homem-peixe, que antes era um “príncipe” (um deus da Amazônia), passa a ser visto como monstro quando capturado, e volta à sua forma de pureza quando retorna à água, fazendo o caminho contrário de Elisa. Sempre tida como tola e ingênua, esta personagem sofre uma reviravolta em seu desenvolvimento, quando o longa-metragem dá a entender que as marcas em seu pescoço indicam que ela veio das águas, portanto, a “princesa frágil” seria também um monstro. Sendo assim, a fera não volta a ser “príncipe”, mas a “princesa” aproxima-se de sua própria monstruosidade.

Em determinados momentos, a relação de Elisa com o monstro pode soar constrangedora, dada a aparente ingenuidade da criatura frente ao que é ser humano. Mas, essa relação nos desperta um olhar curioso, quando ponderamos que, talvez, esse provável constrangimento se deva ao fato de que a ingenuidade – diante do comportamento humano – é característica do monstro (um bicho enorme com guelras), e não da mocinha (uma mulher delicada e romântica)  – como é o caso da animação da Disney. Quando Bela se relacionava com a Fera, por exemplo, não parecia tão “estranho”.

Durante a 90ª cerimônia de premiação do Oscar, e em uma recente publicação do jornal espanhol El País, a seguinte pergunta foi colocada: por que as mulheres precisam encontrar parceiros em seres não-humanos? Bem, em A Bela e a Fera não é bem assim. O arco da trama se sustenta em cima do velho clichê de que “uma boa mulher” seria capaz de mudar um homem de caráter duvidoso. Dessa forma, a Fera poderia voltar a ser um homem e o casal seguiria com seu relacionamento, felizes para sempre.

Na história de del Toro, entretanto, Elisa encontra o monstro (e as águas) para se sentir, de fato, Elisa. Existem, aqui, dois personagens com bagagens distintas que descobrem, um no outro, o apoio que precisavam. Hostilizados por um mundo intolerante (cada qual à sua maneira), eles unem forças e amor para sobreviver – ainda que de forma romantizada; afinal, o filme não nega seu formato de fábula. Isso soa parecido a algum tipo de ideal de relacionamento moderno, capaz de encarar os entraves das opressões diárias e de se empenhar em superar desigualdades gritantes.

Del Toro, conhecido por ser mestre no cinema de fantasia e terror, surpreende ao fazer um filme doce; é verdade. Mas, A Forma da Água é mais do que isso. Trata-se de um filme que, se valendo de tom mágico, expõe os monstros da sociedade em que vivemos e toma para si a responsabilidade de homenagear o próprio cinema, ao mesmo tempo em que o repagina.

 

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