Coluna: Aqueles filmes cuja estética me faz ‘suspirar’

Todo mundo tem um filme favorito ou, pelo menos, faz ideia do gênero cinematográfico que mais lhe agrada. Identificação com uma obra (seja do audiovisual ou não) é uma coisa – quase que – totalmente subjetiva, já que depende grandemente de noções de estética aprendidas ao longo de uma vida. Beleza e contemplação visual são aquilo que nos faz sentir algum tipo de emoção positiva; desde alegria e êxtase, até nostalgia e pacificidade.

Comigo, poucos filmes fizeram com que me sentisse extasiada, não por sua qualidade como um todo, mas pelo “aspecto exterior” que transmitiram. Às vezes, somos atraídos ao cinema por produções com designs impressionantes, figurinos magníficos e fotografias peculiares. Mas, outras tantas, vivemos a experiência reflexiva, diante da estética de um filme, apenas enquanto o assistimos. Quem nunca deu play ou comprou ingresso para uma produção surpreendentemente bela?

‘Viva – A Vida é Uma Festa’ (2018), de Lee Unkrich, e sua estética fabulosa. (imagem: divulgação)

 

PALETA DE CORES E INTOLERÂNCIA

O sentimento é sempre o mesmo: acompanhamos os enredos dramáticos ou divertidos, reais ou fictícios, e, em determinado momento, damos por nós mesmos suspirando, em meio àquela experimentação sensorial. “Que paleta de cores incrível!” é uma frase que temos visto e ouvido com certa frequência no meio virtual. Por mais irônico que seu caráter soe – afinal, muitos memes circulam pela internet, caricaturando a expressão –, ela vem de um sentimento sincero. Há diversos fóruns e grupos de discussão virtuais sobre técnicas de cinema que, com o desenvolvimento progressivo da internet, abrangem discussões nesse sentido.

Cena de ‘A Invenção de Hugo Cabret’ (2011), de Martin Scorsese, que ganhou o Oscar de Melhor Fotografia em 2012. (imagem: divulgação)

É claro que, por mais que tais conversas e observações sejam despretensiosas – e até mesmo ingênuas –, todos têm o direito de expor suas impressões artísticas. Se tivermos em mente que temos direito à individualidade de cada um quanto a isso, poderemos sempre discutir saudavelmente. Um exemplo de que tal prática não é levada a sério no Brasil é o caso do Museu de Arte Moderna de São Paulo, o MAM.

Em setembro do ano passado, após o vídeo de uma criança interagindo com um artista nu vazar na internet, grupos conservadores de direita citaram “pedofilia” e exigiram o fechamento de um dos museus nacionais mais importantes. Aparentemente, a nudez é sempre descontextualizada e criminalizada pela “família tradicional brasileira” – não importando se fora unicamente usada como instrumento artístico.

 

VOLTANDO AO CINEMA,…

…além das cores de um filme, algo que enriquece sua fotografia diz respeito à simetria. Cineastas como Wes Anderson se apropriam de técnicas artísticas seculares, como o ponto de fuga, para compor cenas tão precisas e refinadas que, se pausadas, mostram-se perfeitas fotografias. Pessoalmente, simetria não é algo que me sensibilize. Se tivesse de escolher uma corrente artística que me agrade, por exemplo, optaria pelo Impressionismo ou Surrealismo. Agora, quanto ao cinema, estaticidade – ou seja, a qualidade daquilo que é estático – chega a funcionar menos ainda.

A simetria de ‘O Grande Hotel Budapeste’ (2014), de Wes Anderson. (imagem: divulgação)

Cinema é movimento, dinamismo. É realmente brilhante que alguns profissionais imprimam sua marca através de simetria e coisas rigorosamente similares. Mas, é preciso ter em mente que isso não transforma um fotógrafo, cenógrafo ou diretor em algum tipo de gênio. Pelo menos, não exclusivamente por causa disso, é claro.

A poesia imagética que alguns filmes nos proporcionam pode se dar pela irregularidade do posicionamento dos elementos em uma cena. Distorção, fluidez, imprecisão…tudo isso pode compor imagens realmente deslumbrantes. E, para tanto, não precisamos pausar o filme e, somente então, admirá-las. Em contrapartida, embarcar no dinamismo de uma cena, de uma história, transforma a experiência audiovisual em ainda mais rica.

 

MOONLIGHT ARRASADOR

No início de 2017, fui ao cinema assistir a Moonlight: Sob a Luz do Luar, de Barry Jenkins. Tirando o fato de que o longa-metragem se tornou um de meus filmes favoritos de todos os tempos, sua estética é algo que me deixou embasbacada. As cores frias de Moonlight compõem uma de suas marcas. Quando Chiron ainda é Little (Alex R. Hibbert), uma criança pequena e confusa, descobre com Juan (Mahershala Ali) que suas peles escuras ganham um brilho azulado à luz da lua. E, a partir da cor primária, mergulhamos na tristeza solitária do protagonista.

Little, então, se torna Chiron (Ashton Sanders), que, anos mais tarde, dá espaço à figura endurecida do traficante Black (Trevante Rhodes). Tons de azul, roxo e cinza predominam as diferentes fases da vida de um doce jovem, sempre disfarçado pelas circunstâncias da vida. E, ao longo do filme, somos embalados pela serenidade de suas cores frias – que mais nos aquecem do que o contrário.

Little (Alex R. Hibbert) em cena de ‘Moonlight’. (imagem: divulgação)

 

BLADE RUNNER: OS CONTRASTES DE 2049

Em Blade Runner 2049 (2017), de Denis Villeneuve, o refinamento da imagem é levado a sério. Ao recriar um mundo futurista – mas, agora, 30 anos mais velho –, o diretor optou por enquadramentos precisos e monocromáticos, quando necessário. Há sempre uma combinação de cores específica a cada cenário, e a estética fashionista predomina do início ao fim do longa-metragem.

É muito fácil se interessar pelo “balé de Villeneuve” em Blade Runner. Há uma cena em específico, quando uma nova replicante (construção biológica do universo do filme) acaba de nascer, em que cada elemento presente faz com que a imagem lembre uma performance de dança contemporânea, ou algo nessa linha. A harmonia visual deste filme é algo que nunca deixa a tela. Dessa forma, a produção deixa de ser uma simples continuação do filme oitentista de Ridley Scott, e assume identidade própria.

Cena de ‘Blade Runner 2049’. (imagem: divulgação)

 

PROJETO FLÓRIDA E SEUS TONS PASTÉIS

Já em Projeto Flórida (2018), de Sean S. Baker, o lirismo sarcástico do rosa claro, o verde-água e o lilás nas paredes do hotel barato, simbolizam o mundo de fantasias inatingível de uma cruel realidade. Não há um minuto sequer em que o elenco de crianças apareça – liderado pela espetacular Brooklynn Price, de apenas sete anos de idade –, e não nos peguemos envoltos em suas brincadeiras e travessuras (às vezes, muito preocupantes).

Imagine morar em um lugar sem garantias de segurança, e, somente a partir da doçura da imaginação infantil, permitir-se sobreviver – e viver – àquilo tudo. Para uma criança, tudo é mais simples. Portanto, ser feliz torna-se mais acessível; assim como ser triste. Pequenos traumatizados ficam marcados por toda uma vida, e é exatamente com isso que a estética do longa flerta. Afinal, aquelas crianças brincam nos arredores do Walt Disney World Resort, mas suas más condições financeiras deixam-nas à margem de tudo o que o parque representa. Talvez, no final de um arco-íris, elas encontrem uma felicidade tangível.

Enquanto isso, seguimos suspirando com a paleta de cores de todos esses filmes. Frase, esta, que não poderia soar mais sincera à esta altura do campeonato.

Cena de ‘Projeto Flórida’. (imagem: divulgação)

 

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