Boy Erased: após polêmicas sobre o lançamento no Brasil, filme chega ao país através de serviço de vídeo sob demanda

Boy Erased: Uma Verdade Anulada foi alvo de polêmicas no início do ano, quando sua estreia nas salas de exibição do Brasil foi cancelada e levou o público a acreditar que o motivo seria censura, já que o longa aborda e discute a controversa “cura gay”.

A preocupação das pessoas não foi infundada: há poucos dias a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, teve que cassar uma liminar de primeira instância que liberava a “cura gay” em todo o país. O assunto figura entre as pautas do momento e é território de disputa entre conservadores e progressistas. Em tempos de fortes e constantes ataques de um governo essencialmente fascista à diversidade e à cultura, uma possível censura  ao filme não seria de se estranhar.

‘Boy Erased’ / Divulgação

À época, no entanto, a distribuidora justificou que o cancelamento foi uma decisão meramente comercial e nada tinha a ver com censura. Por não ter recebido o destaque esperado na temporada de premiações norte-americanas, o filme tornou-se aposta arriscada, e por isso a empresa achou melhor não investir em seu lançamento. A explicação é plausível, principalmente porque no último dia 18 O Mau Exemplo de Cameron Post, filme que também trata da tal “cura gay”, chegou às salas de cinema do país sem complicações – mas por outra distribuidora, com outro tipo de posicionamento comercial.

Nem sempre censurar oficialmente é necessário, não raras vezes o próprio mercado se encarrega de triturar a circulação de determinadas narrativas. De qualquer maneira, Boy Erased finalmente está acessível ao público brasileiro. Não houve estreia nas telonas, mas o longa dirigido por Joel Edgerton  foi lançado em DVD e já está disponível para compra e aluguel no site Looke.

Na trama, baseada no livro homônimo de Garrard Conley, o adolescente Jared Eamons (Lucas Hedges) confessa aos pais, um pastor da igreja batista (Russell Crowe) e uma mulher de classe alta, bela, recatada e do lar (Nicole Kidman), que sente atração por homens. Imediatamente após o desabafo o jovem é enviado ao instituto Amor em Ação, um centro explicitamente fundamentalista religioso que oferece tratamentos de reversão sexual para garotos e garotas; a famigerada “cura gay”.

Imagem: divulgação

Os pais acreditam que, buscando ajuda, Jared possa alcançar a salvação e se reaproximar do amor de Deus – como se qualquer deus não tivesse preocupações maiores do que futricar e formar opinião sobre a orientação sexual de milhões de seres humanos. Nos EUA, instituições que prometem curar pessoas não hétero sexuas são comuns. Por aqui, felizmente – e por enquanto-, elas são proibidas e vão contra qualquer indicação de profissionais sérios da área da saúde.

Há muitos anos a homossexualidade não é considerada doença e nem desvio pela Organização Mundial da Saúde. Se não é doença, não precisa de tratamento; e no fundo até a pessoa mais conservadora do mundo sabe disso.

“Fingir até conseguir”, orienta um dos instrutores do “cursinho para se tornar um hétero em x dias”; como se fingir fosse o suficiente para mudar quem se é. A frase motivacional nos leva a perceber que, na verdade, a intenção da orientação é dizer: finja ser quem não é, agrade uma sociedade mesquinha e cruel, avessa a diferenças que são intrínsecas a qualquer ser humano, abomine a intelectualidade e deixe seus pais acreditarem e financiarem  instituições como essa, que servem para absolutamente nada além de torturar pessoas LGBTQ+.

Imagem: divulgação

Tal como acontece em O Mau Exemplo de Cameron Post, hipocrisias sociais e reproduções de opressão são expostas. O lugar para onde o protagonista é enviado propõe exercícios que reforçam padrões doentios e tóxicos de masculinidade, ensinando que homens jovens devem reprimir sentimentos e performar estereótipos de gênero absolutamente nocivos, comportamentos que contribuem diretamente para  retroalimentar ciclos de violência contínuos.

A trajetória de Jared em busca de uma cura para ser aceito pela família também tem muito em comum com a de Cameron Post, mas mesmo assim os dois filmes possuem diferenças importantes.

O lugar para o qual Jared é enviado possui um regime mais duro, com menos aparência de acampamento de jovens e mais de penitenciária, como se estar ali fosse nada além de uma punição. Mais fria, rígida, impessoal e pálida, a ambientação combina com o tom do filme.

‘Boy Erased’ / Divulgação

Apesar de compartilharem da mesma temática e até certo ponto do mesmo eixo de desenvolvimento, Boy Erased não chega a ser tão subversivo e ácido quanto O Mau Exemplo de Cameron Post. Dramático e melancólico, o filme de Joel Edgerton foca mais na violência, nos pesares de quem não consegue aceitar o outro como ele é e de quem não é aceito. Por isso a obra perde um pouco de força nas contestações e dá prioridade à retratação de situações esmagadoras causadas por intolerância ao outro.

A escolha de tom carregado proporciona ao longa dois momentos de ápices dramáticos importantes: um protagonizado por Lucas Hedges e outro por Nicole Kidman. Contudo, o aceno para a reconstrução de um futuro não deixa de ser pessimista (ou realista, talvez) ao apontar para recomeços que possuem como ponto de partida relações estilhaçadas.

Enquanto o outro filme evidencia outras formas de encontrar afeto, este lida com a tentativa de reconstrução do que um dia foi despedaçado. Impossível, então, não sentir a dor e o arrastar dos sentimentos suspensos na tela.

Aviso de gatilho: o filme contém cena de estupro

Trailer:

(Fonte: Ingresso.com/ YouTube)

Ficha técnica

Direção: Joel Edgerton

Duração: 1h55

País: EUA

Ano: 2019

Elenco: Lucas Hedges, Nicole Kidman, Joel Edgerton, Russell Crowe

Gênero: Drama

Disponível em: Looke


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