Cafarnaum e a vulnerabilidade da infância

Zain (Zain Al Rafeea) quer processar os pais por terem lhe dado a vida. Essa é a premissa de Cafarnaum (Caos, em tradução livre), longa-metragem dirigido por Nadine Labaki e indicado ao Oscar 2019 de Melhor Filme Estrangeiro. Narrado quase que totalmente em flashbacks, o drama libanês remonta a trajetória do garoto de 12 anos que chegou a um tribunal para reclamar sobre ter sido colocado neste mundo tão cruel.

O jovem protagonista vive em um cortiço com o pai, a mãe e seus vários irmãos. Ele é o filho mais velho de uma família pobre, e por isso possui muitas responsabilidades, sendo obrigado a amadurecer muito rápido. Frequentar uma escola sequer é uma possibilidade para Zain e seus irmãos.

A rotina do garoto muda quando ele descobre que sua irmã de onze anos menstruou e está prometida em casamento para o dono do mercadinho onde ele trabalha. A partir desse momento, Zain deixa a inércia de sujeições que lhe são impostas por ser uma criança e se rebela contra a família, alegando que eles são os responsáveis por acabarem com a vida da irmã.

Zain (Zain Al Rafeea) e os irmãos pelas ruas de Beirute / Divulgação

Desnorteado, o personagem abandona sua casa e vaga sem rumo até ser acolhido por uma refugiada africana ilegal (Yordanos Shifera), mãe do bebê Yonas (Treasure Bankole). Por um tempo, os três vivem como uma família; depois, novos infortúnios cruzam seus destinos.

Zain passa por uma porção de desventuras até chegar ao tribunal e declarar que quer processar os pais por toda exploração que sofreu na vida. O tom de filme-denúncia de Cafarnaum é fundamentado nos três anos que a diretora passou pesquisando e entrevistando crianças em favelas e centros de detenção de menores no Líbano. Baseada nesse trabalho de investigação, Labaki apela para a emoção do público para criar empatia sobre situações de negligência e vulnerabilidade infantil – com recortes de gênero, nacionalidade, classe.

Na execução do filme, a diretora  aposta em planos abertos para expor a miséria geográfica da cidade de Beirute (onde o filme é rodado) e planos fechados para usufruir da potência do olhar surpreendentemente melancólico de Zain – que oferece uma atuação fantástica – e da desenvoltura inesperada de Treasure Bankole – ambos retratando as consequências da miséria humana em um futuro que já nasce e cresce comprometido.

Yonas (Treasure Bankole) e Zain ( Zain Al Rafeea) / Divulgação

Ao focar as lentes nos dois atores mirins não profissionais – encontrados durante as entrevistas realizadas no período de pesquisa -, Labaki coloca em evidência a problemática da invisibilidade infantil em seu país – e, de certa forma, convida o espectador a pensar a infância em qualquer lugar do mundo; afinal, poucas vezes a miséria é analisada pelo ângulo das crianças.

No entanto, Cafarnaum peca pela escassez de contextos sociais mais elaborados. Não é fácil engolir, por exemplo, que todo mal causado ao garoto seja culpa única e exclusivamente dos pais. Onde estava o poder institucionalizado que deveria assegurar o mínimo de cidadania a Zain? Se os pais vivem na miséria e tomam decisões violentas e absolutamente reprováveis, é só porque eles são pessoas cruéis? Não seriam eles também, em algum grau, vítimas de suas realidades?

É compreensível que Zain acredite que os pais sejam culpados por tudo. Trata-se de uma criança, afinal. Para ele, os pais são as maiores autoridades que conhece. Também é coerente que Zain enxergue a mãe como uma megera e a refugiada que o acolhe como uma boa mãe, uma mulher que se dedica a Yonas apesar de todo o sofrimento que passa na vida.

O problema é que em nenhum momento o filme fornece material para que a visão do garoto chegue ampliada ao espectador e a denúncia pareça mais acertada. Em raras ocasiões a diretora dá margem para planos que sugerem que o protagonista seja vítima de contradições sociais, além dos maus tratos parentais – como quando ele passeia por um parque e vê outras crianças se divertindo, aparentemente amparadas emocional e financeiramente por suas famílias.

Labaki certamente abriu mão das tensões sociais para impulsionar somente a perspectiva infantil, ignorando, propositalmente, as complexidades do “mundo dos adultos”. Zain não tem repertório para entender completamente sua posição no mundo enquanto cidadão, mas ele sabe que seu primeiro contato com o coletivo foi a partir de uma família desestabilizada. Assim, por duas horas somos conduzidos pelas frustrações, tristezas e desesperanças de um protagonista desamparado.

Acompanhamos, inevitavelmente emocionados, uma sucessão de infortúnios cruéis que vitimam crianças invisibilizadas, negligenciadas, exploradas e violentadas física, emocional, econômica e psicologicamente. Se Nadine Labaki pretendia invocar nossos sentidos de alteridade e compaixão para jogar luzes sobre a questão da infância em situação de miséria, ela certamente conseguiu. Cafarnaum é um retrato potente da ausência de perspectiva, da infelicidade, do caos humano.

Imagem: divulgação

Por isso o filme também carrega consigo o dilema da estética da pobreza: até que ponto é correto modelar a miséria humana e as vulnerabilidades infantis extremas em prol de um produto artístico/estético destinado a emocionar públicos obviamente mais privilegiados do que as pessoas retratadas? É justo retratar a precariedade do ser humano somente através do olhar ingênuo e mal-aventurado de uma criança e abdicar de elementos que tornariam a trama mais crítica e menos expositiva?

Cafarnaum é um filme visceral. A perspectiva infantil é um exercício importante, e a diretora acerta ao chamar atenção para essa classe de cidadãos tão invisibilizada. Entretanto, filmes como Projeto Flórida – obra que também foca nas condições infantis em situações de vulnerabilidade social – soam mais narrativamente sofisticados e exploram com precisão os contrastes sociais que delineiam as experiências de vida de suas crianças personagens.

Assista ao trailer:

Fonte: Sony Pictures Brasil / YouTube

Ficha técnica

Direção: Nadine Labaki

Duração: 2h00

País: Líbano

Ano: 2018

Elenco: Zain Al Rafeea, Nadine Labaki, Yordanos Shifera

Gênero: Drama

Distribuição: Sony


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